Crónica urbana: Arquitetura é a filha pródiga da engenharia

RUI MAROTE

Não sei se devo meter-me nesta polémica, pois aqui sou aquilo que o povo costuma chamar de “aprendiz de sapateiro”.

O título desta crónica tem direitos de autor, firmados numa conversa de café dominical, mantida há anos, com um engenheiro madeirense já falecido. Dizia ele que, nos seus tempos de estudante, a arquitetura “era uma cadeira do Técnico”. Vem isto a propósito dos arrufos que por aí despontam à conta de obras e projetos de construção civil. Convém então repor a memória.

Recuemos no tempo. Foi há 727 anos que o rei D. Dinis, a 1 de Março de 1290, assinou o documento de fundação, em Leiria, da Universidade de Coimbra. Já a Faculdade de Arquitetura foi criada apenas em 1979, a  21 de dezembro, por transformação da secção de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, passando a integrar recentemente a atual Universidade Lisboa. Até então, para obter esta licenciatura os candidatos teriam de o fazer em universidades estrangeiras, sobretudo em Paris.

Sempre que surge nesta região autónoma projetos de grandes edifícios ou outras estruturas de significativa envergadura são os próprios arquitetos a “disparar” em todas as frentes e até na própria classe.
Aquando da construção do Dolce Vita,  hoje La Vie, o projeto inicial da autoria do arquiteto espanhol Ricardo Bofill previa duas Torres. Caiu o Carmo e a Trindade. O Governo e a Câmara chumbaram logo à partida, alegando o impacto paisagístico. “Isto não é Nova Iorque”, argumentaram, o que levou empresários e o projetista a colocar tudo na sanita e puxar água.
A alternativa é o que hoje se vê. Temos um edifício “normalíssimo”, com problemas nos estacionamentos, e que funciona dia e noite com motores de alta potência num sistema de vasos comunicantes. Entra água, sai água das caves, uma vez que que esses parques estão implantados abaixo do nível do mar. No anterior projeto, os arredores seriam destinados a jardins envolvendo essas duas torres. Atualmente, temos betão e caixilharia. Recorde-se que, durante a construção, as alterações exigidas pela municipalidade eram diárias, ao ponto de o arquiteto, que tem grandes obras assinadas pelo mundo, resolveu nem vir à inauguração.
(Foto Rui Marote)
Outra obra polémica foi a Praça do Povo e jardins anexos. Não esqueçamos que se criaram movimentos contrários à sua implantação, com cordões humanos ao redor do monstruoso aterro na frente mar. Passados alguns anos, já não pensam assim alguns que envergaram cartazes. A praça é palco solicitado pelo Exército, pela Marinha, pelas casas do povo, pela Festa da Flor, pela Festa da Vindima, pelas festas do Fim do Ano, pelos concertos, pelo Desporto Escolar… Enfim, a procura pela nova centralidade é de tal ordem que o Governo teve de colocar um travão à grande solicitação deste espaço. Devido à constante utilização, a praça, com apenas meia dúzia de anos, já apresenta um estado de degradação preocupante, para não falar nos jardins anexos, que são de uma pobreza franciscana.
Todo este nariz de cera para chegarmos ao busílis da grande azáfama de artigos e opiniões, comunicados e intervenções no Parlamento acerca da grandiosa obra de engenharia Grand Palace Savoy. O ex-proprietário, na altura em que apresentou o projeto para o Savoy, viu-se envolvido em polémica, com a suspensão do Plano Diretor para aquela área, tendo a matéria sido levada à Assembleia Municipal da CMF. Era eu, à época, deputado e líder de bancada. Esteve em discussão e foram postas à votação as alterações e contrapartidas para a edilidade funchalense.
Em reunião de Câmara, meses depois, o projeto do Savoy foi aprovado. As obras iniciaram-se com a demolição do antigo hotel, efetuou-se a grande escavação e acautelaram-se as muralhas de acesso à Avenida do Infante. Nada mais avançou, desde então, ficando o projeto ali parado no tempo, servindo nas Festas de Fim de Ano de um posto de lançamento de fogo de artifício.

A banca, entretanto, deixou de apoiar. Chegou a crise e os antigos donos viram-se obrigados a vender, aproveitando a oportunidade de ter aparecido um empresário madeirense que pegou na criança ao colo, arregaçou as mangas e se empenhou de corpo e alma. Traçadas as metas, assume-se como o primeiro projeto de engenharia até hoje na Madeira que não tem estaleiro na obra e que, em dezassete meses, tem o edifício galgado consoante o projeto aprovado. Sou uma testemunha viva porque acompanho todos os meses o crescimento deste soberbo edifício que ficará na história da arquitetura da Região Autónoma da Madeira, assim como o Hotel Casino.
Temos a certeza que, a nível internacional, os galardões surgirão no topo da hotelaria mundial.