Carlos Pereira lamenta que Emanuel Câmara tenha a “ousadia de ser barriga de aluguer de alguém que não faz parte do PS”

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Carlos diz que “se é para termos um Partido Socialista disfarçado de jardinismo, não quero nada disso e estou certo que os socialistas também não querem”. Foto Rui Marote

Carlos Pereira, líder do PS-Madeira e candidato a novo mandato nas eleições de 19 de janeiro, tem dois “fogos” para apagar: Emanuel Câmara propõe-se à liderança do partido, na Região, com a “bandeira” da vitória confortável no Porto Moniz, apresentando Paulo Cafôfo como o seu candidato à presidência do Governo para as Regionais de 2019, também ele vencedor no Funchal e “acenando” com níveis altos de popularidade.

Estamos perante um modelo que coloca pressão na liderança em funções e faz desta consulta interna um foco de interesse mais abrangente em termos regionais. No meio de se assumir como alternativa de governação, a “batalha” deste final de mês promete “doer” primeiro dentro do próprio PS-M.

O atual líder faz um discurso de afirmação, diz que está em condições de se assumir como essa alternativa que o partido precisa para ganhar ao PSD de Albuquerque, lembra resultados obtidos e diz que o PS-M nunca esteve tão bem. “Este é o melhor momento do PS-Madeira e não esperava que houvesse uma candidatura que dividisse e estragasse estes resultados”, sublinha Carlos Pereira.

A mensagem para o eleitorado interno é clara: “Fizemos um caminho de sustentabilidade do Partido Socialista e é importante que os militantes percebam que têm duas alternativas, Ou apostam numa aventura, num projeto que não é um projeto do Partido Socialista, que dilui o Partido Socialista e que humilha o Partido Socialista ao ponto de, em 4 mil militantes, não haver um que seja capaz de ser candidato a presidente do Governo. Em contrapartida, têm uma candidatura que já deu provas que é capaz de gerir bem o partido, que é capaz de colocar o PS-M no centro das atenções do eleitorado e que dá confiança na organização partidária, estando em condições de apresentar um programa de governação com a marca socialista e com os ideais socialistas, podendo fazer aquilo que o António Costa está a fazer a nível nacional”.

Desplante e ousadia de ser barriga de aluguer

Carlos Pereira não faz por menos, aponta aquelas que considera como fragilidades da lista opositora e deixa um “desabafo” com direção definida para Emanuel e Cafôfo: “Lamento que um camarada tenha tido o desplante ou talvez a ousadia de ser barriga de aluguer de alguém que não faz parte do PS, que tem vergonha do PS e que teve tempo para se fazer militante e não o fez, querendo apenas utilizar o Partido Socialista como mecanismo para colocar alguém de fora a mandar no partido e destituir a capacidade do Partido Socialista ter um projeto socialista para a Madeira. Isto é muito grave e significa dar uma facada nas costas do património humano do Partido Socialista que durante 40 anos lutou por um projeto socialista e para ter orgulho de ter um socialista a mandar na Região Autónoma da Madeira”. E reforça: “Os socialistas nunca perdoarão esta ousadia de estragar os melhores resultados de sempre do PS, que pode colocar em causa este sonho de ganhar o Governo na Região e implementar um projeto socialista”.

Vitória de Cafôfo é sobretudo vitória do PS

A candidatura de Emanuel Câmara aponta o facto de a atual direção do partido não ter capitalizado, de forma conveniente, a vitória de Cafôfo no Funchal, para dar uma outra dinâmica regional ao partido. Carlos Pereira afirma não saber o que significa isso de capitalizar. Diz que a vitória de Cafôfo “é sobretudo uma vitória do Partido Socialista”, referindo ser estranho que “enquanto no plano nacional é consensual que o PS ganhou eleições e o António Costa é vencedor, que o PS ganhou nos Açores e o Vasco Cordeiro é o vencedor, mas no Funchal o PS ganhou mas o Carlos Pereira já não teve nada a ver com o assunto. Esta tentativa de retirar os proveitos do líder do PS-M é sintomático relativamente às intenções desse camarada e desse independente que, através da barriga de aluguer, quer ser presidente do Governo. É sintomático e feio”.

Percebo o incómodo dos que tinham jogadas”

Recua no tempo para provar que “todos os autarcas que agora não querem que eu seja presidente do Governo, já eram presidentes de Câmara em 2015 e foi nesse ano que o PS-M obteve o pior resultado de sempre”. Daí, as perguntas: “O que fizeram em 2015? Porque razão não usaram aquela que é a sua capacidade vencedora, que tanto falam, para colocar o Partido Socialista, então liderado pelo Vítor Freitas, a governar a Madeira? O que falhou nessa altura?”. E isto, para Carlos Pereira, prova que “sem uma estratégia global, de unir o partido com projeto, não ganhamos eleições”. Ao contrário de agora, diz, em que “fomos capazes de capitalizar a capacidade governativa nas câmaras socialistas para termos o melhor resultado de sempre nas autárquicas, em primeiro lugar, e para estarmos bem posicionados nos estudos de opinião. Nunca estivemos a dois pontos do PSD. Percebo o incómodo que este resultado extraordinário provoca, naqueles que tinham jogadas para fazer com o Partido Socialista”.

A Madeira não é uma passerelle

Quando se fala da popularidade que Paulo Cafôfo vem ganhando, que extravasa o âmbito autárquico e que assume, globalmente, uma dimensão regional, Carlos Pereira não tem dúvidas numa resposta forte e passa ao “ataque”: “A Madeira não é uma passerelle e a política não é um concurso de misses. Estamos a falar de coisas muito sérias. Quando estamos a discutir aquele que vai tratar das nossas vidas, temos que escolher os melhores, não os mais populares. Não escolhemos o Cantiflas para governar um País só porque nos faz rir, escolhemos quem tem mais competência. E tenho a certeza absoluta que, tanto os socialistas como os madeirenses em geral, não duvidam da minha competência relativamente às diferentes matérias”.

Afirma, sem reservas, que não está assustado com a popularidade de Paulo Cafôfo. “O que me assusta é que o Partido Socialista não compreenda que o futuro da Madeira dependa de um governo com capacidade técnica e capacidade política para mudar a governação. Se é para termos um Partido Socialista disfarçado de jardinismo, não quero nada disso e estou certo que os socialistas também não querem”.

Não são capazes de dizer ao que vêm

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“Não escolhemos o Cantiflas para governar um País só porque nos faz rir, escolhemos quem tem mais competência”. Foto Rui Marote

Esta referência ao jardinismo explica-se, segundo Carlos Pereira, também pela recusa aos debates. Diz que Emanuel Câmara não discute políticas e propostas “olhos nos olhos”e lamenta que “existam camaradas a promover esse postura, que coloca um perigo de termos um PS disfarçado de jardinismo. Seria, de facto, um retrocesso no qual não me revejo”. Para a candidatura de Emanuel Câmara, dirige um desafio: “Era importante explicar aos madeirenses o que é que trazem escondido, ao que vêm, qual é o trunfo. Afirmam-se muito humildes nas entrelinhas dos jornais, mas no confronto direto não são capazes de dizer ao que vêm”.

Indicadores mostram PS-M a subir

Ao fim de dois anos e meio de gestão sob a atual liderança, Carlos Pereira lembra conquistas que ajudam a entender o seu discurso de vitória. Seis meses depois de tomar posse, recorda, venceu uma eleição nacional quando o PS-M duplicou o número de deputados na Assembleia da República, o que não acontecia há doze anos. Fala de estudos de opinião favoráveis, diz que são indicadores “importantes” e que “permitem avaliar a performance da liderança e dos líderes”, lembrando que um desses estudos coloca-o a um ponto e meio de Miguel Albuquerque. “São dados importantes para o PS-M, revela crescimento fruto do trabalho”.

Mais do que as eleições internas, Carlos Pereira propõe-se, também, apresentar ao eleitorado madeirense um programa alternativo de governação. As questões ligadas à Economia ganham uma particular importância em qualquer modelo de desenvolvimento económico. Aponta um objetivo de “combater as desigualdades sociais e a pobreza”, sublinhando que “a Madeira precisa de um choque económico, significando com isto poder garantir que o investimento público segue as regras básica de sustentabilidade. Não podemos cair numa lógica de gastar muito e mal em investimentos que não são sustentáveis e alguns deles nem têm contrapartidas sociais. Esse investimento público deve ser muito ponderado”.

Madeira precisa diversificar economia

Carlos Pereira revela que a Região precisa de diversificar a sua economia, referindo que ao nível das tecnologias, que estão “sem estratégia por parte deste governo”, é importante dar um passo em frente. Fala no Centro Internacional de Negócios para dizer que deveria estar sob alçada pública. “Um instrumento fundamental como é o CINM não pode estar nas mãos de um privado com o governo apenas a ver. Isso é miopia do ponto de vista económico”. Defende alterações no Turismo que não sejam apenas a hotelaria e a restauração, alargando o leque a outras áreas que possam formar um desenvolvimento global”.

Há grupos económicos que têm determinado a governação regional

Neste domínio económico, o líder socialista salvaguarda a posição dos empresários e o relacionamento que deve existir com o poder político. Defende que “devem ser parceiros da governação, mas não devem ter poder decisão sobre políticas importantes para a Madeira. Há grupos económicos, na Região, que têm determinado a vida da governação regional, o que é mau para os restantes empresários”.

A Saúde e a Educação são setores que Carlos Pereira considera, também, relevantes no seu projeto de futuro. O novo Hospital, sim, mas com “uma reestruturação do Sistema Regional de Saúde” para evitar as listas de espera e os condicionalismos que têm ocorrido. A Educação deve dar passos concretos no sentido reforçar as necessidades da Madeira, sendo isso determinante no tal modelo de desenvolvimento económico de futuro, onde há um outro aspeto, também ele de extrema importância, que é o relacionamento com o exterior, quer com o Governo da República quer com a União Europeia”.

Vem aí novo pacote de Fundos e não se sabe o que o Governo vai fazer

Neste contexto da União Europeia, o candidato e líder socialista lembra que “estamos em vésperas da avaliação de novo pacote financeiro de fundos europeus e não sabemos aquilo que o Governo Regional pretender, ao contrário do que já se faz a nível nacional. E repare que, hoje, a Madeira é uma Região que baixou para Região de Coesão, estamos abaixo dos 75% da média europeia, o que permite captar mais apoios. E deve referir-se, neste enquadramento, que por culpa deste Governo Regional, só nos últimos dois Quadros Comunitários de Apoio, perdemos 1500 milhões de euros de fundos europeus, porque passamos para Região rica quando nunca fomos Região rica e só fomos assim porque houve imputações anómalas da riqueza do CINM, que não beneficiava a Madeira. Felizmente que a União Europeia limpou essa situação. Mas se agora tivermos mais dinheiro sem planificação, vamos ficar igual ao passado”.