O VAR e o Cdc: realidades paralelas

Hoje por hoje há curiosidades linguísticas da área futebolística, a primeira mais recente que a segunda, que parecem ir dar ao mesmo. Refiro-me mais precisamente ao moderno VAR e ao velhinho, mas sempre atual, Cdc.
No que toca ao primeiro acrónimo, quem vê futebol, sabe perfeitamente que é abreviação de vídeoárbitro. Já no caso da sigla Cdc, para poupar-vos à maçada de adivinhações ou a emaranhados de hipóteses rocambolescas, passo sem mais demoras a descodificá-la: “Comidos de cebolada”.
Nos últimos tempos, muito inversamente às boas intenções que estiveram na sua base, o vídeoárbitro tem sido acusado de não vir favorecer a verdade desportiva, ajudando a “comer de cebolada” os clubes mais pequenos ou, mesmo entre os grandes, ajudando a “comer” uns em proveito de outros. Como dizem alguns adeptos do “Bom Português”, “não me acredito”.
Como se tal acusação não bastasse, a tecnologia ao dispor do VAR é tão evoluída e eficiente que, “aqui há atrasado”, o sistema até ficou, repentina e estranhamente, inoperacional. Seria material chinês… ou contrafeito? Deverá estar em fase de inquérito. Lá para 3020 saber-se-á o que realmente se passou. Cá estaremos para o confirmar.
Só uma coisa me deixa indignado neste “black-out” tecnológico. Então não é que nem uma alma caridosa (uma que fosse) teve a arquimediana epifania de (em alternativa) recorrer aos infalíveis sinais de fumo ou ao sempre certinho Código Morse!!! Inacreditável.
Para aprimorar a situação, quando o novo sistema está, digamos, “de saúde”, é o VAR que, por obra e graça do Divino Espírito Santo, se avaria ou fica em ponto-morto.
Não que, uma vez por outra, o sistema não tenha contribuído para repor a verdade, concedo. Porém, ao que parece, o problema não está na tecnologia, não senhores.
O verdadeiro problema não está no modo de comunicação entre o árbitro e o VAR. De todo.
O verdadeiro problema está no “ruído” à comunicação, designadamente nos desentendimentos entre ambas as partes. Por outras palavras, o “quero, posso e mando” de alguns dos primeiros ou o receio e “o deixa andar” de alguns dos segundos.
Diz o ditado que “Errar é humano.”, mas também se diz que persistir no erro é coisa de asno para cima.
Fazê-lo de maldade, para mimar um clube em prejuízo de outro, é tese que não acompanho. Deus me livre de semelhante heresia ou falso-testemunho. Que fique claro.
Antes, e sem reservas, acredito no compreensível erro humano ou irremediável incompetência, vulgo aselhice, da esmagadora maioria dos envolvidos. Agora, em “campos inclinados”, em arbitragens tendenciosas ou “roubos de sacristia”, isso é que não. É tudo limpinho, limpinho. Tem piada que já ouvi isto em qualquer lado…
A arbitragem portuguesa, não obstante um que outro gritante asnear, está bem e recomenda-se. De resto, parece-me absolutamente pacífica esta evidência, ou não? Afinal, “Branco mais branco não há”. Ora, assim sendo, como é que se percebe a recente imposição de uma indisfarçável “lei da rolha”, no que respeita às críticas negativas às arbitragens, quando toda a gente vê, pensa e sabe que estamos no “melhor dos mundos”??? Alguém tem resposta plausível para esta espécie de fenómeno “para anormal”?
Desengane-se quem pensa que temos apenas o Cristiano Ronaldo das Finanças. Temos, igualmente, e em resmas, a clonagem de Pierluigi Collina na arbitragem e nos vídeoárbitros. Inquestionavelmente.
Por outras palavras, em matéria de “apitos” nascem todos os dias verdadeiras estrelas, não apenas para consumo interno, mas também para exportar. Sobretudo para exportar.
Para compor tão vistoso ramalhete temos os elegantes dirigentes, dos chamados “clubes grandes”, e diretores de comunicação, “avessos a pressões”, a tecerem rasgados “elogios” mútuos em tudo quanto é sítio, mesmo onde o Diabo perdeu as botas. Ele é ao pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia. Uns recordando o “Apito Dourado” de má memória, trazendo à colação cabazes de “fruta”; outros apontando mensagens alegadamente comprometedoras de correio eletrónico, falando de padres e de bênçãos, mas, conforme as conveniências ou incómodos, todos atacando ou defendendo o VAR, sejam uns e outros “Comidos de cebolada” ou o inverso. Para mais ajuda, os comentadores dos programas desportivos, alguns muito estarolas, aparecem em todos os canais, de máximos e faróis de nevoeiro, quando se trata de ver faltas, foras de jogo, vermelhos ou pontapés de penálti contra o adversário, mas, em sentido contrário, circulam de mínimos ou de lâmpadas queimadas quando está em causa o seu clube, apresentando justificações e argumentos tão credíveis quanto os de Vasco Santana às tias no Jardim Zoológico.
Além disso, e não menos refrescante, é colocar políticos na qualidade de comentadores desportivos, alguns de qualidade muito duvidosa, a misturar as estratégias políticas mais matreiras com futebol, já para não falar da espantosa ida de Fernando Gomes à Assembleia da República a fim de implorar a intervenção política nos problemas “prioritários” da bola, a verdadeira “questão essencial” do país, seguida dos “reality shows” da Teresinha, da voz de passarinho da Maria Leal, dos originais (ou não) do Tony Carreira, das gravatas mais vanguardistas de Manuel Luís Goucha ou das milagrosas aparições do Emplastro.
Ainda é cedo para balanços, é verdade, mas dizem-me que, mesmo havendo no final desta época mais acertos que erros com a utilização do VAR, haverá muita gente dos clubes do Olimpo português, e mesmo muitos, muitos árbitros, apostados em acabar de vez com ele para poder (à maneira clássica) manipular gente e resultados, à vontadinha, levando uns ao colo, e outros de arrastões, usando e abusando do velhinho, mas sempre atual, e porventura mais “eficiente”, Cdc.
Seja como for, o que não se admite é que D. Manuel Clemente (porque o futebol é uma religião); a vizinha do 3.º esquerdo (que todos os fins de semana tem de gemer a TV sintonizada no futebol, em lugar da sua querida novela); Marques Mendes (o homem que sabe de tudo, muito antes da Maya deitar as cartas); a esposa de José Castelo Branco (conhecida apreciadora de homens de pernas ao léu e collants); José Gomes Ferreira (entendido em encontrar défices e passivos debaixo de uma pedra); José Sócrates e os seus generosos amigalhaços (entendidos em generosos “vouchers” de amigalhaços); Ricardo Salgado e o seu batalhão de advogados, capazes de transformar um fora de jogo de 10 metros numa inequívoca e sólida posição em linha, ou mesmo Donald Trump, especialista em diálogo e pacificações, não tenham até à data emitido um sábio e isento parecer sobre esta coisa do “prolongamento” do VAR ou da sua “morte súbita”.
Aí, sim, tínhamos a questão resolvida.
Porém, como de costume em Portugal, nunca se entrega os casos mais intrincados a especialistas. Para VARiar.