José Júlio conta a sua história após o atropelamento grave que sofreu no Porto Santo e a resposta hospitalar

A 5 de agosto, José Júlio Castro Fernandes sofreu um atropelamento grave no Porto Santo. Com formação em ciências farmacêuticas, adjunto do ex-secretário regional da Saúde e um dos mentores do nascimento da clínica Madeira Medical Center, José Júlio conta agora a história do acidente, o tratamento hospitalar e demais impressões sobre a saúde regional. Uma partilha que faz na sua página do Facebook e que o FN divulga, com o título dado pelo próprio “A Minha História”.
“Caros Amigos,
nos dias a seguir ao meu acidente, prometi que iria aproveitar o infausto acontecimento para falar da visão de um profissional de saúde, com mais de 40 anos de exercício, que, repentinamente, “passa para o outro lado da bata”.
Vou contar uma história. A minha história. A história de quem viveu entre o dia 5 de Agosto de 2017 e o dia 1 de Setembro de 2017 em diversos serviços do Hospital Dr. Nélio Mendonça (HNM), no Funchal.
Atendendo às circunstancias, não pretendo que este seja o relato fidedigno dos acontecimentos. É uma mistura de “ouvir contar”, sensações, sonhos, alucinações, observações e memórias diversas. Talvez uma forma catártica de me ir libertando de um episódio da minha vida recente que, como não podia deixar de ser, me marcou e continua a marcar e que sinto necessidade de esconjurar.
Atropelamento grave esteve na origem de tudo isto. Acidente que, a acreditar nas estatísticas, determina a morte imediata de 60% dos acidentados no próprio lugar do acidente, da morte de cerca de 30% dos restantes durante o processo de transporte e que deixa os restantes 10% numa situação de tal gravidade que resulta, na grande maioria das vezes, na sua incapacidade para andar e ser autónomo para o resto da vida.
Amigo querido, médico do HNM, deu-se à maçada de consultar a base de dados do hospital e assegurou-me que, de situações como a minha…não havia informação de sobreviventes no HNM. A segunda cirurgia, que me foi feita pelo Dr. António Figueiredo, cirurgião do Centro de Cirurgia de Coimbra e especialista nesta matéria (um dos muito poucos em Portugal), foi a primeira do género que foi feita na Região Autónoma da Madeira e ficou a dever-se à diligência do Senhor Secretário Regional da Saúde, da autorização da Direcção Clínica e do Sesaram e do esforço e dedicação da Família e de muitos Amigos, para além da generosidade e disponibilidade imediata do Dr. António Figueiredo.
Sem mais considerações, após o acidente (acontecido na ilha do Porto Santo), a presença do Enfermeiro Diogo Laranjeira, que corria comigo, e a proximidade do EMIR (Emergência Pré-hospitalar) foram cruciais para que eu pudesse ser estabilizado e transportado para o Funchal e para o HNM, apesar de duas paragens cardiorrespiratórias e de uma hemorragia em curso.
Do que se seguiu não tenho memória. Amnésia devida ao trauma impede-me de recordar os dias que se seguiram ao acidente até que dei por mim após a primeira cirurgia.
Dos Cuidados Intensivos retenho diversos flashes de um ambiente de limbo, onde o tempo está suspenso e o ruido de máquinas e equipamentos, luz constante, vozes, ruídos não identificáveis e as doses maciças de medicamentos tornam impossível separar o real do imaginário.
Quero aqui deixar expresso o meu sentimento de gratidão por tudo o que por mim fizeram. Mantiveram-me vivo, equilibraram-me, compensaram-me e permitiram que eu pudesse ser operado. Aos heróis anónimos que lá trabalham em situação de grande desgaste físico e psicológico, o meu infinito agradecimento.
Após uma primeira cirurgia conservadora (tendo como motivo manter o mais coesos possíveis os elementos da bacia) foi necessário um ajustamento (“aperto”) que foi efectuado já nos Cuidados Intensivos.
Passei, depois, aos Cuidados Intermédios a aguardar a cirurgia principal que foi efectuada no dia 19 de Agosto. Seguiram-se dias e noites de que retenho pouco ou nada tal, a carga de medicamentos que me era administrada para evitar a dor.
No dia 23 de Agosto, o meu cirurgião foi da opinião que eu poderia passar à enfermaria e fui deslocado para um dos “isolamentos” do Serviço de Ortopedia e Traumatologia.
Quem vive na Região Autónoma da Madeira, de há muito ouve falar, com grandes preocupações, do modo como funciona o Serviço de Ortopedia. Eu próprio, até dia 22 de Dezembro de 2016, desempenhei funções de responsabilidade na Secretaria da Saúde e o tema foi um dos que tive que lidar na minha acção diária como Adjunto da Secretaria da Saúde.
Não pensem, no entanto, que venho aqui defender ou atacar o modo como os serviços têm sido geridos ou dirigidos, nem isso seria próprio do meu dever de reserva e do meu bom senso. Também não vou tecer comentários às estratégias e políticas de saúde que, eventualmente, terão desembocado no mau caminho que têm trilhado alguns Serviços.
Quero falar do serviço em que estive internado durante alguns dias. Assisti (e participei involuntariamente) na luta diária dos profissionais da Ortopedia (enfermeiros, auxiliares de acção médica e todos, todos!) para prestarem os serviços que prestam com qualidade, eficácia, eficiência, simpatia, persistência e sentido de dever e abnegação.
Vi-os lutar contra ao cansaço, a exaustão, os turnos em que o número de profissionais não é o suficiente, as instalações deficientes e com o tempo de validade ultrapassado, as cadeiras de rodas cujas rodas…não andam, a falta de equipamentos elementares que leva à necessidade de improvisação, à constante necessidade de interajuda para superar situações, as casas de banho velhas a que faltam condições de funcionamento e tornam qualquer simples acto de higiene diária quase num número de circo. Improvisação, boa vontade, dedicação, sentido do dever, humanidade.
Um conjunto de circunstâncias favoráveis (para quem acredita na sorte) fazem com que, passado um mês e uma semana do acidente me encontre em casa, a fazer proveitosamente a recuperação e com bastantes probabilidades de vir a fazer a minha vida com autonomia e qualidade de vida. Não vou, aqui e agora, enunciar os “anjos-da-guarda” que fizeram (que fazem, diariamente) com que isto seja uma realidade. Quem sabe, um dia.
Resta-me agradecer a toda a Família, aos Amigos, a todos os profissionais do Hospital Dr. Nélio Mendonça que me cuidaram, do fundo do coração, a assistência, o tratamento, o apoio, que me foi prestado. Bem-hajam!”