Entrevista a Paulo Cafôfo (5): Projectos para zonas específicas da cidade

Fotos: Rui Marote

O Funchal Notícias finaliza a extensa entrevista realizada com o edil funchalense, Paulo Cafôfo, dando conta de um périplo que efectuámos na companhia do mesmo a determinados pontos estratégicos da cidade do Funchal. São zonas com as quais Cafôfo tem uma identificação especial, quer por gostar de as frequentar, quer porque tem para as mesmas projectos de dinamização que, insiste, hão-de concretizar-se. É o caso da Praia Formosa, onde gosta de fazer “jogging” e de dar um mergulho; da zona histórica de São Pedro, onde se situam muitas das suas recordações de infância; ou do bairro da zona abaixo do antigo paiol, hoje sede da Liga dos Combatentes. Passeámos por estes locais, e deles o nosso interlocutor nos deu conta das razões da sua identificação, ou dos sonhos que tem para os mesmos.

Do topo do bairro do paiol, de onde se perspectiva uma assinalável vista da cidade do Funchal, Paulo Cafôfo contempla a circulação automóvel e as casas abaixo, e a vista que abarca tanto a montanha como o mar. E fala-nos dos seus sonhos para o mesmo.

“Este é um daqueles antigos bairros operários que a cidade tinha. Tínhamos o bairro dos Moinhos, o bairro dos Frias, do Grémio, dos Bordados, e isto, aqui, como diz o (arq.) Paulo David, é como um navio encalhado, porque é uma parte da cidade que parou e estagnou no tempo. Encalhou mesmo aqui. Nós temos aqui um espírito comunitário grande, é quase como uma aldeia dentro da cidade. Só que temos aqui problemas, da população envelhecida que aqui vive, temos casas degradadas, muitas delas são arrendadas, e temos dificuldade de acessibilidades. Isto é, não entra aqui um carro, e mesmo o acesso pedonal custa muito. Por cima ou por baixo, o percurso pedonal que temos de fazer para chegar às habitações é difícil”, refere. 

Considera que ali existe uma malha urbana interessante feita de casario baixo, e com pequenas ruelas, becos.

“É uma malha urbana muito particular. A minha ideia aqui para isto era até para servir de exemplo para a cidade. Mas era uma operação integrada. Não só a parte de reabilitar paredes, mas reabilitar pessoas e dar vida aqui ao bairro. Há a reabilitação urbana, que são as casas em si, mas nós temos de romper com determinadas zonas do bairro, para poder ter acesso automóvel, condicionado, como é óbvio. Uma ambulância, quando precisa de vir aqui buscar alguém, tem uma dificuldade tremenda. Mas, mais do que a acessibilidade a carros, que tem de ser criada, há hoje em dia diversas formas de podermos ter uma acessibilidade pedonal. Dou exemplos: o castelo de São Jorge, em Lisboa, onde a acessibilidade está a ser estabelecida através de elevadores, através de rampas… Em Coimbra, se reparar, também temos para a alta de Coimbra estruturas, que permitem, através de ascensores, poder levar as pessoas para os locais. E aqui, o que queremos é não só que as pessoas que aqui estão possam ter a possibilidade de sair mais facilmente, mas que este local se torne atractivo para outras pessoas que aqui vivam. Nós temos uma vista fabulosa da cidade, de qualquer ponto aqui, e isto também é importante: tmos de ter espaços de sociabilização e contemplação. Há aqui locais onde é perfeitamente possível colocar pequenos miradouros tradicionais…” 

Para o edil, é essencial criar ali uma outra centralidade, o que implicará, necessariamente, adquirir espaços, e criar outros, pequenas praças, miradouros, jardins… Poderia ser um exemplo de recuperação da cidade.

“São poucos os funchalenses que vêm viver aqui. Mas eu próprio poderia, por exemplo, morar aqui. Há que preservar estes pequenos aglomerados urbanos. Este é um exemplo, para a cidade do Funchal, de um bairro esquecido, e que ganhará nova vida”.

Dali descemos para a zona histórica de São Pedro, que se encontra intimamente ligada às recordações de infância do presidente da Câmara, que chegou a temer que toda ela ardesse aquando dos incêndios de 2016.

“Foi uma área gravemente afectada. Fui dos primeiros a chegar aqui, porque eu ia para o Curral dos Romeiros, ia no carro do comandante (dos bombeiros) e de repente ouvimos, nas comunicações, “a Igreja de São Pedro está a arder”. Bem, dei a volta, e viemos cá para baixo. Fomos dos primeiros a chegar. O carro de comando não estava preparado para intervir numa ocasião destas, pedimos obviamente reforços, mas foi muito difícil, porque… percebemos que não era o edifício da igreja que estava a arder, mas o edifício da cantina do Governo. Mas foi de uma rapidez tal, foi tão assustador… Estava aqui tudo negro escuro, de uma escuridão aterradora. E isto foi à tarde. Ali, pegou na Felisberta; depois, passou para este lado; e depois pegou onde era o armazém da Madeira Sol. Mas de uma maneira tão rápida que eu disse: A cidade vai arder. Se não tivéssemos controlado isto aqui, isto ardia tudo. E a preocupação era… eu mandei evacuar o hotel, os hóspedes, por precaução. Porque realmente o fogo podia ali chegar”.

As memórias de Paulo Cafôfo têm muito a ver com o local. Era ali que seu pai, comerciante, trabalhava.

“Ele trabalhava na rua de São Pedro. Eu andei ali na creche no convento de Santa Clara, e este percurso, de Santa Clara até São Pedro… ainda tenho todas as memórias, os cheiros da confeitaria Felisberta, o cheiro a bolos… O meu pai trabalhava ali num daqueles prédios que ardeu. Na verdade, esta zona, a Praça do Município, a Rua do Bom Jesus… eu na verdade sou um homem da Baixa. Isto era um pouco o meu quintal, era um pouco isto. Eu vivia na Rua do Bom Jesus, precisamente por cima dos Machados (sapataria), na esquina da Rua da Conceição com a Rua do Bom Jesus”, diz-nos. Muitos conotam-no com a zona do Campanário, onde dava aulas. Mas, na realidade, Cafôfo é do centro do Funchal.

Sobre o prédio da antiga confeitaria Felisberta, afirma: “Estamos a adquiri-la. O projecto vai avançar. Às vezes não avança tão rápido por questões burocráticas. Mas nós estamos a adquirir. São vários herdeiros, o que também complica o entendimento. Mas a preocupação foi, não só comprar a Felisberta, mas o restante prédio, porque a Felisberta era só uma parte, mas estamos a adquirir toda a parcela, para devolver… A Felisberta não terá esse nome, não será a Felisberta, porque os tempos são outros, mas mesmo assim estamos em busca das antigas receitas da confeitaria”.

Em São Pedro, pretende também dar a primazia às pessoas, no que à circulação na zona da Rua das Pretas diz respeito. ”

Há um conceito, também em termos de cidade, de devolver a cidade às pessoas. Houve uma altura, com a modernidade, em que os carros ocuparam a cidade. Nós agora tentamos fazer o inverso. Dar primazia às pessoas. Não é retirar os carros da cidade, mas por exemplo, temos aqui uma Rua (das Pretas) em que temos um projecto de uma rua de espaço partilhado, em que circulam carros e pessoas, mas com a prioridade para as pessoas. O que é que se vê nesta rua aqui? A maior parte das pessoas circulam a meio da rua, o que é natural, porque os passeios são muito pequenos. Os carros, quando os condutores vêem esta faixa de estrada, é como uma pista. Entendem que a prioridade é para eles. Basta uma pequena intervenção para pôr tudo à mesma altura, ou seja, sem passeios, e obviamente os condutores já têm mais cuidado, já contam com a circulação das pessoas”.

Apontámos-lhe: Mas olhe, uma das críticas que lhe apontam é que gosta demasiado de motas. Dizem que tem enchido a cidade com elas.

Recusa, no entanto, a acusação:  “Não sou eu que encho a cidade de motas. Não sei se sabe, mas entram 17 mil motas por dia no Funchal. Não são as 17 mil que são minhas.,não sou eu que trago essas motas todas para o centro do Funchal. Ignorar isso é não perceber que tem que se intervir. É como quando falávamos nas esplanadas, e referíamos a questão de ter uma cidade organizada e ordenada, onde as esplanadas devem estar, não devem estar espalhadas a torto e a direito, sem qualquer planeamento e ordenamento. Concordo em absoluto. Mas também as motas. Nós tínhamos as motas em cima de passeios. Os passeios são para as pessoas. E portanto, as motas têm de ter lugares próprios para estacionar. E foi esse ordenamento que nós efectivamente fizemos, face a esta realidade das 17 mil motas que vêm todos os dias. E nós não  podemos ter motas espalhadas, e esse ordenamento foi preciso fazer, e temos hoje em dia um maior controle sobre o ordenamento de motos na cidade”.

Prosseguimos para a Praia Formosa, onde o autarca nos dá conta do gosto que lhe dão as suas actividades atléticas assiduamente praticadas naquele local, onde gosta de correr.

“Eu corro aqui de manhã, e a quantidade de pessoas que fazem este percurso da promenade até Câmara de Lobos é extraordinária, e é realmente uma vida que aqui se cria. Não é qualquer cidade que tem esta zona balnear à beira-mar”, salienta.  Correr ali, diz, ajuda a limpar a cabeça. “Libertamo-nos do stress. Normalmente sou uma pessoa calma. Tenho uma gestão das emoções que me permite alguma tranquilidade. Mas ninguém é de ferro, nem eu sou um super-homem. Preciso de ter alguns escapes. Um é correr e o mar, claramente. Dar uma corrida e dar um mergulho no mar, no final dela, é algo que beneficia a minha saúde mental, da qual não prescindo. Outra é a meditação. Gosto de poder, através da meditação, esvaziar a mente. Curiosamente, quando corro estou a pensar em coisas, a cabeça está a funcionar. Às vezes até a correr se resolvem coisas que, num ambiente fechado, são mais difíceis de resolver”, confessa.

Observa, pensativo, o passadiço instalado naquele local. Resistirá ao Inverno?, questionamos. Cafôfo espera que sim. Os Invernos fustigam bastante aquela área, mas há que assegurar o percurso às pessoas. O presidente tem, para ali, também a expectativa de uma requalificação, uma vez resolvidos os contenciosos que se arrastam no tempo.

 

“A Praia Formosa é, pela sua extensão, uma praia notável… é a nossa praia. E faltam aqui alguns equipamentos de apoio a este complexo balnear, que só se vão resolver com a questão dos terrenos, tanto da Shell como dos Welsh. Se repararmos, esta faixa aqui da cidade, e estes terrenos aqui, serão fundamentais para requalificar esta zona. Temos o calhau, que é extraordinário, calhau e areia, com aquele pontão que ali foi feito, a união do ilhéu ao Oeste, criou-se uma praia de areia… E aqui temos este misto de areia e de calhau. Isto só se vai resolver com o novo Plano Director Municipal, com a salvaguarda dos investimentos que ali sejam feitos, de um espaço público, uma faixa de espaço público. Nem estou a falar de domínio público marítimo, mas que se crie ali uma zona pública. Os proprietários dos investimentos terão garantido o seu espaço, mas há aqui uma obrigação de haver uma cedência, para usufruto do público. Sem isso, sem essa disponibilidade desses terrenos, teremos sempre aqui um espaço condicionado e limitado, não só em termos de estacionamento, que é um problema, mas, mais do que o estacionamento, com a questão duma zona balnear, com equipamentos de fitness, jardins, equipamentos públicos que serão fundamentais para que este espaço, com muito boas condições naturais, possa ser requalificado”.

Haverá vontade de resolver a situação, entre cujos problemas se conta o estacionamento, em que o Tribunal deu razão aos Welsh, ali proprietários de terrenos?

“Para mim, a questão nem é o estacionamento. Houve um constrangimento com isso, nós alugámos a montante um estacionamento gratuito, mas para mim o pior não é isso. Nós temos uma faixa de calhau. Sem podermos ocupar uma zona para instalação de equipamento de usufruto público, este será sempre um espaço com limitações. É isso que nos falta, neste espaço, que é, enfim, a zona que queremos manter com acesso livre e qualidade para os banhistas”, refere.

As acessibilidades, assegura, estão garantidas mesmo para as pessoas portadoras de deficiência.

“Nós ao fundo temos umas plataformas verdes para pessoas portadoras de deficiência. Se alguém quiser, a empresa Frente Mar garante o acesso. Agora no Inverno, com a subida do mar, não podemos ter em permanência ali os equipamentos. Bem como, um sistema para um apoio aos invisuais. Penso que nisso até somos exemplo. Agora, não basta isso, queremos efectivamente mais. Precisamos de balneários, cacifos, esse tipo de equipamentos para apoio aos banhistas”.

Um outro local que Paulo Cafôfo gosta de frequentar é a baixa do Funchal, junto ao mar. Às vezes pode ser visto nas esplanadas da Praça Cristiano Ronaldo. Mas já frequentou mais a zona. Também aprecia a zona do Socorro, acima da Barreirinha. Gosta de sentar-se ali a ler um livro ou um jornal. “Passo aí um bom bocado”. Mas nem por estar a ler se livra das atenções e das solicitações das pessoas. Perguntámos-lhe se o facto de estar a ler inibe um pouco mais o contacto das pessoas que com ele desejam falar, pelo facto de estar concentrado num livro… “Por acaso, acho que não” (risos).  “Mas tenho uma boa capacidade de lidar com isso. Não há barreiras. As pessoas, quando querem, vêm falar comigo. Mas faz parte das funções. Sou uma pessoa que gosta muito de estar em locais públicos. Tenho a consciência de que, para ter a noção da realidade, temos que estar cá fora a falar com as pessoas. Não posso estar só no gabinete, tenho que vir cá para fora. Qualquer político devia ser assim; um autarca, então, tem, por excelência, de fazer esse trabalho de proximidade”, conclui.