“Não há gente c´ma gente!” marca a estreia do Festival de Teatro Escolar na Escola Jaime Moniz

Foto Carla Martins.

Esta noite, na Escola Secundária Jaime Moniz, o XXVI Festival Regional de Teatro Escolar – Carlos Varela abriu, com o grupo “O Moniz – Carlos Varela”, com o espetáculo  “Não há Gente c’ma Gente!”. Uma dramatização pela mão de alunos que nutrem uma inconfessável paixão pelo teatro e que hoje subiram ao palco para mostrar o seu talento.

Foto Micaela Martins

Uma estreia que contou com a presença do secretário regional da Educação, Jorge Carvalho, que teceu palavras elogiosas ao dinamismo do grupo de teatro “O Moniz-Carlos Varela” e a todos os participantes. Também o presidente do conselho executivo da ESJM, Jorge Moreira de Sousa,  aplaudiu a abertura deste Festival que, ao longo de mais de duas décadas, tem contribuído para incentivar as artes dramáticas quer da ESJM quer de toda a Região, uma vez que o evento mobiliza outros estabelecimentos escolares. Afinal, a escola não se faz apenas de aulas mas de atiuvidades extracurriculares que foram a consciência cívica.

Sala cheia para aplaudir a peça da casa, que marca o início de um Festival que decorre at+e 9 de março com grandes sugestões para desfilar em palco.

Foto Nivalda Pereira.

Tal como o FN já referiu, a peça de estreia teve adaptação e encenação de Xavier Miguel, encenador convidado, a partir do texto Rei Ubu, de Alfred Jarry, que comemora os 130 anos de existência. Numa deformação grotesca da realidade que o texto propõe, a adaptação consistiu na atualização do texto ao contexto regional, explorando personagens e referências do “reino da Madeira”.

 Os alunos-atores como João Domingos, Sofia Gomes, Diogo Ferraz, Francisco Caires, Inês Alves, Luís Ferreira, Catarina Serrão, Filomena Góis, Fabiana Gouveia, Beatriz Gonçalves, Francisco Bargante, Jéssica Figueira e João Silva formaram o elenco deste espetáculo.

 

Segundo a perspectiva do encenador, a ideia foi inovar: “Primeiro surge a ideia de fazer uma abertura “diferente” para o Festival Carlos Varela. O primeiro desafio que coloquei ao grupo foi fazer um espetáculo de teatro na rua, no exterior da escola ao invés do habitual palco do ginásio. Interessa-me profundamente tirar o teatro dos palcos convencionais e levá-lo para todos os espaços onde caibam artistas e público. Mas para também teria que haver algo mais ousado nisto! É neste ponto que tenho de falar nele: Alfred Jarry. Descendente literário de Rabelais, pantagruélico no exagero dos seus mundos satíricos, por sua vez descendente do feroz sátiro grego Aristófanes!”

Foto Micaela Martins

Xaxier Miguel explica ainda a teia deste enredo que desfilou no placo da ESJM: “Foi Jarry e o seu Rei Ubu, dentro do movimento do teatro simbolista, podendo já considerar-se no Surrealismo, uma das bases do que mais tarde se veio a cunhar de Teatro do Absurdo por Martin Esslin.  Jarry explora a ideia de um reflexo alterado do Rei: quando este olhasse para o seu reflexo no espelho, este apareceria com cornos, completamente monstruoso. Foi essa ideia de reflexo alterado, de deformação grotesca da realidade, que procurei trazer para o contexto regional, explorando personagens e referências regionais, de modo a estimular tanto o sentido crítico como a consciência cultural e tradicional em relação à Ilha. Jarry escreveu esta peça para marionetas em 1888, enquanto jovem estudante, com 15 anos, para satirizar um professor. Em 1896 desenvolve e monta a peça no Théâtre de l’Œuvre, em Paris, causando um forte impacto na sociedade teatral e artística parisiense da época, devido à ferocidade satírica gerada pelo rol de personagens e situações completamente surreais e grotescas que não são mais que o reflexo exagerado dos vícios das gentes.

Foto Nivalda Pereira.
Foto Nivalda Pereira

Os reinos mudam, os reis não? Várias metáforas de um sistema político corrupto, lideranças prepotentes, monopólios opulentos liderados por primos e sobrinhos. No original de Jarry, a guerra é pelo trono da Polónia, nesta adaptação a ação passa-se toda num surrealista “reino da Madeira”, vizinho do “reino das Selvagens”, próximo do “Condado das Desertas”. Aproveitamos o contexto do Ano Europeu do Património Cultural para explorar mais o que é nosso, as expressões do nosso linguajar, a musicalidade inerente ao falar madeirense a que se pode também chamar de sotaque, e claro está, satirizar o contexto social, político, económico e claro está, tecnológico também! Não cantamos a música do Max a que aludimos com o título da peça, mas podemos eventualmente vir a recitar a receita da poncha à pescador em Lá menor a quatro vozes e violino made in China.”

O teatro escolar prossegue pela semana com várias peças em cartaz.

As coordenadoras do Festival de Teatro, Micaela e Carla Martins. Foto Nivalda Pereira.