José do Vítor, ex-autarca do Paul, critica obras na frente mar porque engenheiros nunca ouvem quem conhece o mar e os ventos

José do Vítor quer ver os engenheiros e arquitetos das obras marítimas a falarem com o povo antes de construírem as marinas. O comandante Gabriel Drumond também segue estev raciocínio e concorda. Fotos FN

Chama-se José da Silva Gonçalves mas é conhecido no Paul do Mar e noutras paragens da Madeira como José do Vítor. Em fevereiro perfaz 80 anos de idade mas fala como se tivesse o raciocínio de 20. Uma vida longa como homem do mar e uma longa incursão pela política com quatro mandatos como presidente da Junta de Freguesia do Paul. Olha para o litoral e reprova as construções da Madeira. Lamenta que os engenheiros e arquitetos de gabinete façam construções sem ouvir quem mais sabe de ventos e de mar: o povo. O resultado está à vista na Marina do Lugar de Baixo “para pendurar com a moldura, porque o povo só paga a conta”.

Todos fazem silêncio quando José do Vítor ergue a voz. Do alto dos seus 79 anos, conhece de cor as agruras da gente do Paul e as longas viagens a Angola deram-lhe o saber que tira do “experto peito”, como diria o poeta Camões.

A conviver com os amigos, os que cá estão e outros que movimentam o café Sol e Mar, o sénior do grupo lembra que, na década de 40, estavam registadas 3664 naturais do Paul. Hoje somam 871. Uma debandada em nome da emigração em direção ao Panamá, Estados Unidos (San Diego), África do Sul e México, os destinos de eleição de quem busca melhores horizontes já que a terra limita os sonhos. Nalguns casos, fica cá a família a lutar contra a saudade e pelo tão aguardado regresso, enquanto eles procuram nas férteis águas dos mares das Caraíbas a desejada mina de ouro. “O nosso povo não vive cá. Tem cá a família e faz a vida fora onde a sorte está garantida”.

José do Vitor viveu a experiência de mais de duas décadas a pescar em Angola. O negócio florescia mas, com o regresso dos retornados, foi forçado a abandonar tudo e a perder também tudo. Como ferido na guerra do ultramar, foi-lhe declarada uma incapacidade de 50.9 mas a Caixa Geral de Aposentações só tem em conta 15. “É o país que temos”, revela com alguma amargura, exibindo a carteira com o documento da incapacidade.

Aposentado do trabalho, acompanha sempre a dinâmica da freguesia. Bem conhece os lamentos dos pauleiros que só podem pescar 3 quilos de lapas por dias, sob pena de a fiscalização ditar pesadas sanções. “Mas há embarcações do Caniçal, com licenças antigas, que vêm cá e podem levar até aos 200 quilos de lapa”.

Olhando o mar, José do Vítor faz vir à superfície a sua costela de antigo autarca para criticar duramente o formato de obras que a Madeira Nova tem feito no litoral. Na sua perpetiva, “cometem o erro crasso de nunca ouvir atentamente a população” que está habituada ao ciclo da natureza, nomeadamente os pescadores que conhecem de cor a dinâmica dos ventos e das ondas. “Vejam o que fizeram no Lugar de Baixo com a construção da azarada Marina. Qual o foi o problema? Chamaram os engenheiros para orientar essa construção mas que têm apenas o saber dos livros, nos gabinetes. Falassem com o povo e rapidamente chegariam à conclusão de que a obra não seria daquela maneira. Mas preferiram arder milhares de euros para que a obra dê sempre com a cara à violência das ondas para rebentar tudo”. (vide vídeo FN).

Ironizando e com alguma revolta pelo meio, José do Vítor exemplifica: “Uma pessoa que não sabe ler nem, escrever, é analfabeta. Os engenheiros que só têm o saber dos gabinetes e não falam com o povo são os “analfabrutos” de hoje. Qualquer pescador sabe que, uma construção a criar na zona marítima tem de estar devidamente afastada e protegida do rebentar das ondas de cinco e mais metros que tudo levam pela frente. Na zona onde a onda rebenta, é preciso encher de rocha numa altura e espessura consideráveis, de modo a que proteja o investimento localizado mais em terra. Assim, a onda rebenta nessa rocha e depois vem morrer suavemente até terra. Mas ninguém nos ouve”.

O sol do meio dia escalda no Paul do Mar e a luz solar é oferecida a todos até as 09h00 da época estival. O silêncio é total e o mar, a encher os olhos, perde-se de vista. O José do Vítor regressa a casa para o almoço mas depois volta ao passeio e às conversas sempre prontas para elucidar quem tiver dúvidas. É um conversador nato e lembra que a hospitalidade é também uma imagem de marca do Paul.