As pessoas valem ou não valem?

Todos nós sabemos a forma como as empresas estão estruturadas, hoje, um pouco por todo o lado, mas em Portugal com maior incidência nos últimos cinco anos, mais coisa menos coisa. Dizem que é o mercado a funcionar, dizem que para acompanharmos os níveis de concorrência global, é assim que deve ser, os números falam mais do que as pessoas e é por isso que as pessoas estão a ser números há muito tempo.

Todos sabemos o que se passa numa sociedade economicista, perigosamente aritmética e vergonhosamente destruidora de valores humanos à custa daquilo a que pomposamente se chama de viabilidade empresarial, que sendo “manhosamente” planeada, naquilo que se entende através de uma visão conhecida da nova “gestão gourmet”, faz o trabalho duplo de saneamento, o financeiro e o outro.

Todos sabemos a forma como as empresas estão posicionadas neste mercado dito global, que à custa disso, mesmo que de global algumas não tenham nada nem nunca vão ter, com raras exceções, seguem um comportamento padrão, que é igual para as que dão lucro e para as que não dão. As pessoas deixaram de ser fundamentais para algumas empresas, muitas infelizmente. Os ditos tempos difíceis, que efetivamente Portugal passou e teve que se ajustar à sua realidade, mesmo fazendo mais do que pediam, acabaram por trazer uma vaga daquilo a que o povo chama de “chicos espertos”, que escudados nos partidos, cumpriram o novo desígnio que esta partidocracia falida, mas atrevidamente no ativo, colocou em prática também nas empresas. Com uma linguagem dupla para que não se saiba muito bem de onde vem a estratégia. Uns (nas empresas) fazem a propaganda para “Os números primeiro”. Outros (políticos) fazem a propaganda para “As pessoas primeiro”. Como aqueles mandam nestes, está fácil de ver.

Aquilo que todos conhecemos, hoje, da forma como as empresas funcionam, não todas felizmente, mas a maior parte, é a descapitalização do património humano, a desvalorização do conhecimento em vertentes como a experiência e o bom senso que normalmente se adquire com a vida, a criação de “mercenários” que formam as cúpulas, habitualmente através de núcleos reduzidos mas bem pagos, que pressionam as bases, também reduzidas, mal pagas e precárias, entregues a si próprias e com medo de perder a miséria que recebem, mas que, ainda assim, é importante para a sobrevivência. Porque sendo a procura maior do que a oferta, o que faz mais barato fica. É um nivelamento por baixo. Isso dá um poder inimaginável à falta de qualidade, não faz escola em nada, não dá tempo para bom serviço prestado, mas faz o serviço como nunca.

Afastando funcionários com anos de serviço, a pretexto de criação de emprego para jovens, este conluio de uma visão político-empresarial, retira estabilidade aos que se encontravam nos quadros, muitos “corridos” de forma estrategicamente assente numa “psicologia barata”, mas que provavelmente vai sair cara ao País daqui a uns anos, sobretudo quando se derem conta que estão a construir um País de eternos estagiários, a recibo verde, sem horizontes e sem garantias de proteção futura. Além de estarem a tentar criar um conflito intergeracional para tirarem dividendos, ou seja, divisão de trabalhadores, muitos já nem na mesa ao lado podem confiar. Para não falar da força sindical, que com este novo “modus operandi” só faz de conta.

Vem esta análise a propósito de declarações que li, esta semana, de uma figura política, no caso o Presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, e de um professor catedrático de Economia. Nem de propósito, duas visões que podemos estabelecer como estando em campos opostos na avaliação do mundo laboral, hoje. De um lado, o politicamente correto para “vender” um produto político. Do outro, um olhar realista do que é neste momento o mercado, mas que não convém muito ao poder político.

Albuquerque disse, nas comemorações do Dia do porto do Funchal, que “quem faz as empresas são as pessoas”, considerando que esta “é uma questão de Humanidade, bom senso e até de inteligência”. Disse ser essencial reconhecer, quer no privado, quer no público, “o trabalho dos colaboradores”. Dito assim, até foi uma mensagem incentivadora para quem trabalha, mas em claro contraciclo com o que acontece. Estamos aqui num confronto entre a realidade e o politicamente aconselhável. Compreendemos isso. Talvez possamos retirar, com alguma boa vontade, uma certa pedagogia de alerta às empresas na generalidade.

Do outro lado da visão, temos declarações do professor catedrático de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, José Reis, ao DN Lisboa, que com a devida vénia, reproduzimos:

– “A grande mudança, talvez a mais terrível e profunda, que aconteceu em Portugal, tem que ver com a ascensão da cultura da desvalorização do trabalho. Hoje a cultura que está instalada é de quanto mais barato melhor, é termos licenciados a viver em situações precárias, a servir no setor do turismo, a trabalhar à borla na esperança de poderem vir a ter um salário miserável, a saltar de part-time em part-time. Esta desvalorização do trabalho é um sinal claro de que se está a investir pouco ou nada em capital humano e isso vai ter um preço muito alto”.

Disse também: “Mesmo quem conservou o emprego passou a ter medo. Ora isto gera uma enorme pressão sobre as decisões de consumo”.

É caso para concluir: continuem assim que estamos mesmo a ver onde isto vai parar.