PSD-M não pode gerir problemas sentado em sofás no Funchal e Rio revelou-se “estranhamente incompetente”, diz o social democrata Luís Filipe Malheiro

Filipe Z
Malheiro para os críticos no PSD-Madeira: “Haverá quem continue apostado em ajustes de contas. A minha proposta é que deixem passar 2019, que se empenhem no sucesso eleitoral e que então, depois disso, digam e falem o que tiverem por bem dizer e fazer”.

O PSD, de lá e de cá, tem grandes e difíceis desafios pela frente. Rio acaba de ser eleito líder nacional do partido, falando teoricamente de unidade, que na prática se traduz em divergências insanáveis, a começar no congresso e a continuar com a eleição do líder parlamentar, que apenas conquistou 39% dos votos, o que em número de apoiantes representa 35 dos 88 deputados, pouco para quem tem como objetivo a união. Albuquerque, por aqui, procura “sarar feridas”, ainda do passado, sabe que 2019 é já ali e não pode perder tempo, tem Cafôfo “à perna” e como se isso não bastasse, aparecem escolhos dentro do partido. E por isso, aquele “murro na mesa” que deu, recentemente, afirmando que colocava no “olho da rua” quem fizesse “ondas”. Foi um murro “à Jardim”, inesperado para Albuquerque. A conjuntura obriga…

Que se acabe com essa treta do cisma do jardinismo

Filipe Malheiro, social democrata convicto e de longa data, comentador, já participou na vida ativa do partido na Região e é um leitor atento do figurino que se começa a desenhar. Está hoje mais resguardado, mas continua a ter opinião e a dá-la. Ao Funchal Notícias diz que “as declarações de Miguel Albuquerque foram essencialmente um alerta, não as encarei como uma ameaça”. E explica-as, de certa forma, com a proximidade do congresso regional, lembra que “estamos a poucos meses”. Considera que o PSD-M deve “resolver rapidamente os seus problemas, que se alterem procedimentos, que não se faça a gestão de situações complexas sentados em sofás no Funchal, que se respeitem as bases, que se oiçam as pessoas, que se vá ao encontro das expectativas e esperanças, que se elabore uma proposta de programa de governo, que se promovam debates sobre os grandes problemas que hoje se colocam à sociedade madeirense e ao PSD. E se acabe com essa treta do cisma do “jardinismo” que paira desde 2015 como se isso fosse mantido para que alguns consigam sobreviver ou conquistar posições políticas no partido ou nas freguesias ou municípios”.

Deixem passar 2019”

Aos críticos, pede tempo: “Haverá quem continue apostado em ajustes de contas. A minha proposta é que deixem passar 2019, que se empenhem no sucesso eleitoral e que então, depois disso, digam e falem o que tiverem por bem dizer e fazer. Até parece que a prioridade é repetir determinadas declarações desmotivadoras e derrotistas, apostadas na desmobilização das pessoas, apologistas de uma certa lógica de terra queimada a par do agitar de algumas bandeiras de contestação interna negativas, tudo isto ao mesmo tempo que se reclamam sucessos eleitorais. E contra isso, naturalmente, que Miguel Albuquerque se insurgiu – ele limitou o alcance da sua declaração – dizendo o que eu provavelmente, no lugar dele, teria dito de forma ainda mais contundente e clara”.

Piores resultados nas Regionais, piores resultados para a Assembleia da República

Filipe Malheiro considera que “o problema do PSD-Madeira”, em seu entender, “tem a ver com o facto de que desde 2014 não conseguiu estabilizar-se internamente de forma consolidada. Foram as movimentações contra a continuidade de Alberto João Jardim – anteriores, provavelmente mais percetíveis em 2010/2011 – que originaram o aparecimento de algumas tendências internas, de contestação, mais ou menos organizadas, que culminaram com a eleição de uma nova liderança em 2015. Foi um processo polémico, que deixou marcas, dividiu o partido internamente, fragilizando-o ao ponto de, chegado a 2015, não ter deixado de apanhar duas surpresas: os piores resultados de sempre em eleições regionais, os piores resultados de sempre em eleições para a Assembleia da República, maioria absoluta regional por um mandato e perda de um dos deputados que tinha em São Bento”.

Não sei se é para o PSD-M desaparecer do mapa em S. Vicente

Este quadro de “surpresas” não se ficou por aqui. Surgiram depois as autárquicas de 2017 e o PSD regional, segundo o social democrata, “ficou muito longe do que seria de esperar, pois apenas ganhou Câmara de Lobos, Calheta e Porto Santo. Perdeu de novo em Machico, Santa Cruz, Funchal, Santana e Porto Moniz e pela primeira vez na Ponta do Sol, não tendo o direito a reclamar vitória na Ribeira Brava (apesar de erradamente alguns acharem que a esmagadora maioria dos votos em Ricardo Nascimento, um apoio que foi essencialmente pessoal, não pertencem a eleitores do PSD, o que não é verdade) e em São Vicente que, para mim, é uma questão sui generis pois não sei até hoje se a ideia é fazer com que o PSD desapareça do mapa concelhio. Consta-me que o partido naquele concelho do norte – e não só lá – hoje praticamente não existe”.

Resultados por “culpa própria”

Na perspetiva de Luís Filipe Malheiro, este resultado aquém do desejado tem um cunho de “culpa própria do PSD por muito que custe assumi-lo, graças a decisões e escolhas que ficaram muito distantes dos procedimentos que porventura seriam os mais adequados. Recomendo que rapidamente estas situações não se repitam sob pena do quadro se agravar. Aliás, olho com desconfiança – sempre olhei – soluções encomendadas e impostas a partir do Funchal, que podendo parecer resolver determinados impasses partidários, na realidade não resolvem coisa alguma, agravam o que já está mal”. E diz, claramente, que “foram sobretudo as autárquicas de 2017 que deixaram marcas internas no PSD que precisam ser resolvidas. Quando as pessoas perdem, nalguns casos inesperadamente, é natural que elas se desmotivem, se desmobilizem e se afastem”.

Rui Rio “estranhamente incompetente”

De Rui Rio, diz que geriu o processo de liderança “de forma incompetente, estranhamente incompetente”. É de opinião que “se a campanha eleitoral interna demorasse mais ele acabaria perdendo, já que a diferença para Santana Lopes foi muito reduzida e mostrou um partido dividido”.

Malheiro salvaguarda, no entanto, que “neste quadro houve influência desestabilizadora e vingativa, politicamente falando, de alguns conhecidos viúvos e viúvas do passismo, pessoas que chegaram a posições de destaque a reboque e à custa de Passos Coelho, que se deslumbraram e que não aceitam ainda hoje, mesmo depois da eleição de Rio, que Passos se tenha ido embora, derrotado, apesar da hipocrisia dos elogios que assistimos no congresso”. Mas responsabiliza Rio pelo facto de se ter “remetido ao silêncio de quase 30 dias” depois de ter sido eleito presidente do PSD. “Acho que nem ele próprio estava preparado para essa nova realidade, não sabia o que tinha que fazer. A gente estaria à espera de uma entrada de rompante no Congresso, capaz de unir o partido, de afirmar a sua liderança, de deixar recados, internos e externos, de marcar diferenças, de demarcar o seu espaço de atuação, de mobilizar as pessoas, de ajudar a superar as feridas eleitorais – as últimas nas autárquicas deixaram marcas e desmobilizaram muita gente”.

Discurso sem estrutura e sem ideias fortes

Não foi isso que se viu, sublinha Filipe Malheiro: “Mas o que vimos foi um partido sem um discurso estrutura, sem três ou quatro ideias políticas fortes, mergulhado na costumeira das negociações de bastidores entre barões e baronesas, numa compra e venda de apoios e de silêncios, que dão ao PSD de Rio apenas um tempo mínimo, mas não a certeza da estabilidade interna. Não creio que Rio seja uma pessoa com perfil para liderar o PSD. Ele não tem experiencia nenhuma de liderança de estruturas municipais ou regionais do partido. Saltou logo para a liderança nacional do PSD, no fundo achando que teria um caminho semelhante ao de Costa no PS”.

Mas já no que se refere à influência que a situação resultante da eleição de Rio poderá ter, relativamente ao PSD na Região, Luís Filipe Malheiro diz que “no caso da Madeira, e ao contrário de Passos – cuja colagem penalizou o PSD-Madeira e lamentavelmente as pessoas não quiseram perceber que isso seria inevitável e que não havia necessidade de nenhum “encostanço”, sobretudo depois de 2015 – julgo que a liderança de Rio não var dar ou tirar votos”.

Lembra que “o PSD-Madeira tem o seu universo eleitoral, tem uma sua base de apoio natural, sempre foi assim desde 1975, não depende excessivamente desses personagens. O PSD-Madeira tem é uma significativa mancha de eleitores flutuantes, que votam sem compromissos, macha essa que se situa essencialmente no centro, ora votando no PSD ora abstendo-se, ora aqui ou acolá votando noutros partidos casos do CDS ou do PS”.