Não há estados perfeitos

Está muito na ordem do dia o estado comunista da Coreia do Norte que prossegue uma campanha contra a Coreia do Sul e se permite desafiar o Mundo, confiado no domínio que diz possuir das letais forças do mal consubstanciadas no domínio das armas nucleares.

Vi, há tempos, um curto mas tenebroso vídeo sobre parte do exército coreano do norte em que uma multidão de quépis de volumosa estrutura circular se abanavam, em conjunto, ameaçadores, sobre caras quase absolutamente iguais, feias, como só podem ser as mais feias faces de certos orientais. Estremeci, de medo e de espanto. A uniformidade férrea do pensamento único tem algo de pavoroso.

Isto levou-me a ler o livro de José Luís Peixoto sobre essa desconhecida Coreia. Conta-nos coisas que, em princípio, são positivas. Por exemplo as comemorações em que erradamente os Grandes Líderes vêm substituir a nossa ideia de Deus (ou deuses). Todavia eles celebram-nos em paz – o que é válido – em que milhares, em conjunto, cantam e dançam ordeirissimamente, numa comunhão de vontades, sempre em glorificação do regime. Um dia, inopinadamente, e excepcionalmente, verifica-se uma questão entre dois coreanos que se encolerizam e trocam murros. Para Luís Peixoto, essa foi a única nota humanizante da grande festa.

O mesmo se pode dizer quanto a crianças. Os coreanos adoram-nas e num estado absolutamente militarizado, são hiper-protegidas, saem em liberdade e sem medos e receios. Positivo, sem dúvida, sobretudo se pensarmos nas infâmias a que, no mundo ocidental, infelizmente assistimos. (Todavia, entre nós, há bem pouco tempo, dois pequeninos heróis desapareceram de casa e o país ficou em suspenso sendo imensa a alegria quando os bebés “aventureirinhos” foram encontrados. Aqui brilhou a nota humanizante). Sei que não tenho razão ao escrever isto. Será que um certo desleixo que pode pôr em perigo os pequenos seres justifica o entusiasmo em uníssono, o despertar de um amor e uma grande alegria pela feliz descoberta de um reencontro?

Na minha já longínqua adolescência li muito o escritor Aldous Huxley e tenho já desvanecidas lembranças que posso equiparar aos problemas da Coreia do Norte. No “Admirável Mundo Novo”, Huxley pensa num estado perfeito em que são eliminados os estratos diferenciados que levam à luta de classes. Para isso os povos são educados através de uma diferenciação de características em que há uma classe condicionada para os serviços aparentemente menos atraentes mas que é respeitada e está feliz; haverá outra classe de funcionarismo, também absolutamente conformada e, naturalmente, classes dirigentes e outras. Não há lutas de classes, mas paz e uma justiça que condiciona esse estado. Um estado perfeito em que não há autoritarismo, mas antes, liberdade individual regulada por inteligentíssimas leis. Para uma melhor felicidade, antevendo-se possíveis desgostos e sofrimentos, prevê-se, no livro, uma espécie de antídoto – o soma – algo que se toma e nos faz voltar à felicidade esperada.

Todavia, nesse livro, há um herói negativo que um dia, numa “reserva” – restos de um mundo antigo, descobre uma peça de Shakespeare. Lê-a e espanta-se. Há um mundo diferente – com ódio e amor, sofrimento e prazer, crime, vingança e castigo, redenção e perdão, alegria e tristeza…

Este é o verdadeiro Estado que aquele homem aceita. Será assim? Não há estados perfeitos, há sempre diferenças e a felicidade é condicionada pelas fraquezas, defeitos e positivamente, até, pela grandeza humana… É uma característica diferente, essa, em que após o mal e o erro só nos resta a gelada certeza do rigorosamente certo.

[Peço desculpa pelo resumo com certeza desastroso que fiz da obra de Huxley, mas não tenho já o livro…] De qualquer modo, esse “estado perfeito” lá da Coreia do Norte, nem vê-lo Prefiro Shakespeare…