Nicolás Maduro coveiro do Chavismo

 

Considero a Venezuela a minha 2.ª pátria. Neste país vivem os meus irmãos e a maior parte da minha família e ainda muitos dos meus colegas e vizinhos de infância e amigos que entretanto conheci. Já lá estive de férias por 4 vezes e gostaria de voltar. Durante a ditadura salazarista, foi um país acolhedor de muitos madeirenses com dificuldades de sobreviver e sustentar a sua família e muitos deles prosperaram e contribuíram depois para animar a economia madeirense e melhorar as condições de vida dos familiares que por cá ficaram. Venezuela é um país encantador: um povo alegre, simpático, de convivência fácil, com paisagens lindíssimas e com grandes potencialidades turísticas se não fora o problema da insegurança que nenhum Governo antes e depois de Hugo Chavez foi capaz de resolver (com alguma excepção para o período da ditadura do general Marcos Perez Jimenez 1952-1958). Tem um subsolo rico, com reservas de ouro e de petróleo, que são as maiores do Mundo. Mas, tal como para Portugal na primeira metade do século XVI, a sua grande riqueza há muito que tem contribuído para a sua desgraça. Portugal viveu então à sombra do lucro das especiarias ou dos “fumos das Índias”, como muito bem sinalizou o poeta Sá de Miranda; a Venezuela, apostando demasiado na produção do petróleo, ficou dependente da oscilação do mercado, votando ao esquecimento a riqueza mineral e agrícola de que dispõe.

A chegada de Hugo Chavez ao poder, para além de ser reflexo da crise económica e social que então se vivia, com distúrbios sociais e assalto aos supermercados, representou uma esperança de purificação da política e de empenho claro e manifesto na melhoria das condições económicas, culturais e de saúde dos mais pobres. A governação de Chavez conseguiu reduzir bastante a pobreza e o analfabetismo e alargar substancialmente a assistência médica. As estatísticas internacionais o confirmam. Apesar de alguns tiques caciqueiros, à moda da tradição militar sul-americana, de apelar algumas vezes ao ódio a alguns empresários e à divisão entre ricos e pobres e hostilizar alguns meios de comunicação social hostis, não se pode, em minha opinião, falar de ditadura chavista, já que havia separação de poderes, liberdade de expressão e quando o seu Governo procedeu a um referendo, respeitou a resposta negativa do eleitorado, para além do facto de os actos eleitorais que realizou terem sido considerados correctos pela comunidade internacional. Penso também que Chavez era um patriota, apesar de alguns exageros de linguagem quando se referia aos Estados Unidos.

A baixa dos preços do petróleo e a impreparação política e radicalismo de Nicolás Maduro, seu sucessor, acabaram por agravar a crise económica e estão a destruir o que de positivo foi construído por Chavez. Hoje, na Venezuela não há separação de poderes, o presidente não respeita o Congresso, cuja maioria não é da sua cor política, promoveu um acto eleitoral, de constitucionalidade muito duvidosa, para anular os poderes dos deputados democraticamente eleitos e em vez de reduzir e controlar a posse de armas nas mãos dos civis, para combater a elevada criminalidade, armou milícias populares, os “colectivos” e está a distribuí-las aos “voluntários” para defesa da “revolução”. Que garantia se poderá esperar do uso legal e sensato dessas armas e que possibilidade haverá no futuro de as recuperar para o Estado? Tudo isto no contexto duma economia falida e descontrolada, com inflação à beira dos três dígitos, com muita gente a passar fome e falta de medicamentos. As grandes empresas privadas saíram do país e a produção nacional tem-se mostrado incapaz de as substituir, há falta de divisas para pagar às companhias aéreas estrangeiras, falta papel-moeda e as pequenas empresas que necessitam dele têm de pagar comissão para obtê-lo no mercado negro. A economia paralela está instalada sem freio; de tudo se faz negócio e para resolver qualquer problema burocrático, há que “bajar la mula”, ou seja, dar gorjeta ou “propina”; não há divisas para a importação e se alguém pretende comprar uma simples bateria para o carro, tem de entregar a avariada, mas em caso de roubo vai ter que comprar uma bateria inutilizada, para poder adquirir a nova. Maduro sabe que não tem o apoio maioritário da população. Nenhum líder tem o direito de impor um ideal político, por muito nobre que seja, contra a vontade do seu povo e, o que é mais grave, à custa da miséria do seu povo! O socialismo é um projecto político que subscrevo mas só pode ser realizado em democracia!

No que respeita à Oposição, golpista e manipulada pela extrema-direita, não se vislumbra um projecto político alternativo: é um conjunto de partidos lutando pela sobrevivência e cujos líderes anseiam nervosamente por impor o seu comando pessoal. À violência do Governo que reprime manifestações, responde com violência. Falam no descalabro da economia e têm razão mas têm contribuído para a sabotagem económica, agravando a situação dos mais pobres que não conseguem pagar os géneros alimentícios no mercado negro, com preços em triplicado; falam em défice de direitos humanos mas pensam apenas na falta de liberdade política e de expressão. A Oposição não tem manifestado sensibilidade social e esquece que os direitos sociais também fazem parte dos direitos humanos. Afirma querer o regresso à normalidade constitucional mas na verdade o que pretende é o regresso ao capitalismo selvagem anterior a Chavez, ao salve-se quem poder. A Oposição diz-se patriota mas está a apelar à invasão do seu país pelas tropas americanas, a apoiar a hipótese de sanções e a desmotivar o investimento estrangeiro.

A crise da Venezuela só pode ser resolvida pelos venezuelanos, nunca pela invasão dum país estrangeiro. Para isso há que aceitar a mediação de personalidades ou organizações internacionais, o que tanto o Governo como a Oposição têm recusado na prática. Há que pensar primeiro nas pessoas que estão a sofrer e só depois nas ambições políticas. Isto sim é humanismo e patriotismo.