Eu prometo, tu prometes, ele promete… Eu não cumpro, tu não cumpres, ele não cumpre…

 

William Shakespeare já dizia que “Contrabalançar promessas com promessas é estar a pesar o nada”.

Rousseau também ensinava na França iluminista: “Quem mais demora a fazer uma promessa é quem a cumpre mais rigorosamente.”

Igualmente verdade é que, para os políticos ávidos de “ir ao pote”, a promessa é uma dúvida. Pelo contrário, e bem, para os tão honrosos quão raros políticos honestos, a promessa é uma dívida.

O caso é que numa sociedade pródiga em mentiras toleradas, prometer sem qualquer intenção de cumprir parece ser tão pinoquiamente comum como dizer “Já vou a caminho” ou “Chego aí em cinco minutinhos”.

Seja qual for o quadrante partidário, uma coisa é certa: ao iniciar-se na “arte da política”, a primeira coisa que o candidato aprende é a prometer.

Ora, para acabar de uma vez por todas com este “modus operandi”, criminalizar as promessas eleitorais fraudulentas, paranormais ou anedóticas poderia ser o caminho da mudança.

Porém, quando o problema “vem a lume”, nos meios jurídicos até se fala com olímpico desdém, sendo um dado objetivo que uma eventual proposta de alteração legislativa, decididamente, não passaria. A razão é muito simples: estamos a falar de vícios inerentes ao processo educacional e moral; falhas comportamentais vistas com complacência e já absorvidas pela visão ética dos eleitores. Repare-se no número de candidatos dinossauros  já condenados, e até com pena de prisão, num caso específico, logo “com “provas dadas”, e pasme-se perante o número de apoiantes, para não dizer cúmplices, que os querem de volta às cadeiras de “trono”!

A este propósito, não resisto a partilhar um protesto/recado muito criativo e crítico realizado por eleitores defraudados por promessas “eleitoreiras” no país vizinho. Aproveitando a celebração da  Festa Nacional de Espanha, em dezembro de 2012, na vigência do governo de Mariano Rajoy, um grupo de cidadãos  de Madrid, conhecido como Luzinterruptus, decidiu assinalar a data de uma forma admiravelmente “fora da caixa” durante a noite. Em lugar de limpar as ruas, como manda a tradição, como parte dos preparativos da festa, um grupo de madrilenos decidiu lançar 20 baldes de água com detergente para criar um “rio” pelas ruas de Madrid, fazendo circular por ele uma frota de 214 barcos de papéis iluminados, decorados com um bandeira espanhola, sendo que em cada um deles foi instalada uma luz LED. Não descurando o exemplo cívico, o grupo teve o cuidado de utilizar materiais recicláveis, usando o programa do governo intitulado “Lo que España necesita”, para protestar de maneira pacífica e artística contra as promessas que qualificou como “incumpridas”.

 

Basicamente, a ideia era que o rio levasse as ditas promessas incumpridas. Para o efeito,  primeiro foram organizados os barcos no chão e depois foram lançados baldes com água.

Esta intervenção urbana foi batizada como “Frota de Promessas Eleitorais Incumpridas”.

A instalação teve uma duração de três horas e foi realizada nas ruas de Madrid que, dada a sua inclinação, permitiram que a água terminasse nos esgotos. Além disso, os barcos ficaram agrupados sobre as adufas, o que permitiu que os recolhessem e colocassem em locais de reciclagem de papel.

O grupo explicou a sua proposta, afirmando que no programa do governo encontraram “centenas de promessas bonitas às quais, aparentemente, nunca presidiu qualquer intenção de cumprimento”.

Em tempo de autárquicas, e de menos ou mais surreais promessas do Céu na Terra, deixo-vos com as imagens e o exemplo. Julgo que falam por si.