José Manuel Coelho promete “fazer pontes com o Governo” e diz que Filipe Sousa é um homem de “conversa fiada”

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“Filipe Sousa trouxe do Continente o Álvaro Santos Pereira, um advogado amigo dele, pagou-lhe uma avença milionária para recorrer das dívidas do tempo do PSD. Dívidas que eram feitas pelo telefone”. Foto Rui Marote

José Manuel Coelho traz um dado novo às eleições autárquicas em Santa Cruz. Ao lado truculento, de choque, contra o sistema, a “romper”, normalmente sem ligeireza, com episódios bem conhecidos cá dentro e lá fora, contrapõe, agora, uma promessa, se ganhar as eleições: “fazer pontes, negociar com o Governo, nas pequenas e nas grandes obras”, dando o exemplo prático do que pode vir a acontecer: a Câmara dá os homens e o Governo dá o cimento. Isto tudo porque, “uma coisa é estar na oposição, outra é liderar um projeto de governação, neste caso autárquica, onde o interesse do povo está acima de tudo”. Sem dúvida, uma verdadeira revelação para quem conhece o perfil opositor do candidato do PTP.

Está a governar a Câmara com estilo de oposição

Aponta o dedo à gestão de Filipe Sousa, diz que o eleito pelo JPP há quatro anos, ainda como movimento de cidadãos, não sabe ter uma posição de liderança na autarquia. “Está a governar a Câmara com o mesmo estilo que utilizava enquanto oposição”, fazendo alusão ao conjunto de conflitos que, segundo Coelho, o atual presidente da Câmara “alimenta” e que “não servem os interesses da população”.

Quase vinte anos depois de ter sido candidato pela APU, José Manuel Coelho, natural de Santa Cruz viu nesta candidatura uma última oportunidade de concorrer no concelho de onde é natural. Está convencido que, pela idade que tem, não iria haver outro momento que encaixasse na perfeição. Está pronto para novo combate político, mas deixa transparecer um Coelho mais moderado, ainda que continue dizendo o que quer dizer.

Não pactuo com injustiças

A mensagem aos eleitores é muito simples: se querem continuar a pagar impostos que não trazem qualquer benefício, como por exemplo acontece com o IMI, podem votar nos outros partidos. Eu não pactuo com injustiças, de quem tem a sua casa, pagar um preço exorbitante através do Imposto sobre Imóveis, que chega aos 300, 400, 500 e em alguns casos a 700 euros. Uma pessoa que constrói a sua casa, leva 20 anos a paga-la e ainda tem este imposto. Os emigrantes, se pagarem 500 euros e vierem à Madeira de quatro em quatro anos, têm 2 mil euros entregues em impostos que davam para ficar num bom hotel. Não vale a pena ter casa aqui. Mais de 50 euros é um roubo. E o PTP é o único partido a apontar esta injustiça”.

Estavam tesos e agora já têm dinheiro?”

Nesta campanha, já deu para perceber que o IMI, receita da Câmara, por isso tão difícil de abdicar, será o chamado “cavalo de batalha” para José Manuel Coelho. Diz mesmo que “as avaliações são feitas pelo Google, num lado da rua é um preço e do outro lado é diferente”. Este é um ponto que vai marcar a ação do candidato do PTP, mas há outro que não deixa escapar e que toca, quer a Filipe Sousa quer aos anteriores presidentes da Câmara: “Todos os presidentes aparecem a fazer coisas nos meses antes das eleições. Isto tem que acabar. Nos primeiros anos de mandato, está difícil, não há dinheiro. A poucos meses das eleições, o dinheiro aparece quase por obra do Espírito Santo. Estavam tesos e agora já têm dinheiro?”

Se houvesse eleições todos os anos, não queria outro

A ironia de José Manuel Coelho é, aquilo a que podemos chamar “imagem de marca”. Diz que se houvesse eleições todos os anos não queria outro para presidente da Câmara, escolhia Filipe Sousa “de caras”. E explica porquê: “Só trabalha uns meses antes das eleições e isto só funciona se as eleições fossem todos os anos”.

As dívidas eram feitas pelo telefone

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“Vamos estabelecer pontes, falar com os secretários, dizer que temos um plano para reparar as levadas, para ajudar os agricultores, damos os mestres e o Governo dá o cimento e a areia”. Foto Rui Marote

E nem fica sensibilizado quando o confrontamos com os números que o atual líder da autarquia apresenta e com o facto de ter reduzido o montante da dívida, um cenário que porventura pode colocar os outros partidos concorrentes sem argumentos para contrariar a gestão do agora partido “Juntos Pelo Povo”. Sem hesitações responde: “Não reduziu nada”. E concretiza melhor: “Filipe Sousa trouxe do Continente o Álvaro Santos Pereira, um advogado amigo dele, pagou-lhe uma avença milionária para recorrer das dívidas do tempo do PSD. Dívidas que eram feitas pelo telefone, contactavam o empreiteiro A ou B e não queriam esperar pelo visto do Tribunal de Contas, queriam era a obra feita. O PSD pensou sempre que esses valores iam sendo pagos mais para a frente, porque nunca teve em conta que podia perder a Câmara. Perdeu e o Filipe aproveitou o facto de as obras não terem cumprido com os requisitos legais para mandar para tribunal, retirando esse valor do total da dívida, logo baixando a dívida. Mas as obras estão lá e os juizes vão acabar por decidir que a Câmara deve pagar, com juros, embora mais para a frente”.

José Manuel Coelho contesta, assim, os números avançados pela gestão do JPP. “O que a Câmara fez foi pagar 700 mil euros à sociedade de advogados para afastar os credores. Se fosse para a Câmara ganhar com isso, muito bem. Mas para adiar o pagamento, ainda por cima com juros?”, questiona. E está disposto a explicar tudo ao eleitorado nas suas ações de campanha, privilegiando o porta a porta, o contacto direto.

Vou derrotar o Filipe Sousa

Mas será mesmo suficiente para convencer os santacruzenses? Não parece ter muitas dúvidas disso, a resposta rápida deixa transparecer que acredita mesmo no que diz e sente que será compensado pelo que faz: “Vou ganhar as eleições em Santa Cruz. Vou derrotar o Filipe Sousa. As pessoas estão fartas. Durante tanto tempo, nem pintava um banco, agora utiliza o alcatrão e contrata a Tecnovia sem concurso, sem nada, porque se estivesse à espera do Tribunal de Contas não conseguia fazer. O Filipe faz o que condenou nos outros. E não precisamos de um presidente que trabalhe três meses. Este Filipe Sousa é um homem da conversa fiada”.

As autárquicas de há quatro anos trouxeram um novo cenário político ao nível municipal, que segundo José Manuel Coelho, “melhorou no aspeto da perseguição que se fazia às pessoas que pensavam diferente, mas ao nível do empreendedorismo parou”. Aponta a Camacha como exemplo dessa inércia: “A Câmara não se empenha na Camacha, que é o postal turístico da Região”. Além disso, refere, “o concelho está dividido entre zona urbana e zona rural, com autênticos dormitórios do Funchal, cujos aglomerados estão completamente ao abandono, onde a Câmara só cobra IMI e recolhe o lixo”.

José Manuel Coelho vai criar cooperativas

Ao nível rural, José Manuel Coelho critica a gestão de Filipe Sousa de não estabelecer pontes com o Governo para ir ao encontro daquilo que deveria ser o cuidado com os agricultores e com os terrenos abandonados. E lança o alerta: “Preparem-se para o perigo dos incêndios, que pode devorar do mar à serra”.

Para que não se diga que o candidato do PTP tem só críticas a fazer, dá o mote para colocar em prática se merecer a confiança do povo de Santa Cruz: criar cooperativas, que se coletam nas Finanças, onde o agricultor, associado, pode vender os seus produtos sem necessidade de pagar impostos, passa fatura em nome da cooperativa.

Vamos trabalhar em conjunto com o Governo

Ajudar as pessoas, acabar com a desertificação e com as guerras que a Câmara anda a fazer, constituem, também, apostas de Coelho. “Vamos estabelecer pontes, falar com os secretários, dizer que temos um plano para reparar as levadas, para ajudar os agricultores, damos os mestres e o Governo dá o cimento e a areia.Vamos trabalhar em conjunto com o Governo”. Diz que “com guerras não vamos a lugar nenhum”. Uma coisa é estar na oposição, outra é na governação.

É assim, um José Manuel Coelho a mostrar o outro lado da rebeldia. O lado contrário do relógio e da bandeira, da afronta ao Parlamento. O lado a mandar promete um homem diferente, um homem que a Madeira ainda não conhece e que Santa Cruz vai decidir ou não se quer conhecer.