![]()
O filme de Nick Willing é uma obra de Arte: No adequado enquadramento das imagens, na introdução das falas, da cronologia e do fundo musical, salientando-se o modo como um filho se distancia para reconstituir, primorosamente, sem se imiscuir nessa trama delicada, a vida da mulher- artista, que é também sua mãe.
E enquanto decorrem as imagens, as palavras complementam o drama das mulheres, simultaneamente da mulher que é Paula, e plasmam-se na força imagética que a técnica pictórica imprime em grandes telas. A vida das mulheres entre a humildade de amar e a violência de sentir.
Paula é ela própria e muitas outras. Outras que se escondem no silencio e no medo, porque não têm como proceder ao exorcismo ou à remissão. Aquelas que nascem de um designo inexplicável, como inexplicável é toda a existência, crescem dentro de histórias invulgares, abalos e espantos, desejos insatisfeitos, expectativas frustradas, entregas e desesperos, recusas e complacências. Transportam um poder que as marca de uma dor irrevogável. São criaturas fecundas, são amantes nem sempre amadas, são as que se humilham e ao mesmo tempo se exaltam, as que sofrem e se regeneram pelo sofrimento e a luta constantes. Procuram o lugar da vida que lhes seja destinado como pertença legítima, ou o lugar simplesmente possível, ou porventura o conquistado, por instinto, por impulso de sobrevivência, pela percepção dum talento ou duma vontade.
Paula Rego é essa construtora de imagens em que a adversidade e a tortura transformam as mulheres em haustos de sofrimento, onde a humanidade se funde com a monstruosidade, e, sendo esta uma metamorfose do espanto, é um processo de angústia plasmado em formas distorcidas, trucidadas, expondo-se em paroxismos eróticos e flagrantes de pânico, exuberantemente aberrantes.
Vitimas duma sociedade ignorante, obscura, repressiva e redutora, fechada em redutos de medo e contrição, de preconceitos abjectos, vítimas de traições e desamores, privadas de liberdade e atingidas na dignidade dos seus afectos, são esses os retratos femininos que povoam as telas de Paula Rego. Todo o resto é a casa onde vivem, um cenário familiar que alberga os “ segredos”, onde os “bonecos” ganham presença e são gente e contam de um modo operático as próprias histórias. Os quadros de Paula Rego são episódios duma ópera gigante de onde se podem extrair profundidades wagnerianas ou sonoridades de Puccini.
A pintora mostra-se aqui, ela própria na sua condição humana, referência de outras tantas mulheres, denunciando através de memórias recentes ou longínquas um tempo também de infância e adolescência, a experiência do corpo e da libido, o encontro do amor, o imediatismo da sobrevivência, os recursos possíveis, particularidades longo tempo guardadas, segredos íntimos que faz questão de desvendar.
De corpo e alma inteiros, recorda uma mãe indiferente e um pai atento, com plena consciência de que uma época política e socialmente decadente poderia influir na personalidade da jovem cujo talento despontava e era preciso salvar. Salvar a mulher, salvar o génio nascente que finalmente se revelou. No entanto a escolha dum país estrangeiro não retirou a Paula a força da raiz que interiorizou a terra de origem e a sua linfa. Como portuguesa, transportou consigo a revolta do tempo e a ansiedade pela liberdade dos espaços. É do seu país que fala porque nela se reflecte essa realidade.
Denunciadora de tenebrosos tabus, realiza uma obra nua e crua que observa criticamente o mundo e propõe a vontade de que se quebrem grilhetas, se destruam muros, se anulem injustiças, se iluminem caves, se dominem monstros. Paula Rego expulsa os monstros, arremessando-os às telas. Confessa que precisa disso para sentir-se bem. Rejeita a sublimação como forma de superar as agressões ao seu espírito e utiliza antes a psicanálise do realismo torpe, mostra-nos os factos na sua verdade mais chocante, mais repulsiva e deprimente. As mulheres e seus lúbricos esgares assustam-nos e incomodam. A sua arte é um enorme panfleto agitador de consciências.
Contra os que recusam os seus quadros para os colocar na parede da sala, ela realiza uma obra aberta e provocadora para todos aqueles que queiram e saibam ver; queiram e saibam fazer uma leitura do mundo objectiva e sem subterfúgios; queiram e saibam perceber que a imaginação não é uma manipulação alheatória das imagens, mas é um processo de induzir as imagens na abordagem profunda das verdades humanas. Esta é a função da grande Arte.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





