Ouvem-se já os rumores

Confesso que, em dia de eleições autárquicas, encetei o dia mais preocupado, – e atento, portanto -, com o ambiente reinante em torno da realização na Catalunha do anunciado referendo à independência daquela Comunidade Autónoma de Espanha do que com modo como evoluiria todo esse dia em Portugal, no seu conjunto, atendendo à normalidade a que nos fomos, felizmente, habituando no funcionamento da democracia e do exercício saudável e limpo dos seus instrumentos de validação, consolidação e aperfeiçoamento.
O referendo, – à laia de declaração de interesses, devo dizer que não nutro qualquer simpatia pela ideia da independência da Catalunha, região de que muito gosto e que visito com a regularidade possível -, esse sim, trazia novidades, inquietava-me, sobressaltava-me, ameaçava-me enquanto democrata e sensibilizava-me para a possibilidade de, com todo o receio político que inspirava, e inspira, em Madrid, correr o risco de se transformar numa jornada negra de agressão violenta e desumana ao que de mais significativo dá corpo às nossas convicções cívicas. E assim aconteceu. Até às dezanove horas, altura em que foram divulgadas as projecções da abstenção previsível nestas eleições autárquicas, vi nas TV’s o que Madrid fazia na Catalunha, incrédulo e horrorizado fui assaltado, por várias vezes, pelos fantasmas que a memória não deixa morrer e que, com frequência, nos interrompem a serenidade e a confiança na perenidade do adquirido. Anteontem, algures, tinha deixado a ideia de que Madrid tinha transformado a Catalunha num barril de pólvora… ele ali estava; ele ali está.
Compreende-se, assim, que tenha sido com algum alívio que, a partir das vinte horas, me tenha dedicado em exclusivo às notícias sobre o acto eleitoral em Portugal e aos resultados dele decorrentes. Sabem todos os que me conhecem da natural alegria que fui sentindo à medida que a noite decorria e que as simpáticas notícias se juntavam às boas, todas, independentemente do meu quadro de preferências, num ambiente de normalidade, aceitação e de funcionamento estrito do regime que partilhamos vivendo-o.
Naturalmente, foi a eleição dos representantes dos órgãos de poder local na Região Autónoma da Madeira que mais me convocou. As razões, óbvias, prendem-se com a sensação que tinha de que 2017 poderia, ou não, ser a confirmação de 2013, com as alterações que a natureza e a época dos actos necessariamente determinam e do que isso poderia significar para o futuro político da Madeira e do Porto Santo. De facto, depois de trinta e sete anos de um sufocante poder regional, exercido em todos os segmentos e patamares do nosso quadro constitucional e estatutário pelo PSD na Região, a conquista eleitoral, por parte do PS e de outros partidos, organizações políticas, personalidades independentes, – de cuja existência, enquanto tal (independentes?), não sou um particular entusiasta -, e coligações, há quatro anos, de sete câmaras municipais, deu corpo a uma reviravolta cuja profundidade e duração ninguém conseguiria antever e que só um acto confirmativo da mesma natureza poderia ajudar a esclarecer.
Aconteceu ontem, dia 1 de Outubro de 2017; confirmava-se: tinha acabado a hegemonia do PSD no poder local e, como isso se traduz também numa sua perda de influência política geral, adivinha-se que a Região está a evoluir para um ciclo político de alternativas, de novos protagonismos, de novas maiorias, de novos acordos, de novas propostas, de novos programas, de novos futuros.
A interiorização e a reflexão sobre os resultados das eleições de ontem tem de ser profunda, sistemática, fria e prospectiva. Há novas ambições e arrojados projectos de intervenção cívica e política; há uma nova geração de quadros políticos a entrar no debate sobre a cidadania e sobre a construção de um esperançoso futuro colectivo. Os partidos políticos em geral, – mas, em particular o PSD-M e o PS-M -, têm de estar conscientes de que entraram definitivamente num espaço que deixou de ser monopólio de um só partido político e de que, a partir de agora, nada é grátis, nada é inconsequente, nada é episódico. Para cada um com as suas especificidades um exercício de auto-avaliação impõe-se e, tenho poucas dúvidas, sairão desenhos pouco, ou nada, tranquilizadores para quem pensa hoje, dentro da organização que integra e que lidera, ter abertos e simplificados todos os caminhos da preparação da jornada seguinte.
Em circunstâncias normais, as próximas eleições para a Assembleia Regional da Madeira ocorrerão em 2019 e há, portanto, um longo caminho a percorrer. No PSD-M, por onde pode perpassar um sentimento de perda e fragilidade que conduza ao questionar, constante e pressionante, da sua actual direcção por parte de importantes e activos membros seus face às exigências e expectativas que as próximas eleições regionais postulam e ao sentimento de que ela, essa direcção, lhes não saberá corresponder com sucesso reclamado, pode emergir um (?) conflito interno que, pela instabilidade que cria, não contribuirá, et pour cause, para o clima desejável e ideal à preparação desse magno desafio eleitoral; no PS-M, por onde, naturalmente, os ventos sopram de feição, a tentação será a de, imagino como possível, aproveitar a maré para tentar navegar uns resultados que, embora devam ser relativizados com inteligência e bom senso, permitem acalentar esperança de maiores sucessos futuros e desencadear o aparecimento de novos actores prováveis, outros nem tanto, reacesas convocatórias e entusiasmadas mobilizações, alinhamentos de circunstância além de, claro, todo aquele cortejo de práticas pouco recomendáveis já instaladas na vida das organizações e, por isso, também nas políticas, que em nada contribuem para a clarificação e transparência dos processos, reduzindo-lhes, ainda, a eficácia e as possibilidades de êxito, frustrando desta forma o trabalho empenhado até aí desenvolvido.
Admito, nestes termos, que nenhum dos partidos citados, particularmente os seus dirigentes eleitos, terá vida fácil nos tempos que se aproximam. Parafraseando o poeta: “… ouvem-se já os rumores, ouvem-se já os tambores…”.

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.