Mudanças no Governo com dois “feridos” que poderão ser um problema político

Pedro Calado viu finalmente as suas condições serem aceites.

A remodelação do Governo Regional está consumada. Dentro de dois anos, até à eleição de novo governo, saber-se-á se Miguel Albuquerque jogou as “fichas” certas para manter-se no poder.

Pedro Calado surge agora como o “alter ego” de Albuquerque. Há dois anos não teve as condições exigidas e entra agora com a coordenação política do executivo e as pastas das Finanças e Economia, o que desencadeou logo a discordância de Sérgio Marques e Eduardo Jesus, os secretários que saem do governo. Das escolhas ressaltam inevitáveis feridas que poderão ser “uma pedra no sapato” deste governo, chamadas Sérgio Marques e Eduardo Jesus.

Sérgio Marques sai magoado mas para muitos esta saída era esperada.

Sérgio Marques  era o número dois de Albuquerque. A preferência do presidente por Calado para número dois encontrou a resistência do ex-secretário dos Assuntos Parlamentares e Europeus, que terá dito não continuar nestas condições. Fora do governo, com mágoas à flor da pele, Sérgio Marques deverá ocupar o seu lugar de deputado no grupo parlamentar do PSD, num quiçá indisfarçável e subtil conflito com o Governo que o contrariou. Abre-se aqui um possível foco de instabilidade dentro do grupo parlamentar social-democrata. Basta lembrar que o PSD só tem um voto a mais do que a oposição parlamentar. Num grupo com deputados descontentes, o futuro pode ser incerto,. conforme já se comenta nos bastidores da política. Aos descontentes do partido juntam-se também os descontentes da bancada parlamentar social-democrata.

Jorge Carvalho reforça poderes e tentará, à sua maneira, estabelecer consensos na Assembleia com a pasta dos Assuntos Parlamentares.

O atual secretário regional da Educação vê o bom trabalho feito no governo com a sua continuidade garantida no Governo e reforçada com as Comunidades e Assuntos Parlamentares. Jorge Carvalho, que é visto como um homem de consensos, de pontes, poderá ser uma aposta de Albuquerque numa ligação entre o Governo e o Parlamento.

Eduardo Jesus sai mas em rota de colisão com Albuquerque.

Além do problema Sérgio Marques, soma-se outro problema, Eduardo Jesus. O ex-secretário da Economia, Turismo e Cultura sai em assumida rota de colisão com Miguel Albuquerque, devendo regressar à vida empresarial. Eduardo Jesus e Pedro Calado, como diz o povo, “não vão à boleia um com o outro” e o secretário cessante não aceitou que a Economia lhe fosse retirada para entregá-la ao novo super-governante. Quando Eduardo Jesus declara guerra ao Grupo Sousa por causa das taxas OPM, para além de outras relações empresariais mal explicadas, começou a ditar a sua saída do governo. Mas os dados estão lançados. Pelo que se conhece, Eduardo Jesus não se vai calar.

Paula Cabaço: de criticada a desejada.

A grande surpresa desta remodelação recai sobre Paula Cabaço, que passa de mal-amada a promovida para o disputadíssimo lugar de secretária regional do Turismo e Cultura. Todos se recordam do desaguizado público entre Albuquerque-Cabaço, numa cerimónia pública, que ditou o afastamento da então diretora do Instituto do Vinho e Bordado da Madeira. Quem a conhece, reconhece-lhe a competência técnica e capacidade de trabalho mas procuram a faceta de política que uma secretária regional deverá ter. Afinal, a pasta do Turismo obriga a uma exposição mediática constante e o tempo dirá se a surpresa deste governo terá “unhas para tocar guitarra”.

Amílcar Gonçalves: o diretor que sobe a secretário.

Amílcar Gonçalves é o engenheiro que sobe de diretor regional de Equipamentos a secretário regional de Equipamentos e Infraestruturas. Uma escolha que gerou também alguma novidade mas que não parece criar focos de conflitos, pelo menos inter-pares. No entanto, as polémicas do dossier ribeiras do Funchal, que desgastaram Sérgio Marques, também estão associadas ao novo secretário, visto que era diretor regional.

Após dois anos de contestação em silêncio, sobretudo dos empresários, à gestão contabilística das contas e nada política, eis que Rui Gonçalves foi o primeiro a adiantar-se a uma mais do que esperada saída do governo. O que é curioso e pouco falado é que os vários sectores, privado e público, estão saturados das exigências e complicações levantadas por uma figura que raramente aparece mas que tinha um ascendente decisivo no secretário cessante das Finanças, a actual directora regional da Administração Pública, Ana Luís.

O coordenador político

Pedro Calado surge neste “refresh” do governo como a grande aposta, aliás, já era para ter sido vice mas, após uma passagem como administrador do Grupo AFA, retoma efetivamente o lugar de número dois, com a particularidade de ter a coordenação política, devendo substituir Albuquerque nas ausências do presidente.

Calado é conhecido pela simpatia inata e pelas boas relações que mantém com todos, nomeadamente com os grupos económicos, sendo logo um peso importante da sociedade que deverá serenar os ânimos com esta mudança no governo, calando assim os muitos empresários descontentes que, aliás, também se comenta já estarem a jogar em dois tabuleiros a ver o que 2019 dá: Albuquerque ou Cafôfo?

O vice-presidente trará mais-valias para o governo nas pastas que estão sob a sua coordenação, com destaque para as Finanças, Economia e Transportes. Mesmo não tendo na sua alçada as Obras Públicas, a sua anterior ligação profissional ao setor privado não passará despercebida ao olhar da oposição regional.

Outro aspeto a ter em conta é a pasta das Finanças que está a cargo de Pedro Calado. Nem mais nem menos do que um dos principais focos de contestação do governo, pela criticada  “mão fechada” do secretário cessante, apesar da sua competência técnica. Pedro Calado é chamado a serenar os ânimos, o que não será tarefa fácil, dada a falta de verbas e de receitas. Um desafio gigante que se coloca a Pedro Calado até 2019.