Pedro e o Lobo ou, em versão atualizada, Pedro e o Diabo

Pedro era um pastor na pobre Laranjolândia. O seu trabalho era tomar conta das ovelhas laranjandolesas enquanto pastavam e impedir que a Geringonçolândia fosse mais bem sucedida na mesma área de atividade. Porém, por vezes ficava aborrecido por estar sozinho, sem ninguém com quem brincar.
Um dia, já roído de inveja dos sucessos geringonçolandeses, resolveu fazer uma maldosa brincadeira, só para se divertir.
Afinou a sua voz de barítono e logo desatou a gritar:
– O Diabo, o Diabo, o Diabo anda a rondar a Geringonçolândia!
Os fazendeiros da Laranjolândia, mal ouviram a gritaria, prontamente se juntaram ao Pedro, fazendo as vezes de refrão, mas afinal não havia Diabo nenhum, o que os deixou muito dececionados.
No dia seguinte, porque, lá na cabecita do Pedro, uma mentira muitas vezes repetida passa a ser verdade, o Pedro resolveu fazer o mesmo.

Desatou, então, a gritar:
– Segundo resgate, está ali o segundo resgate que eu agoirei!
Os laranjandoleses logo acudiram a fazer coro com o Pedro, mas, afinal, não havia segundo resgate nenhum. Pedro ficou lavado em lágrimas, e os laranjandoleses completamente arrasados no alto do seu monte dos vendavais a fingir.
Pedro continuou a gritar, mas desta vez, para seu espanto desta vez era mesmo um monstruoso e aterrador Diabo, mais precisamente um Diabo autárquico que lhe estava a matar as ovelhas laranjandolesas.
– Porque é que ninguém me ajudou? – perguntou o Pedro, inconsolável, e esforçando-se por fechar discretamente a caixa de Pandora com que andava de pasto em pasto. Estou perdido, agora fiquei sem curral nem pasto para as minhas ovelhas. Caso é para dizer que, por estas e por outras, se confirma que, volta e meia, “o feitiço vira-se contra o feiticeiro”.
Oh, Diabo! Lá vou ter de tirar dois dias para reflexão, pensou. E se bem pensou, melhor o fez.
Vai daí reuniu o Conselho Nacional laranjandolês e decidiu abandonar o bordão de pastor-mor, prometendo não se recandidatar ao pastoreio do rebanho esfaimado e prematuramente tosquiado ou andar pelos currais a assombrar e a rondar. Talvez fosse hora de pensar em emigrar, vá lá, não para muito longe. Talvez Plutão.

Ao longe, para animar o Pedrito, ouviu-se a voz solidária de um pastor da antiga e derrotada Páfolândia, a sugerir, como remédio, uns “beijinhos no dói-dói”.
Moral da história: Quem deseja o Diabo ao seu vizinho, o seu vem pelo caminho.