Onde está o artesanato madeirense?

*Com Rui Marote

A objectiva do repórter fotográfico do FN captou recentemente estes instantâneos, bem ilustrativos do que estamos a vender aos turistas como recordações da Madeira. Ele é galos de Barcelos, ele é meias do papa Francisco, ele é sardinhas de Lisboa, ele é bonequinhos de plástico que nada têm que ver com a realidade insular. O nosso jornal online nada tem contra quem faz negócio com isto – trata-se de comércio legítimo e eventualmente gerador de emprego.

Mas também nos questionamos se as entidades governamentais não deviam incentivar a venda de artesanato madeirense mais condigno, e não destas peças “Made in China” que podem ser encontradas um pouco por todo o lado, e que de genuinamente madeirense não têm nada. Temos múltiplas associações e agrupamentos de cariz cultural que se têm dedicado a preservar a memória das tradições madeirenses. Temos um Museu Etnográfico. É verdade que não se pode forçar a existência de artesãos tradicionais, e que, pouco a pouco, os objectos genuinamente madeirenses foram caindo em desuso, e que quem os criava foi desaparecendo, porque as gerações mais jovens não quiseram dar continuidade ao saber dos pais e dos avós. Também, muitas vezes não se tratava de profissões devidamente apoiadas, que garantissem a subsistência de quem a elas se dedicava com tanto esforço.

O resultado, hoje em dia, é este. Os turistas que saem do teleférico no Jardim Botânico dão de caras com “boomerangs” com o nome da Madeira escrito, como se fôssemos aborígenes australianos. Ou com macaquinhos cuja cabeça abana ritmicamente, também identificados com a Madeira. E isto passa-se em muitas outras lojas de venda de souvenirs no Funchal. A iconografia religiosa barata, já que somos um país de milagres, partilha o espaço com todos estes objectos fabricados no Oriente por mão-de-obra barata, e nos quais basta imprimir o nome da Madeira para os identificarmos como sendo recordações apropriadas de uma visita à ilha.

As imagens falam por si. A meditar, se não seria apropriado tomar medidas apropriadas para que o artesanato que se se vende na Madeira a todos quanto nos visitam tenha algo de mais verdadeiro do que somos…