Esta é a hora da submissão dar lugar à liberdade

  1. Há muito tempo que este tema me persegue. Vamos então ensaiar uma curta viagem à volta deste tema, que eu não designei de escravidão, por considerar a palavra violenta demais.
  2. Todos nós temos dentro um templo e os seus vendilhões. Por isso, entre a liberdade e a sobrevivência a maioria escolhe a sobrevivência. Quem nunca ouviu coisas do género: «bem que me apetece falar, mas tenho mulher, filhos e contas para pagar»… A ideia de São Paulo na Carta aos Romanos vingou entre nós como ouro sobre azul: «Cada um submeta-se à autoridade estabelecida. Quem se opõe à autoridade opõe-se a Deus. A tarefa do bom cristão é obedecer a Deus». A má e a interesseira interpretação do texto serviu a todos os poderes, fossem eles religiosos ou civis e várias vezes ambos de braço dado convergentes para os mesmos fins. Por um lado, o poder e não a caridade, o dinheiro e não a oração. Por outro, o poder dominador e explorador de alguns sobre os demais e muito raramente o serviço universal, que é o que a autoridade devia ser em qualquer circunstância. Os privilegiados e os lóbis estão alapados a todos os poderes.
  3. A história do mundo pode contar sem sombra de dúvida, a contento do apoio das hierarquias eclesiásticas, muitos governos liderados por pessoas sanguinárias que imponham o poder pelas armas, silenciavam com a prisão, a tortura e a morte os seus opositores. A liberdade de expressão era uma miragem, porque a submissão à autoridade estava definida nos moldes divinos e nada podia estar contra isso. A fé considerada verdadeira não era a que militava na vida concreta da vida do mundo, mas a que se calava com rezas devocionais e que se remetia ao reduto das sacristias. Nada de luz profética sobre o mundo, nada de reclamar, nada de exigir dignidade perante o sacrossanto poder que tinha sido concedido aos iluminados líderes.
  4. Alguns regimes democráticos também se serviram dessa «catequese» para se perpetuarem e também utilizaram todas as artimanhas com intenção velada e outras às claras, para que no momento crucial a escolha fosse a que já se sabe, a sobrevivência em detrimento da liberdade.
  5. Embora a viragem já se faça sentir, ainda é muito ténue, porque facilmente se cai neste esquema, porque ainda não amamos a liberdade, mesmo que não amemos também a escravidão, mas um líder dá sempre jeito, porque o caminho da liberdade é estreito, por isso, recusá-lo, e voltarmo-nos para um ídolo, desfilando em sua honra, porque ele garante a sobrevivência. Muitos ainda se alimentam disso. Um esquema de vida tenebroso, mas que vingou e ainda vinga nalguns lugares como lógica de manutenção do poder. Cuidado, que a loucura pelo futebol está a fazer o seu caminho neste sentido. Não seja necessário lembrar, que se a religião não serviu como ópio para o povo, outras manifestações humanas de igual forma também não servem.
  6. Porém, alguma coisa começa a despertar dessa letargia. Já vai havendo alguma libertação do medo, paulatinamente soltam-se as línguas, têm opinião, porque têm pensamento próprio, os olhos não estão fechados e não se contentam com as migalhas que garantiam a tal sobrevivência. Parece que querem mais, já estão mais exigentes, começaram a crescer, a se emanciparem, sabem o que querem, porque a luz da liberdade também lhes parece que ilumina mais claro do que a singela sobrevivência.