Pároco do Monte diz que os terrenos onde estava a árvore que caiu não são da Igreja, mas da CMF

O marco geodésico situado junto à Casa do Romeiro

Paulo Cafôfo disse na conferência de imprensa de hoje que a árvore que caiu, matando 13 pessoas no Monte e ferindo dezenas de outras, se encontrava “em terreno privado” e, mais tarde, em entrevista à RTP2, vimo-lo afirmar que os terrenos em questão seriam propriedade da “fábrica da paróquia”. De facto, não se vislumbra a quem mais poderia pertencer o terreno de onde a árvore caiu, se não à Igreja. Mas a paróquia do Monte rejeita tal situação. O Funchal Notícias voltou hoje ao Monte e falou com o pároco, o padre Giselo. E o mesmo confirmou o que já nos insinuara outra fonte da Diocese: os terrenos em questão não pertencem à Igreja. Como prova de tal, aponta um marco geodésico encostado ao lado ocidental da Casa do Romeiro, com os dizeres C.M.F.

Segundo o Pe. Giselo, tal indica que a propriedade da paróquia, e da Igreja Católica, vai desde a igreja do Monte até àquela parede da Casa do Romeiro – e nem um passo mais adiante. Acrescenta que era costume assinalar-se com estes marcos a pertença dos terrenos públicos, e refere que “era só o que faltava” que fosse a Igreja a ter de arcar com a manutenção dos terrenos ajardinados que conduzem da Casa do Romeiro ao Largo da Fonte, no Monte.

O edil funchalense, aliás, reconheceu que os privados e, no caso, a paróquia, como depois da conferência de imprensa disse publicamente, não têm meios para efectuar essa manutenção. Mas a quem poderia caber essa manutenção, então? É a pergunta que se levanta. E aqui o presidente da Câmara Municipal do Funchal pode estar a entrar num beco sem saída, já que seria lógico que fosse então a autarquia – sozinha ou em coordenação com serviços governamentais, a assumir essa tarefa.

A zona limítrofe assinalada pelo marco geodésico

Em período de pré-campanha eleitoral, este acontecimento trágico e que ceifou vidas veio deixar ainda mais a nu tudo o que separa a edilidade funchalense do Governo Regional. Questionado na conferência de imprensa nos Paços do Concelho porque não tinha marcado presença na conferência de imprensa que o Governo Regional realizou esta tarde na sede da Protecção Civil, presidida por Miguel Albuquerque, Paulo Cafôfo afirmou que não tinha sido convidado. Como aparentemente também não foi convidado para acompanhar a visita que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, realizou hoje ao Funchal, na sequência destes tristes acontecimentos que vieram lançar a dor e luto sobre tantas famílias.

De qualquer modo, o autarca foi firme em afirmar o seu propósito de, com a sua equipa, assumir as responsabilidades que lhe pertencem. Nesse sentido, anunciou que já amanhã, uma empresa especializada, em parceria com uma técnica do Instituto Superior de Agronomia, procederá à análise da árvore que caiu, para determinar o que se passou. Provavelmente as outras árvores circundantes também merecerão análise e diagnóstico. Porém, disse, um plátano que tinha sido sinalizado como potencialmente perigoso, que apresentava uma fissura detectada há alguns anos e que foi preso com cabos a um til e a um loureiro, para consolidação, não oferece actualmente perigo, declarou.

As cenas que se encontravam hoje no final do dia no Largo da Fonte ainda eram tristemente evocativas da tragédia que hoje ceifou a vida de tantos

Aliás, sublinhou que atendeu a todos os pedidos feitos pela Junta e que todas as necessárias limpezas dos plátanos foram feitas pela autarquia, considerou. A última intervenção, acrescentou, foi feita em Março de 2017. Insistiu, no entanto, várias vezes que o acontecimento de hoje “teve a ver com um carvalho”, e “nada a ver com os plátanos”.

Mencionou mesmo que a CMF tem procedido à limpeza e desbaste das ramagens, e abateu já mesmo 11 árvores de porte diverso na freguesia do Monte, que apresentavam problemas estruturais que foram detectados.

As questões apresentadas pelo FN sobre a possibilidade de negligência, quer ao Governo Regional, quer à CMF, deixaram algum incómodo (compreensível), entre autarcas e governantes. Cafôfo encarou-as, afirmando que não enjeitará responsabilidades. Já Miguel Albuquerque atribuiu as acusações dos cidadãos à grande carga emocional destes momentos, afirmando que “sempre governou nos bons e nos maus momentos”, e que cumpriu sempre as suas obrigações. Garantiu que serão apuradas eventuais responsabilidades humanas, e disse ao FN não entender “nada” sobre eventual negligência, uma vez que “isso não está apurado”.

“Eu, como presidente do Governo, assumo as minhas responsabilidades. Quem tem outras áreas sob sua administração deve assumir as suas”, considerou. E desviou a conversa para o trabalho profissional e eficaz realizado pela Protecção Civil e restantes autoridades, quando os jornalistas lhe perguntaram se Cafôfo não devia estar na conferência de imprensa promovida pelo GR às 16h30.

Por outro lado, questionado sobre o possível impacte turístico das sucessivas fatalidades que se têm abatido sobre a Madeira nos últimos anos, sendo esta a última de um extenso rol, Albuquerque rejeitou essa leitura, uma vez que, considerou, tragédias como esta podem acontecer em qualquer parte do mundo.

“Isso não vai afectar o nosso turismo. Foi um acidente, e um acidente grave, mas estou convencido de que isso não vai afectar a imagem da Madeira. Até porque o modo como actuaram os nossos meios de socorro foi duma eficácia extrema”.


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