A arte de fotografar de João Pestana num tempo que passou a valorizar mais os retratistas de ocasião

Ilustração de JOSÉ ALVES.

João Pestana morreu e com ele um pedaço da arte de um dos cada vez mais raros mestres da fotografia na Madeira. Bem o vimos a deambular pela cidade, carregando o peso da idade e das agruras, mas sempre com o olhar atento a um fragmento da cidade, da sua gente, das suas virtudes e misérias.

Com 88 anos de idade, João Pestana sucumbiu à voragem do tempo e deixa aquela que é a menina dos seus olhos, as eternas fotos para um dia poder ser justamente recordado.

É preciso avivar que João Pestana não era um retratista ou um polivalente que também fazia um pé de meia com os retratos, como hoje o mundo debita e as empresas se apressam a franquear as portas para não pagar aos verdadeiros artistas da fotografia. Hoje, qualquer um faz retratos, mas cada vez menos sabem honrar a fotografia. João Pestana fez parte de uma geração especialista na arte de fotografar. Aquele grupo de profissionais que não coleciona fotos em quantidades industriais mas “a foto” que sabia ler o momento ou as pessoas. Aquela geração de fotógrafos que o mundo moderno da alta tecnologia foi gradualmente empurrando para a prateleira, por conta de empresários grandes em altura e em saldo, mas pequenos, vorazes no lucro e parcos na cultura, iludidos de que uma maquineta qualquer poderia dar uma vassourada nos mestres da fotografia. Mas as modas e os homens passam inexoravelmente e os talentos subsistem. João Pestana partiu. Compete às entidades com responsabilidades de índole cultural prestar a devida homenagem a João Pestana, não com comendas para a fotografia do jet set ou honrarias póstumas, mas preservando e divulgando a sua obra. Mas não só. Prestando homenagem, em vida, a uma mão cheia de grandes fotógrafos que a Madeira tem, nem sempre valorizados pelos incontestáveis brios na arte de fotografar e pelo serviço público que também têm prestado. Querem uma lista?