Pedro, o novo mestre-escola do Governo

Ilustração de José Alves.

A meio do seu mandato e interpretando o sinal dado pelos eleitores nas autárquicas, Miguel Albuquerque chamou Pedro Calado ao governo para número dois. É caso para dizer que, agora sim, a Quinta Vigia abre as portas ao filho pródigo para uma esperada lufada de ar fresco num executivo que precisa convencer muita gente, desde logo os descontentes do partido.

Pedro Calado tem a coordenação política do governo e, mais do que as palavras, os atos mostrarão se a aposta foi bem feita para evitar a queda livre do partido, com Cafôfo à ilharga à espera de mostrar o seu mediático sorriso.

Digamos que Pedro Calado entra em cena como a velha figura do mestre-escola, como sugere o ilustrador José Alves,  que tem de definir aos seus pupilos o trabalho de casa e, acima de tudo, saber comunicar a mensagem. Aliás, a grande falha de comunicação do executivo resultou da excessiva vaidade e deslumbramento de alguns governantes que trocaram o contacto natural e sadio com o povo pelo seu barroco espelho. O ego pessoal de alguns cresceu e a população sentiu-se desamparada e desapontada com os seus governantes que lhe prometeram renovação. Por isso, falta acima de tudo uma liderança que não se diga pelas pessoas para os cartazes da propaganda mas que vá até elas – também quando não há eleições –  e governe para elas. Para isso, urge andar no terreno, ouvir estados de alma, filtrar aspirações e amarguras e mostrar que todos, os do passado e os do presente, formam o plantel certo para ganhar. Por isso, o mestre-escola tem de planificar, orientar, acompanhar e estar atento aos ouvidores do reino, não o das intrigas e dos ajustes de conta, mas os da verdade e da coesão. O mestre-escola vê, interpreta e atua, sempre para ontem, e não até ver.

O Parlamento é outro plano inclinado. Já se diaboliza a entrada dos pupilos Sérgio Marques e Eduardo Jesus na Assembleia, como possíveis focos de divisão e oposição à bancada da própria maioria. Afinal, ambos não continuaram no governo. Também aqui, a comunicação interpares terá de funcionar e não colocar sempre em “banho maria” o que deveria ter sido decidido ontem. Não se vislumbra que ambos os deputados queiram a sua entropia em nome de apoios a um D. Sebastião que poderá surgir na bruma…

O xadrez político regional está a mudar as peças. Os partidos vivem chicotadas psicológias sérias e silenciosas. Tudo isto é excelente em democracia porque é um sinal que é preciso agitar para renovar. Não é por acaso que já se fala em gerigonças à direita e à esquerda, termo compreensível mas que empobrece a importância das alianças em democracia.

Neste contexto, onde tudo se joga para as eleições de 2019, Albuquerque, Pedro Calado e Rui Abreu poderão já começar a dizer aos seus pupilos que o único espelho que devem levar no bolso é o da população e das suas necessidades, com base num diálogo franco e aberto e não nas respostas telegráficas, azedas ou revanchistas. A maratona há muito que já começou.  É caso para lembrar a máxima, quem não suporta o calor, não pode trabalhar na cozinha.