Será que estamos no fim da era cristã?

As civilizações antigas foram vencidas, umas sucederam a outras. A mais significativa para nós, porque estarmos envolvidos nas profundas marcas dela, foi a civilização romana. Hoje marca-nos a vida em tantas dimensões. Os costumes, a organização hierárquica tanto no domínio civil tanto no domínio religioso. Outro domínio também muito significativo para nós é toda a panóplia de construções e as enormes ruínas que existem por toda a  Europa, com as mais imponentes e significativas em vários lugares da cidade de Roma, o centro do grande Império Romano.

No entanto, temos que pensar que esta civilização que em muitos momentos da sua história parecia ser invencível e insubstituível, afinal, foi vencida e seguiu-se outra cultura, outra civilização. As guerras e os conflitos entre os vários povos romanos ou romanizados, o surgimento da religião Cristã, a sua expansão e domínio, fizeram cair a civilização romana, deixando-nos, em termos arquitectónicos, as maravilhosas ruínas e alguns edifícios que tanto encantam os turistas da atualidade.

Mas qual a diferença entre o encanto das ruínas romanas e o encanto das catedrais, no que diz respeito a se terem convertido em espaços museológicos? – São enormes as multidões de turistas que se enfileiram, pagando a preço de ouro, as entradas nas ruínas romanas, nas catedrais e nos monumentos cristãos, para apreciarem e fotografarem as belezas extraordinárias da arte cristã. Mas, ainda restam alguns momentos em que tais catedrais deixam de ser museus, para darem lugar às celebrações religiosas, a celebração da Missa, que reúne tristemente tão reduzido número de pessoas.

A título de exemplo, participei numa dessas celebrações dominicais na Igreja de Santa Croce, a maior igreja franciscana do mundo. Com 115 metros de longitude e 38 metros de largura, só é superada em tamanho em Florença pela Catedral, onde estavam 15 pessoas sem deixar de fora o presidente da cerimónia. Numa outra ocasião em outra enorme Igreja estavam cerca de 70 pessoas. No entanto, as praças e ruas circundantes a estes espaços religiosos estão sempre apinhados de gente de todas as idades que deambulavam para um lado e para outro. Passado o intervalo para a celebração religiosa, as portas voltam a abrir como museus, enchem-se novamente de visitantes na condição de turistas para apreciarem a arte.

A meu ver é isto o declínio do Cristianismo? – Grandes igrejas, convertidas em museus, com entradas pagas a preços exorbitantes… Um verdadeiro negócio, a fazer jus ao capitalismo tecnicizado selvagem, sem ética e sem princípios nenhuns da humanidade a tomar conta da vida inteira das pessoas, sem guerras e sem revoluções, como diria o outro, limpinho, limpinho… Salvaguarde-se no entanto o seguinte, não venham dizer que esta exploração é feita pela Igreja Católica, porque estes monumentos, hoje são na sua larga maioria pertença dos Estados.

Assim, caminhamos para outro tempo ou outros tempos, onde Deus falará à humanidade não nos moldes de há dois mil anos para cá. Mas, será grave que a mesma humanidade a quem Deus quer falar hoje, mesmo que de outras formas e feitios, não sinta necessidade disso e não venha deixar nada para a eternidade que encante e maravilhe os que vierem depois de nós, contrariando as grandes culturas romana e cristã, que nos deixaram as maravilhas que hoje contemplamos e rentabilizamos culturalmente, artisticamente e até financeiramente.

Vamos então a alguns dados que constato, relativamente à viragem religiosa que assistimos hoje. No domínio da arquitetura o que se constrói tem prazo de validade para menos de 100 anos; as máquinas que utilizamos duram pouco e não as largamos por nada deste mundo, cada vez mais agarrados a elas, o domínio dos telemóveis sobre nós e sobre a nossa vida, é bem revelador; a comunicação e os seus meios estão cheios de mentira e falsidades que só duram enquanto não surge outra coisa; o prazer de se andar  todo roto e tatuado dos pés à cabeça; a falta de valores que deu lugar ao vazio do pensamento, da educação e do sentido do transcendente; a ingratidão dominada pela lógica exacerbada pela loucura do dinheiro que comanda tudo; a falta de respeito pelo bem comum e nenhuma vontade de fazer belo e bom para quem vier depois de nós; a ideia que o fim da vida absoluto é o presente e que o futuro acaba logo ao fim de cada dia…

Face esta absoluta efemeridade que nos comanda, é caso para temermos o pior desta humanidade desalinhada que caminha cada vez mais vazia e inconsciente, chegando ao ponto de não se importar com as falhas graves que se manifestam na sua «casa comum», o único espaço conhecido até à agora onde é possível a existência. Esta humanidade vive como se tivesse um mundo inesgotável para explorar e dominar ou então como se tivesse centenas de mundos iguais a este. Puro engano, segundo os cientistas.

Pergunto, será que estamos no fim da era cristã? Ou antes estaremos no fim da própria humanidade e do mundo em que vivemos? – Alguma coisa vai surgir, ninguém pode dizer que sabe o que será…

Em Lisboa na abertura da Web Summit, o seu fundador Paddy Cosgrave, pediu que as pessoas se levantassem e que cada participante cumprimentasse três pessoas. Perante isto o Nuno Morna perguntou: «o meu medo nestas coisas é que se entre no campo da religiosidade absurda. Será que estamos a assistir ao nascimento de uma nova religião? O Tecnologismo?» E os conselhos de Caitlyn Jenner que foi um dos nomes mais esperados de toda a Web Summit. A transgénero mais mediática da década veio falar sobre identidade de género e contou a sua história e pelo fim da sua apresentação deixou os conselhos do sucesso: «Apostem, façam batota, mintam (lie, em inglês) e roubem». Eis o el dourado do mundo novo.

Os sinais são confusos, mas anunciam com toda a certeza tempos e modos novos.