
A marginal da Calheta não é o único caso de perigosidade acentuada em matéria de possível e até provável queda de pedras, num local de grande circulação de pessoas e automóveis. O engenheiro geólogo João Baptista, especialista em rochas, refere que essa situação se estende a todos os concelhos da ilha. Ao Funchal Notícias, comentando a queda, hoje verificada, de uma pedra de dimensões já consideráveis e que danificou um automóvel na Calheta, João Baptista referiu que uma das situações para as quais se tem, desde há muito tempo, esforçado por chamar a atenção das entidades competentes é a da instabilidade de taludes situados à beira das estradas regionais.
Conforme salienta, “têm de estar garantidas as condições de segurança nas estradas onde circulam automóveis, nas festas onde se reúnem grandes concentrações de pessoas. Temos isso por dado adquirido, não é?” Mas, constata, a realidade é bem diferente. Não é isso que se verifica na prática.
“A queda de materiais ocorre em zonas onde as formações geológicas estiveram sujeitas a acções aceleradas da água e do fogo”, assinala. As aluviões e chuvas torrenciais e os incêndios que têm assolado a Madeira têm contribuído ainda mais para pôr em risco vidas e bens.
“Todos nós estamos traumatizados pela vulnerabilidade que introduzimos nos terrenos”, comenta o cientista, investigador da Universidade de Aveiro.
Para o mesmo, urge fazer uma reflexão intensa sobre a necessidade de cuidar da nossa casa comum, ou seja do meio ambiente que nos rodeia. A geração do Conselheiro José Silvestre Ribeiro, que governou a Madeira no século XIX, deixou uma herança significativa no reforço de estruturas necessárias às populações e no apoio social às mesmas. A nossa geração, opina o nosso interlocutor, já não deixará um legado tão bom.
Os problemas de instabilidade dos taludes e escarpas são uma constante, mas não são, em seu entender, justificáveis apenas pelas condições da orografia ou das causas naturais. Sabe que na Calheta, por exemplo, o Laboratório Regional de Engenharia Civil participou em limpezas das escarpas, e que a Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus apresentou uma candidatura a verbas europeias, para realizar a reabilitação das mesmas. Por outro lado, salienta, a Câmara Municipal tem uma carta de risco para a zona.

A preocupação de João Baptista com estas situações estende-se, porém, à generalidade da ilha. “Repare-se nas numerosas derrocadas que têm acontecido em múltiplas localidades nos últimos tempos”, aponta. Na Calheta, em Câmara de Lobos, no Funchal, no Porto da Cruz… “É em todos os concelhos”.
No Funchal, entre outros, assinala como “extremamente perigosas” as zonas nas proximidades do hotel CR7, onde ainda recentemente houve desprendimento de rochas para a estrada, ou a área debaixo da ponte da via rápida que passa por cima da Ribeira de João Gomes, frequentemente interrompida por queda de pedras para a estrada.
Em caso de acidente grave, a quem cabem as responsabilidades, interroga? À Câmara Municipal do Funchal, à Via Litoral, à Direcção Regional de Estradas? Possivelmente assistir-se-ia a mais uma disputa como a que está a decorrer relativamente ao ocorrido no Monte.
Para João Baptista, é um “acto de cidadania” alertar para estes perigos, sem alarmismos mas com seriedade, porque são coisas que podem ocorrer, tragédias que se podem evitar.
E como? Do seu ponto de vista a única maneira realmente efectiva é “continuar a acção dos nossos antepassados”, que criaram múltiplos poios e socalcos onde se realiza a actividade agrícola, suportados por muros de pedra, locais muitas vezes hoje deixados ao abandono. Além de ser benéfico do ponto de vista da paisagem, que fica bonita, este tipo de tratamento dos terrenos, para além dos benefícios decorrentes de um retorno à agricultura, ajuda a manter a estabilidade das encostas e a facilitar uma escorrência menos grave das águas pluviais.
“Dizer, como se tem dito, que na Madeira ou vivemos acima ou abaixo das encostas, não é verdade. É preciso preservar estes poios e socalcos, estas áreas agrícolas cuidadas, dotadas de tanques de água de rega”, que, além de tudo, ajudam a prevenir e a combater incêndios.
Nos tempos mais recentes, critica, parece que as populações vivem “em guerra com a nossa casa comum”.
“A natureza reage às perturbações” de cariz humano, como a construção indiscriminada de túneis, pontes e estradas, salienta. O progresso pode ser positivo, mas gerou muitos focos vulneráveis.
“Como sempre, só quando pessoas de nacionalidade estrangeira ou de algum poder” forem as vítimas destas situações de instabilidade, é que, além de se levantar um clamor, se vai efectivamente tentar fazer qualquer coisa para além de meras intervenções pontuais, lamenta.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





