E se falássemos de vida e menos de morte…

  1. É mais fácil falar da morte do que da vida. A morte é chocante, a vida não. A tragédia é esporádica, a vida é todos os dias. Também é mais fácil embelezar tudo o que é relativo à morte e menos o que faz parte da vida. Tantas vezes penso, tantas flores para alguém que não pode ver agora o que nunca lhe deram enquanto viveu neste mundo. Foi preciso morrer para que lhe dessem flores.
  2. O após tragédia é interessante observarmos o que sai da toca de especialistas da coisa feita para todos os gostos, ainda mais se a desgraça bateu à porta do vizinho. Se nos toca diretamente a coisa pia mais baixo. No entanto, lamente-se e chore-se todas as vítimas das desgraças que se têm dado nos últimos anos na nossa terra e particularmente esta desgraça da queda da árvore no Largo da Fonte, no Monte, que foi tão mortífera. Mas, também é interessante vermos a loucura que toma conta das pessoas em geral para encontrar o bode expiatório. O terreno é deste ou daquele, porque houve tragédia, mas enquanto não há desgraça, o mundo é de todos, as árvores são de todos. Porém, até Deus, até Nossa Senhora, até Jesus Cristo e até o exército dos Santos já foram chamados à colação. Bom, adiante…
  3. A tragédia do Largo da Fonte, no Monte, é dramaticamente chocante, porque acontece em ambiente de fé e devoção a Nossa Senhora do Monte, a invocação centenária que os Madeirenses veneram como sua padroeira. Um contra senso incompreensível e até mesmo impossível de acontecer, porque quem tem o dever de proteger não mata os seus (tomara que assim fosse para tudo nesta vida). Mas, quem nos garantiu que havia dias determinados para acontecerem as desgraças? – Se assim fosse fintamos a tragédia com facilidade… Não é assim que as coisas são. Por isso, não há dias para que surjam as consequências de quem devia cuidar e não cuidou, quem devia ser responsável e não foi, quem devia tratar e não tratou. A devida fatura da irresponsabilidade e da incúria nunca falha. Tem sido sempre assim e vai continuar a ser.
  4. Vamos a um caso concreto. Não tem ainda muitos anos dentro do adro da Igreja de São Roque do Funchal, tinha um carvalho centenário, que qualquer pessoa podia constatar como estava doente e em fim de vida. A copa fraquíssima, as folhas doentes e o tronco oco das raízes até à ponta dos ramos. Um abrigo excelente para ratos. Nalguns dias de intempéries fortes alguns ramos desprenderam-se, felizmente sempre durante a noite e um deles chegou a vergar o varandim em ferro que está à volta do adro da Igreja, ainda está lá essa mossa que podemos constatar. Face ao panorama evidente, encetei diligências para que o carvalho fosse retirado. Felizmente, a maioria das pessoas estavam de acordo, mas surgiram «as vozes do saber da coisa sem tragédia», que o carvalho era centenário, fazia parte da paisagem da freguesia e que por isso se devia fazer tudo para o salvar… Uma boa porção de tempo nisto, não me lembro quanto tempo exato, mas deve ter chegado a uns dois anos. Finalmente venceu o bom senso, o vetusto carvalho foi cortado. A sombra da desgraça do carvalho do Monte tem posto as pessoas a falar neste caso.
  5. Tudo isto vem à tona, porque, enquanto não acontece a desgraça, são poucos os que se dão conta do perigo. Assim é com as obras de recuperação ou restauro de qualquer imóvel que esteja à vista dos olhares de muitos. Enquanto não se começa, ninguém fala, começamos, aparecem engenheiros por todo o lado que sabem de tudo. Também o mesmo se passa com as coisas que se vão patrocinando, por exemplo, um andor com mais de mil quilos, que se pretende que faça parte do Guiness, com 80 homens a carregar, não havendo desgraça todos batem palmas e acham extraordinário, bonito e sentem orgulho. Falha a engrenagem, morrem pessoas, começa o chorrilho de conversa fiada. O mesmo se diga sobre o Largo da Fonte no Monte, que se descrevia como um local tão pitoresco, com magníficas árvores centenárias, que deviam ser preservadas custe o que custar (daí aquele festim de cabos de aço de um lado para o outro a segurar as preciosas), até ao dia em que uma delas cede, por causa de muitas razões e de muitos responsáveis, mata pessoas, a conversa sobre o local e sobre as árvores, muda imediatamente. É um local de morte e as árvores são assassinas.
  6. Neste sentido, gostava que se falasse mais em vida cuidada, acarinhada e venerada como um bem precioso para todos e para todos os dias. E que acontecer uma tragédia num dia santo ou num dia profano (não sei se devo dizer isto, porque todos os dias são sagrados para mim), nada tem a ver com fé e devoção (o famoso terramoto que arrasou Lisboa aconteceu a 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, não havia nenhum santo disponível no céu, que evitasse a coisa, estavam todos de férias ou era dia de greve geral no céu?). Importa relevar que a vida material é frágil, o nosso corpo é frágil, nascemos e vivemos neste mundo para um tempo a prazo até esse momento que não sabemos o dia nem a hora, é «como o ladrão que arromba a casa». Por isso, devemos estar preparados, porque todos os dias do ano são dias de azar e sorte, tanto um como o outro não avisam quando vão acontecer. Assim, o que nos resta, é isto mesmo «entendam isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, ele ficaria de guarda e não deixaria que a casa fosse arrombada» (Mt24,43). Entretanto, choremos mais esta mortandade, consolemos as famílias enlutadas, tratemos dos feridos, apuremos responsabilidades e depois continuemos conscientes que nada é mais forte do que a vida. A morte existe, é certo, mas a vida venceu a morte e isso nos basta.

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