Pérolas  Negras

O mês  de  Agosto  é  um  tempo “quase  morto” nas rotinas  urbanas,  com  a  pandemia  das viagens  de  férias  que  esvazia  as  cidades.  O  campo  é  um  dos  alvos  de  procura para  quem, longe  dos  grandes  calores,  prefere refugiar-se nas  sombras.

Falar de viagens  traz  ao  assunto  várias  vertentes  de  interesse  e  hoje  o  que  determina  este  texto  é  a  memória,  e  tudo  o  que  ela  envolve,  desse  belo  e saboroso  fruto  conhecido  por  uva  americana  ou  morangueira,  lembrança  que  traz  consigo  um  gosto  remoto,  quando  eu  imaginava  saborear  pérolas  negras, dentro  do  sonho  mágico  que  me  embalava  a  infância. Evocar  as  pérolas  não  é  apenas  uma  vaga  metáfora,  mas  é, sim,  resultado  da  surpresa  que  me  revelavam  os  bagos.  Depois  de  despidos  do  seu  revestimento  aveludado, em  acto  breve  que  eu resolvia  com uma  rápida  sucção  entre  a  língua  e  o  palato,  surgiam  na  sua  redondeza  transparente,  brilhante  e  atraente  como  contas  de  um  colar.  Ninguém  se  atreveria  a  trincar  um  bago  porque  ele  exigia,  em  sua  defesa,  ser  engolido  inteiro,  para  escorregar  doce  e  macio  pela  garganta.  Se  acontecia  ser  mastigado,  o  bago  libertava  o  seu  travo  amargo  e  ácido  e  a  magia  quebrava-se.  O  sumo  doce  que  se  obtinha ao  remover  a  película exterior era  uma  espécie  de  líquido  amniótico  que  facilitava  a  sua expulsão.  Tudo  isto  eu  percebia,  ainda  que  não  entendesse o processo  do  artifício  que  mais  tarde me  inspirou  o  subterfúgio  metafórico. A  uva  americana  tinha  requisitos   próprios  e  era  preciso  conhecê-los para  poder  degustar  com  prazer o  veludo  húmido  da  sua  textura.

Negra  ou branca, a uva  morangueira,  como nalguns  sítios é  conhecida,  é, indesejadamente,  assunto  polémico. Por  razões  de  âmbito  económico  e  político  o  respectivo vinho  foi  banido  dos  circuitos  de  comercialização  e  proibida  a  plantação  de  bacelos sob a justificação de ser um vinho fraco  e prejudicial  à  saúde. No  entanto  a  tradição  popular  e o  senso  comum  de alguns produtores  privados  reservam-no  como iguaria  especial  para  a  família e os  amigos. O seu  sabor  e  aroma  são  na  verdade  irresistíveis. Houve tempo  em  que « fazia  a  fartura  dos  pipos  do  pequeno  lavrador  na  região  do  vinho  verde», como se pode  ler  no  romance  de Camilo Castelo  Branco  «A Bruxa de Monte Córdova» .

Foi assim  que  da  viagem ao  norte  do  país  registei.  como  marca  de  interesses  pessoais e  evocativos,  a aldeia de Macieira de Alcoba  nas  serras  do  Caramulo. Um dos pontos do percurso  deteve-me num  centro  interpretativo  de  um  trilho ecológico. De portas  fechadas,  abandonado  à  beira  da  estrada,  oferecia  livremente  aos  olhos  e  à  sede  de  quem  passava  por ali,  uma  latada  repleta  destes  belos  frutos.  Quem  resistiria  a  tamanha  dádiva  da  Natureza ?  Foi  fácil  regredir  no  tempo  e  recordar  o  gosto  de  outrora,  ao  saborear  um  robusto  cacho,  onde  a  serra  era  toda  minha  e  de  quem a quisesse, sem  qualquer aviso  de  proibição  ou  registo  de  propriedade. Uva  americana  para um desejo  antigo que  desde sempre  me acompanha  e recorda  o quintal  onde  eu corria  à  sombra  aromática das  latadas  prenhes  na  casa  da  Penteada  que  me  viu  nascer.  Não se pode esquecer  a  ilha  quando  ela  se  inscreve  no  sangue  e  no  sabor  das  uvas.  Aqui  também  a americana e o jacquet  são  duas castas  à margem  de  objectivos  comerciais  que  se reservam  para especiais ocasiões  de  festa  e  de ameno  convívio.

Prosseguindo  na  direcção  de  Alcoba, para  mais  gratas lembranças, surgiu por  acaso  numa  curva  da  aldeia ,  D. Isabel.    Abastada  serrana,  sabendo  acolher  os  viageiros por  mais  casuais  que  sejam, D. Isabel abriu  hospitaleiramente  a  sua  casa  típica  de  granito  com  varanda  alpendrada  e  procedeu a   um  ritual  de  colheita  enchendo generosamente  um  saco  de  morangueiras  que  durante  o  percurso  da  viagem  mitigou  o  calor  deste  verão  escaldante  a  quem  faz  dos  prazeres  de  trota-mundos  uma  causa  de vida.

Em todo  o  lado,  nos  altos  do  Caramulo, vicejam  as  pérolas  negras,  por  entre  muros  velhos e pequenos  quintais  acolhedores. Constantemente,  essa  visão  duma  doçura  feliz.