“Santana desapareceu do mapa e a Câmara está em gestão corrente”

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“Queremos que o concelho regresse aos tempos de desenvolvimento, sentimos que Santana está numa passividade por parte deste executivo camarário, que já não é desculpável”.

O PSD, em Santana, está “entre dois fogos”. De um lado, o CDS/PP que há quatro anos conquistou a Câmara acabando com a hegemonia social democrata. Do outro, um independente que já foi “laranja” e que inclusive chegou a presidente nas listas do PSD, com sucessivas reeleições. Estes “fogos” têm caras. E nomes: Teófilo Cunha e Carlos Pereira. Não é coisa pouca para quem pretende fazer reconquistas. Um desafio acrescido para o candidato social democrata, João Gabriel Caldeira, um professor colocado na Escola B+S Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, também professor na Universidade da Madeira, onde é provedor do Estudante. Na política, já foi vice na gestão autárquica liderada por Rui Moisés. E no seu currículo, tem ainda três anos de deputado na Assembleia Legislativa da Madeira e a presidência da junta de São Jorge.

Cultura de poder na candidatura de Carlos Pereira

Para já, mostra-se sereno com o novo enquadramento eleitoral no concelho. Está consciente que a candidatura de Carlos Pereira pode trazer alguma divisão de votos, mas acredita que o passado desse candidato independente pode ser suficiente para não fazer estragos nos resultados do PSD.

Considera haver, na candidatura de Carlos Pereira “uma cultura de poder muito grande. O professor Carlos Pereira esteve na Câmara 22 anos e deixou uma dívida colossal e um plano de saneamento financeiro que limitou em muito o executivo do PSD que sucedeu aos seus mandatos. Tenho alguma dificuldade em entender os projetos e ideias, tendo em conta que nessa época de folga orçamental, fez alguma coisa mas não fez tanto quanto seria desejável com as verbas disponíveis. É incompreensível como é que foi deixada aquela dívida, que acabou por limitar a ação autárquica seguinte”. A seguinte, para que se entenda, foi liderada por Rui Moisés, com Gabriel Caldeira em vice.

Primeiro as pessoas com orientações estratégicas

Agora na liderança do projeto do PSD, o candidato está determinado numa estratégia que visa a reconquista da Câmara. Com um princípio na mão, “primeiro as pessoas”, e várias propostas na outra, aceitou fazer esta caminhada com aquilo a que chamou de “orientações estratégicas”. São três: primeira, corresponde à economia através da criação de incentivos ao investimento, da constituição de empresas, “como forma de chegarmos ao emprego”, da criação de “um gabinete do investidor e de um espaço na Câmara para que os jovens possam lançar as suas empresas e dar os primeiros passos, beneficiando de apoios”. Não abdica de um processo de “agilização processual na Câmara como resposta aos investidores, muitos são emigrantes que no máximo vêm por três meses e não podem estar à espera para aprovação dos seus projetos”. Quer “inverter o êxodo rural, evitar a perda catastrófica de população, não só porque os jovens estão a emigrar para fora da Região, mas também para outros concelhos”.

Evitar perda “catastrófica” da população

A segunda incide no social, com um posicionamento virado para os idosos, “cada vez em maior número e a necessitarem de cuidados especiais no apoio domiciliário”. O candidato diz que “em função da emigração que tem vindo a verificar-se no concelho, há muitos idosos que vivem sós e que precisam de atenção. Vamos intervir nesse sentido para dar-lhes qualidade de vida”.

Madeira Agrícola” e parceria com o Governo

A terceira, a agricultura, com uma atitude que vise “facilitar o investimento e ultrapassar as dificuldades resultantes de uma orografia difícil”, incluindo aqui uma atenção específica no escoamento dos produtos “reforçando o apoio de um projeto criado pela anterior vereação do PSD, que é o “Madeira Agrícola”, além de estabelecer uma parceria com o Governo Regional, por intermédio do Mercado Abastecedor, que possibilite escoar a produção, que ainda assenta um pouco na subsistência. É preciso valorizar os agricultores e identificar os produtos locais”.

Não quer Festa dos Compadres como réplica do Carnaval

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Gabriel Caldeira diz haver, na candidatura de Carlos Pereira “uma cultura de poder muito grande….Esteve na Câmara 22 anos e deixou uma dívida colossal e um plano de saneamento financeiro que limitou em muito o executivo do PSD que sucedeu aos seus mandatos.

A cultura é uma área considerada também “importante” pelo candidato. Quer “potenciar a Casa da Cultura, como polo dinamizador de toda a área cultural” e tem como meta a defesa de todos os eventos que preservem a “identidade diferenciadora do concelho de Santana”. Recusa a Festa dos Compadres “transformada em réplica do Carnaval de outros lados”. Defende “o reforço do seu caráter identitário, através da etnografia”. O objetivo, em síntese, é captar turismo “tirando aproveitamento de tudo o que é cultura, preservarndo o património arquitetónico”, abordando aqui a típica casa de Santana “enquanto representativa do concelho mas também da Madeira, como neste momento já é”, mas também a “casa típica de São Jorge, que muitas vezes esquecemos”.

Para Gabriel Caldeira, a atual Câmara de Santana, liderada por Teófilo Cunha, “não tem uma visão global do concelho. Aquilo que a câmara tem feito é apenas gestão corrente, sem visão estratégica e esquecendo o que nós somos. Esta posição é neste momento incompreensível e sê-lo-á ainda mais no futuro”.

Reserva da Biosfera é atrativo

Santana foi considerada “Reserva Mundial da Biosfera” em 2011. Uma distinção que colocou o concelho com uma responsabilidade acrescida para encontrar mecanismos tendentes a aproveitar essa distinção como mais-valia concreta e prática, além do valor que a própria designação encerra em si mesma. O candidato reconhece que a “Reserva da Biosfera não traz retorno imediato, mas de um ponto de vista global é importante porque as pessoas estão mais sensíveis ao Ambiente, o turismo é cada vez mais um turismo específico de Santana, de interação com a natureza e não um turismo cinco estrelas praticado nos grandes centros urbanos. É preciso preservar o galardão enquanto elemento de atração turística, sabendo, em consciência, que obviamente não é a resposta para tudo”.

Queremos que o concelho volte ao desenvolvimento

A componente política, que para estas autárquicas está a um elevado nível de tensão, surge num contexto em que o PSD procura recuperar a Câmara com um candidato que pode muito bem ser visto como “dissidente” do PSD, além das sequelas que poderão advir de alguma divisão no PSD-Madeira resultante ainda das internas que levaram Albuquerque ao poder. Gabriel Caldeira passa um pouco ao lado de uma visão polémica de todo este cenário político e diz que o importante “é que as pessoas entendam que a nossa intenção é mais numa perspetiva de serviço, porque estamos a servir património público. As pessoas devem rever-se nas ideias, ver quem está comprometido para concretizá-las. Queremos que o concelho regresse aos tempos de desenvolvimento, sentimos que Santana está numa passividade por parte deste executivo camarário, que já não é desculpável”.

Reconhece que o concelho já tem, hoje, “alguma folga financeira”, por isso “não podemos entender esta inércia quase absoluta da Câmara”. Diz que “Santana praticamente desapareceu do mapa da Madeira”, referindo-se à gestão camarária. Mas há um outro lado, o do Governo, que muitos dizem ter abandonado Santana ao não avançar com obras estruturantes. Sabe onde queremos chegar e não foge à observação: “É nosso objetivo influenciar e chamar a atenção do Governo, relativamente aquelas que são as obras estruturantes do concelho. Diria logo, à cabeça, a urgência em acabar a obra da Via Expresso até Boaventura. É fundamental concluir aquele troço, uma vez que as populações de São Jorge e Arco de São Jorge são as que ficam, agora, mais distantes do Funchal”.

ARM investe 7 milhões em obra que começa em outubro

Esta pressão que promete exercer junto do Executivo Regional não é só “fogo de vista”, como diz o povo. É muito mais do que isso, promete. E dá exemplos: “Já tivemos algumas reuniões em que alertámos para diversas situações que nos preocupam e sobre as quais queremos ter um papel proativo. É o caso das águas. Posso dizer-lhe que no próximo mês de outubro vão iniciar-se obras no valor de 7 milhões de euros, por parte da ARM. Também já fizemos sentir a necessidade de trazer uma ambulância, com especialistas em primeiros socorros, para dar conforto à população em virtude do fecho das urgências noturnas, problema que tem sido minimizado pelo excelente trabalho que os bombeiros têm desenvolvido”.