“Funchal Pride” afirmou nas ruas do Funchal o direito à diferença na orientação sexual

Fotos: Rui Marote

O Funchal viveu hoje um acontecimento decididamente diferente, numa comunidade tradicionalmente conservadora e maioritariamente católica, onde o preconceito ainda é um elemento bastante presente na vida diária. Uma marcha do “orgulho gay”, à semelhança do que acontece em numerosas outras cidades do mundo, desceu à baixa da cidade e percorreu diversas artérias abanando bandeiras com as cores do arco-íris, exibindo tarjas com mensagens anti-discriminação e gritando bem alto slogans reivindicativos. “Homem, mulher, eu beijo quem quiser”, e outros ditos do género vieram juntar-se às mensagens já expressas nos cartazes e nas faixas, reclamando o direito à diferença e a não ser incomodado por causa das preferências ou orientações sexuais.

A marcha acolheu algumas personagens “exóticas” pela indumentária pouco usual, que vieram dar algum inusitado colorido ao centro do Funchal. Não faltaram entre os participantes pessoas de todas as idades, desde adolescentes a septuagenários, e houve quem aproveitasse a ocasião para se assumir publicamente; outros participaram na marcha numa acção solidária, incluindo membros de um partido político, o Bloco de Esquerda, que já há muito tempo defende os direitos da comunidade  LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais transgénero, travestis, transexuais, intersexuais, e etc. Roberto Almada, coordenador regional do BE, e Paulino Ascensão, deputado do BE-Madeira na Assembleia da República, marcaram presença. Não vimos representantes de nenhuma outra força política.

Quanto à população em geral, reprimiu, em termos gerais, os seus habituais comentários homofóbicos, guardando-os para si ou para quando os participantes na marcha, integrada no evento mais amplo “Funchal Pride” – que incluía um arraial no Jardim Municipal – tivessem passado. Na realidade, a maioria das pessoas, que víssemos, reagiu com bom humor, com algum espanto à mistura, mas registando o evento através das câmaras dos telemóveis.

Alguns, no entanto, resmoneavam entre dentes a sua indignação com o acontecimento, incluindo, ironicamente, proprietários de bares onde os manifestantes foram fazer despesa – depois de terem consumido e saído. “Esta gente não se enxerga”, comentavam entre dentes patroa e empregada. Um outro cidadão fez questão de manifestar de forma bem clara a um nosso colega jornalista a sua discordância: “Isto é uma vergonha”, sentenciou.

É óbvio que os organizadores do evento não pensam da mesma maneira. António Serzedelo, da associação “Opus Gay”, salientou a importância deste evento, “porque é só uma vez por ano que os homossexuais, as lésbicas, os bissexuais e os transexuais têm oportunidade de ocupar o espaço público, em liberdade, e em pé de igualdade com os heterossexuais. O resto do ano, o espaço público é ocupado pela heterossexualidade triunfante”, referiu.

António Serzedelo, da Opus Gay

Por outro lado, acusou António Serzedelo, no passado “o jardinismo perseguiu violentamente com palavras as minorias sexuais. Isto é uma machadada decisiva nesse jardinismo triunfante de amiguismo”. E isto, salientou, graças a três forças: “à Câmara Municipal do Funchal, que hoje tem à frente um novo presidente, ao Partido Socialista e ao Bloco de Esquerda, a quem envio as minhas saudações”.

Serzedelo referiu que as pessoas da sua idade – tem mais de setenta anos – ainda estão muito “no armário”, mas assumiu que muito tem vindo a mudar em termos de mentalidades, “sobretudo com a malta nova”. Durante décadas após o fim do fascismo em Portugal, houve muitas recriminações contra os homossexuais, disse, e mesmo “perseguições políticas, sociais, religiosas, etc.”

Este responsável disse que não faz a apologia da homossexualidade, apenas entende que a mesma deve ser tratada em termos de igualdade com a heterossexualidade, com a bissexualidade ou com “quem quer ser virgem”: todas essas opções, considerou, “são respeitáveis”. Quanto à diversidade de gostos, em seu entender só contribui para a multiplicidade que se quer em democracia. Serzedelo, além da defesa dos direitos dos homossexuais, tem um longo historial de defesa de posições políticas, sociais ou de cidadania.

Por seu turno, Emanuel Caires, da “rede ex-aequo”, entidade associada, na Madeira, à realização desta iniciativa da marcha e do “Funchal Pride”, que também inclui o arraial que agora ainda decorre no Jardim Municipal, realçou que o objectivo da iniciativa é trazer para a praça pública as questões relacionadas com a homossexualidade e outras questões que têm a ver com a orientação sexual. “Constatamos que na Madeira estas questões não são muito visíveis, pois as pessoas sofrem um conjunto de pressões, sociais, laborais, até mesmo culturais”, para que as suas identidades sexuais sejam reprimidas.

O objectivo é “trazer esta discussão para o espaço público, para discutir estes temas sem preconceitos e discriminações”.

As expectativas para a adesão à manifestação era grande, e acabou por consubstanciar-se na presença de umas duzentas a trezentas pessoas na marcha que principiou no Largo do Colégio, frente à Câmara Municipal do Funchal, desceu pela Rua de João Tavira, passou frente ao café Apolo e à zona das esplanadas, pela Assembleia Regional da Madeira, meteu pela Rua da Alfândega passando frente ao Palácio de São Lourenço na Avenida Zarco e finalmente percorreu a placa central da Avenida Arriaga até chegar ao Jardim Municipal.

Emanuel Caires admitiu, no entanto, que mais pessoas poderiam ter participado, mas provavelmente não estavam confortáveis para assumir a sua identidade sexual ou de género em espaço público. “Claramente, para isso é preciso alguma coragem e preparação individual”, admitiu.

Relativamente ao seminário ontem realizado, primeira iniciativa do “Funchal Pride”, considerou que a participação não defraudou. A movimentação na marcha e sobretudo, mais tarde, no Jardim Municipal, acabou por ser bastante razoável.

Esta iniciativa é para ter continuidade, para o ano, “para que este trabalho seja contínuo”.

Emanuel Caires diz que as pessoas, na Madeira, quando discriminam os homossexuais, “nunca o fazem de uma forma muito directa”, sendo na maior parte das vezes discretos na sua desaprovação. Este activista preferiria até que as pessoas mostrassem a sua discordância de uma forma mais aberta, “dizendo-o na cara”, até porque isso constitui uma oportunidade para a comunidade LGBTi+ responder, tendo um diálogo e procurando explicar o seu ponto de vista.

A discriminação, referiu, acontece em ambiente escolar ou profissional, diz. “Isso acontece também em estabelecimentos de diversão nocturna”, referiu.