Crónica Urbana: Os madeirenses estão sempre a reclamar

Rui Marote

Reclamamos por tudo e por nada. Porque chove, por dar sol, pelo calor, por não termos avião, por não termos barco, pelos edifícios serem altos, porque retiraram a paisagem, enfim uma insatisfação que deveria ser caso de estudo. Nestes últimos dias temos sido afectados pelos ventos, encerrando a única porta de saída da ilha.
Os media transmitem esse grau de lamentação, quer dos residentes, quer daqueles que nos visitam, testemunhando o seu descontentamento. De quem é a culpa…? Quem manda na Natureza? Os governantes, as companhias aéreas, as funcionárias da Ground Force a quem pedimos responsabilidades…? Esta “catástrofe” quase parece um atentado “terrorista” idêntico ao do aeroporto de Bruxelas, desculpem estas comparações. Mas não morreu ninguém nem houve feridos. Todavia, a noticia correu a uma velocidade impressionante, abrindo telejornais, quer nacionais, quer estrangeiros. Nada abonatório para a imagem do turismo, com o cancelamento de muitos voos internacionais.

Infelizmente este fenómeno meteorológico irá tornar-se cada vez mais frequente, devido às mudanças climáticas  que os madeirenses, como os outros, terão de viver com cada vez maior intensidade. Sou da época em que foi anunciada a “construção”do aeroporto no Santo da Serra, no Paul da Serra  e ate em São Martinho. É para rir, mas foi anunciado, e nalguns casos, efectuaram-se estudos. Foi concluído que o aeroporto seria em Santa Cruz, pois era o local que oferecia melhores condições.
Fomos penalizados internacionalmente para o aumento da pista na cabeceira Oeste, com a queda do avião da TAP . Mas não ficou por aqui, e o Governo Regional continuava a ser pressionado. Foi quando surgiu o aumento da pista para o lado de Água de Pena, para que Madeira pudesse receber aviões de longo curso.

Recordamos a inauguração, com pompa e circunstância, do aeroporto na Madeira renovado, e que recebeu nada mais nada menos que os três avioes Airbus 347 da TAP, do Tristar e de um Boeing Jumbo 400 oriundos da África do Sul, da América, do Brasil e da Venezuela. Uma inauguração de encher o olho, com a presença do então primeiro-ministro António Guterres e do presidente da República Jorge Sampaio. Era tudo festa. A partir desse momento a Madeira estaria ligada aos quatro cantos do mundo, em voos de longa duração. Mas tudo isto não passou de uma miragem, uma autêntica encenação. Um bombom envenenado para um só dia.

Voltou tudo ao primitivo. Temos aeroporto mas não temos aviões, nomeadamente aqueles que foram anunciados para longo curso. Restou-nos a nós madeirenses ir pagando durante anos o empréstimo do Banco Europeu que nos foi concedido para obra,e que nos penalizava nas taxas aeroportuárias. Esse colete de forças só nos foi libertado quando os franceses se apoderaram do Aeroporto, hoje Cristiano Ronaldo, e se responsabilizaram pela restante dívida.
Hoje estamos livres, foram-se os anéis mas ficaram os dedos.
Hoje temos um aeroporto com uma gare bonitinha com free shopping mimoso,mas continuamos penalizados pelas forças da natureza. Aqui não existe dinheiro para comprar o vento. Vamos continuar a reclamar.

Agora a solução é o ferry, outro produto envenenado, 3 milhões para 52 semanas o que equivale a  57,692 mil euros por viagem. Se dividirmos por 300 passageiros, que é a capacidade exigida no caderno de encargos, o preço fica a 192.307 por passageiro. se as 52 viagens forem realizadas ao ritmo de uma por semana e o ferry for totalmente cheio. Fui sempre um mau aluno em matemática desde o Liceu do tempo do saudoso Dr. Francisco Costa até ao Colégio Nuno Alvares…
Mas acho isto um negócio “falido” à nascença. A isto chama-se enterrar dinheiro no mar.

Voltamos ao Aeroporto, quando alguém testemunhava a um canal de televisão: “A maré está cheia, o Armas não anda”. Vamos continuar a reclamar…!!!!