Crónica de Viagem; Buda & Peste, beijadas pelo Danúbio

Rui Marote
Visitei Budapeste pela primeira vez em Abril de 1999, na comitiva oficial de Jorge Sampaio. Passados 18 anos, estou de volta a um país que na altura era um dos membros recentes da NATO, e que tinha apresentado a sua adesão à União Europeia.
Recordo que na altura que a situação que se vivia na região era difícil, uma vez que a República da Jugoslávia fazia fronteira com a Hungria. Tudo tendo como pano de fundo uma decisão complicada: que fazer com um comboio russo de alegada ajuda humanitária à Sérvia, e que queria atravessar o país.

O aspecto dominante desta visita que tinha como propósito manifestar o apoio português à candidatura húngara à União Europeia. Os dois presidentes exprimiram o desejo de que uma solução política acabasse por ser encontrada para o conflito e também a sua grande preocupação com a dramática situação humanitária que se vivia na altura na região. Mas foi com grande cautela que Arpad Goncz (presidente húngaro na época) comentou os problemas levantados a Budapeste pelo comboio russo com alegada ajuda humanitária que atravessou o território do seu país em direcção à Sérvia, e que colocou as autoridades húngaras perante uma situação delicada. O comboio, de setenta e três camiões com “ajuda humanitária”, que incluía combustível, e cinco veículos blindados só em parte pôde atravessar a Hungria – um membro recentíssimo da NATO e, como tal, solidário com a operação militar desencadeada contra Belgrado nesses tempos.

O Governo húngaro não deixou passar os cinco veículos blindados mas, depois de longas negociações de bastidores, deu luz verde aos camiões que transportavam combustível para a Sérvia. Goncz explicou na altura aos jornalistas que era preciso encontrar o justo equilíbrio entre o cumprimento das normas internacionais que a Hungria não podia transgredir (o embargo decretado pelas Nações Unidas contra a Sérvia) e os deveres de ajuda humanitária. “Temos de encontrar uma ponte entre estas duas responsabilidades” disse então o presidente húngaro. Uma “ponte” extremamente difícil de estabelecer para Budapeste, constrangida pelas suas obrigações para com a NATO e a preocupação de garantir relações cordiais e pacíficas com um país – a Sérvia – que não só era, e é, seu vizinho, como alberga uma minoria húngara de 350 mil pessoas.

A travessia do comboio russo foi uma espécie de teste a este equilíbrio delicado. Em Budapeste não havia grande dúvida de que se tratava de uma tentativa de Moscovo para demonstrar que podia ainda dominar os antigos parceiros do Pacto de Varsóvia, mesmo quando esses parceiros passavam a ser membros da Aliança Atlântica. Ora, a Hungria teve de demonstrar que era exactamente o contrário o que se passava.
Terminada essa visita de trabalho com o presidente Sampaio, no entanto, sinto que pouco ou nada conheço desta bela Budapeste.Não esqueço, porém, a visita ao Parlamento, obra prima de arquitectura que ainda hoje mantenho na minha retina.
Regresso a um país que já é membro da comunidade dos países europeus, mantendo ainda a moeda original os Forint; mas os euros são bem aceites e o comércio tem muitos produtos catalogados em euros.

A Tap tem voos directos e a preços comparados com a Funchal -Lisboa -Funchal, a menos de 50%. Esta é uma cidade de contrastes, por vezes louca, por vezes tradicional, o novo  e o velho lado a lado, o Leste  e o Ocidente coabitando harmoniosamente. A efervescência própria dos tempos de mudança paira hoje no ar em Budapeste,e o resultado é uma urbe bela e fascinante. surpreendente.
São dois mundos na mesma cidade, Buda e Peste, à espera de serem descobertos. O Danúbio beija as duas margens, de arquitectura nobre e imponente, pejada de cafés e com uma vida social intensa. Em 1867 um musico austríaco jovem criou uma melodia em jeito de valsa  que se tornou universalmente reconhecida.Esta obra prima foi idealizada pelo artista numa viagem pelo rio Danúbio, inspirada nas suas águas, intitulada : “An der schonen blauen Doonau”, ficando registada nos anais da música do século XIX, simplesmente como O Danúbio Azul.

O músico, claro, chamava-se  Johann Strauss que contribuiu para o interesse que cidades como Viena, Bratislava ou Budapeste, despertam, desde então, em viajantes de todo o Mundo.
Como referi, o “ex-libris” de Budapeste é sem duvida o sobranceiro edifíicio do Parlamento húngaro, localizado bem na margem do rio no lado Peste.
Ainda em Peste, vale a pena conhecer o belísssimo mercado, andar num dos sistemas de metro mais antigos do mundo, passear pela rua Andrássy, fazer compras, entrar nos bares e cafés da área. Já no lado de Buda, encontramos  ruas empedradas do bairro do Castelo, protegido pela Unesco com classificação de Património da Humanidade, com uma paisagem deslumbrante devido a sua localização no alto. A partir dos jardins do Palácio Real, com o Rio Danúbio e a Ilha Margarida, percorrem-se o Baluarte dos pescadores, a igreja de São Mateus, o Museu de História de Budapeste, lojas de antiguidades e o magnifico Café Miró. Budapeste é na realidade um local que junta três cidades, Obuda, a “antiga Buda”, Buda, a cidade alta situada na margem esquerda do Danúbio, e Peste, a cidade baixa na margem direita do rio.A cidade mais antiga é Obuda, ocupada pelas tribos celtas até a conquista dos romanos, no século I a.C. Buda nasceu como colónia romana, no ano 14 a.C. Entretanto, em 896 d.C., a união de várias tribos magiares derrotou os romanos, colonizando a região e instalando-se em Aquincum, que passou a ser chamada de Obuda no século XIII. Os dominadores edificaram duas cidades novas separadas pelo rio, Buda e Peste.

A nação da Hungria nasceu no ano 1000, com a coroação do seu primeiro rei, Estevão I, e em 1222 foi outorgasda a primeira Carta Magna da nação.

Mas em breve os mongóis invadiriam e destruíriam a cidade, mais precisamente em 1241, tendo o rei Bela IV ordenado sua reconstrução, dando lugar à nova Buda, substituindo a antiga Obuda.

Buda tornou-se então a capital do país em 1361, marcando o início de uma época de florescente desenvolvimento que chegou ao seu ápice no século XV, com o grande imperador Mathias Corvino.

Em 1526, Peste caiu sob o poder dos turcos e, pouco depois, em 1541, aconteceu o mesmo com Buda, que se tornou a capital turca, enquanto Peste ficou desabitada. Os turcos mantiveram o poder até 1686, ano em que foram derrotados pelos Habsburgos e Budapeste passou a formar parte dos domínios austríacos.

A época dos Habsburgo foi muito florescente para a cidade e durante a mesma foram construídas diversas igrejas e edifícios públicos. Em 1784, José II estabeleceu uma universidade em Budapeste e em 1849 foi inaugurada a primeira ponte permanente sobre o Danúbio, a famosa Ponte das Correntes.

Na época das revoluções que convulsionaram a Europa, em 1848, os húngaros levantaram-se contra os austríacos, sendo porém sufocada a revolta e restabelecendo-se a autoridade dos Habsburgo.

Em 1867, foi constituído o império austro-húngaro, tendo início uma época dourada para a capital e a nação. A indústria concentrou-se em Peste, que se tornaria a parte mais povoada da cidade. Em 1873, deu-se a união definitiva de  Obuda, Buda e Peste sob o nome de Budapeste, e a cidade chegou a ser a segunda em importância do Império Austro-Húngaro, depois de Viena.

Depois da Primeira Guerra Mundial a Áustria renunciou aos direitos da monarquia austro-húngara, separou a Hungria da Áustria e foi constituído o estado húngaro independente. Durante a Segunda Guerra Mundial, Budapeste sofreu grandes bombardeios aéreos dos Aliados que destruíram parcialmente a cidade. No final da guerra, estava nas mãos dos soviéticos.

Em outubro de 1956, os habitantes da cidade desafiaram o governo e a influência soviética, colocando um fim na intervenção das tropas soviéticas.

Com a queda da União Soviética em 1989, a Hungria abandonou o comunismo e recuperou a sua liberdade, nascendo assim a actual República Húngara, que, em 2004, adentrou a União Europeia.