Os partidos são meios para governar a vida…a vida deles. E que Autonomia é esta? Autonomia de miséria?

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“Tirando a malcriação e o autoritarismo, Alberto João Jardim era melhor do que aquele que lá está (Albuquerque). Ninguém se entende e veja as divergências que andam por aí, não está melhor”. Foto Rui Marote

Tem 80 anos, é advogado ainda em exercício, diz que apenas deixou de ir a tribunal, partilha o escritório com um filho, também advogado, e está inscrito na Ordem desde 1967. A 20 de maio, em Braga, recebe a medalha dos 50 anos de inscrição naquela organização de classe. Afirma-se um nacionalista patriota, sem os extremismos que a palavra nacionalista pode envolver, um homem de convicções, que um dia fez parte das estruturas partidárias do CDS/PP Madeira, mas que hoje, com o decorrer dos tempos e algumas realidades pelo meio, considera-se mais próximo dos ideais socialistas. Mas sem militância partidária, porque os partidos, como refere, “são estruturas fechadas”. Não gosta nem de Jardim nem do jardinismo ou aquilo que isso implicou para a Madeira. Mas também não deixa Albuquerque de fora: “Tirando a malcriação e o autoritarismo, Alberto João Jardim era melhor do que aquele que está lá agora”. Albuquerque, claro.

Nem esta Autonomia nem esta Europa

José Prada, natural de Trás-os-Montes, terminou a licenciatura em 1964 e em outubro desse ano veio para a Madeira. Primeiro para Santana e depois para Santa Cruz. E por cá ficou, casou e tem três filhos, um deles, José Prada, com militância no PSD-Madeira e deputado. Foi precisamente quando o filho entrou no Partido Social Democrata que José Prada saíu do CDS/PP, não fossem tirar aproveitamento político da circunstância de pai e filho estarem em polos distintos. Foi uma fase da vida. E depois disso, diz-se atento ao que se passa e não gosta de muita coisa do que viu e do que vê. Nem esta Autonomia nem esta Europa. A Autonomia trouxe dívida, a Europa trouxe perda de identidade nacional. Por isso, diz que é frontalmente contra. Uma e outra tal como estão.

Foi para o Seminário, pensou ser bancário e acabou em Direito

A sua história de vida, numa aldeia transmontana, Argozelo, concelho de Vimioso, é igual à de tantos outros miúdos da época. Tal como acontecia com a maior parte das famílias da altura, as finanças não abundavam e o Seminário era uma alternativa ao Liceu. E lá foi para o Seminário, onde predominavam as Letras. “Passados alguns anos, vi que não dava e fui para o ensino cá fora. Como tinha mais bases em Letras e estas davam mais acesso ao Direito, lá fui”.

Mas antes sequer de pensar em percurso universitário, quando foi para o Liceu depois da experiência “interrompida” do Seminário, a primeira idéia era ser bancário, uma profissão muito apetecida à época. Primeiro, ia tirar o 5º ano porque isso dava a entrada num Banco, mas se fosse o 7º ainda melhor, já dava para o Banco de Portugal, para a Caixa Geral e para o Ultramarino. E ali ganhavam mais. A garantia de emprego, num ou noutro caso, estava praticamente assegurada. Foi andando, de ano em ano, até que um dia, o pai chamou-o e usou a expressão conhecida na zona onde vivia para o convencer a continuar: “Quem chega a Amarante, chega ao Porto”. E pronto, o Porto, claro está, significava que tinha chegado à Universidade, que por curiosidade só havia em Lisboa e Coimbra. E chegou mesmo. Não foi para o Porto mas foi para Coimbra.

Farras “emperraram” a “velocidade de cruzeiro” na universidade

Os primeiros anos num universo de curso superior correram bem, mas depois, pelo meio meteram-se umas farras que emperraram a “velocidade de cruzeiro”. Perdeu um ano, mas tirando esse “acidente de percurso”, acabou por concluir a licenciatura em 1964. O senhor doutor, numa família sem tradições no Direito, pensou duas vezes antes de decidir o que fazer da vida, se ali ou numa outra zona qualquer do País. O sonho era ser advogado em Bragança, mas a realidade levou-o a outra opção.

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“Não aceito que seja a União Europeia a mandar em Portugal, tenho as minhas convicções. Portugal nunca teve tantas dívidas como agora. No meu país, deve mandar o governo do meu país”. Foto Rui Marote

Procurou alternativas e definiu uma estratégia de acordo com as opções disponíveis. Perto da zona de conforto não lhe parecia bem e, por isso, o que encontrou ou era muito próximo ao local onde vivia ou, curiosamente, muito longe, nas Ilhas. E Santana, onde havia registo de vagas, passou a ser uma opção para notário interino, ao mesmo tempo que cumpria, com Semião Mendes, o estágio de advocacia. Santa Cruz foi o passo seguinte, onde foi conservador. Casou em 1967 com Ana Maria Prada e tem três filhos, José Prada, advogado com ligações à política e ao PSD, Paulo Prada, formado em Direito e administrador do Grupo Pestana e Catarina Prada, formada em Economia e diretora de organização e processos do Grupo Visabeira, vive em Lisboa. Ainda chegou a pensar ir para Bragança, mas nem a mulher nem os filhos queriam estar longe do mar. “E aqui fiquei”, refere.

Tínhamos uma advocacia de causas, hoje temos uma advocacia de casos

José Prada não se arrepende do percurso, mas confessa que se fosse hoje não seria advogado. “Antes, tínhamos uma advocacia de causas e hoje temos uma advocacia de casos, onde predominam os grandes escritórios de advogados, que incluem alguns comentadores das televisões, como Júdice e companhia”.

A par disso, sem causas e sem peso, os advogados debatem-se com o funcionamento dos tribunais. “Funcionam muito mal. Não têm dinheiro e a Justiça que se faz é atrasada”. E aponta para aquilo que, por experiência própria, vivenciou: “Tenho um caso de colonia, que começou em 84 e ainda não está resolvido”. Um caso sério que, tal como outros, a Justiça deixa arrastar nos tribunais, provocando aquele sentimento de que não se faz justiça com a Justiça que temos.

Nunca gostei de Alberto João Jardim”

Ser advogado é uma parte, mas a política fez a outra parte. Esse lado de José Prada levou-o ao CDS/PP, por uma razão muito simples: não gostava de Jardim e não era comunista, logo o CDS pareceu-lhe bem. “Nunca concordei com Alberto João Jardim, desde início. Conheci o tio, Agostinho Cardoso, que era o homem que mandava na Madeira antes do 25 de abril, até era conhecido pelo homem dos sete ofícios. Depois veio Jardim e por isso mesmo fui para o CDS, embora hoje em dia esteja muito mais próximo do socialismo do que do próprio CDS”.

Aos 80 anos, com uma vida profissional intensa e com uma vida partidária quanto baste para dizer o o que pensa pela experiência que teve, José Prada aponta o dedo aos partidos, diz que são estruturas fechadas, onde “só lá entra quem eles querem. E para lá entrar é um caso sério”. PSD nunca, estava fora de questão. E com Jardim, era um relacionamento tenso. “A única vez que nos cruzavamos, com bom dia, boa tarde, como está, era no Verão no Porto Santo, onde a casa que ele ficava era a 200 metros da minha. Durante o mês de agosto, era assim, de resto nada”.

No CDS, esteve na Comissão Política e no Conselho Regional, mas quando o filho entrou no PSD saíu dos centristas “para que as pessoas não dissessem que o filho estava num lado e o pai no outro”. Como gere esta realidade em casa? “Vivemos bem com isso, cada um vive com as suas opções”.

Não se justifica a dívida acumulada

Quando apontamos a transformação sofrida pela Madeira no exercício de poder de Alberto João Jardim, José Prada contrapõe e diz que “todo o país progrediu, até a minha aldeia que não tinha Alberto João Jardim. Mas a Madeira progrediu muito mais foi na dívida. O dinheiro que veio para a Região deveria ter dado para as obras e não se justifica que tenha sido acumulada toda aquela dívida”.

Que Autonomia é esta? Autonomia de miséria?

Não é um defensor desta Autonomia e diz, também, não ser um europeísta. “Sou nacionalista e patriota. Não aceito que seja a União Europeia a mandar em Portugal, tenho as minhas convicções. Portugal nunca teve tantas dívidas como agora. No meu país, deve mandar o governo do meu país”. Sobre a Região, diz que estar constantemente a pedir dinheiro, para tudo, não é solução. “Queremos um hospital, não há dinheiro, queremos fazer obras, não há dinheiro. Que Autonomia é esta? A Autonomia da miséria? Da pedincha? Não concordo”.

Tirando a malcriação e o autoritarismo, Jardim era melhor que Albuquerque

Tem uma idéia muito concreta sobre a organização das Regiões. Não é nada disto. Defende que organizar as Regiões, com uma Autonomia destas, apresenta contornos que, em sua opinião, propiciam “a corrupção”, é como se houvesse um abrir de portas “tal a proximidade entre governantes e governados em territórios pequenos”. Diz que a Madeira “foi e é prejudicada por isso”. Nem a mudança alterou o “status”. Diz mesmo, sem reservas, que “tirando a malcriação e o autoritarismo, Alberto João Jardim era melhor do que aquele que lá está (Albuquerque). Ninguém se entende e veja as divergências que andam por aí, não está melhor”.

Partidos são meios para governar a vida…a vida deles

A política, de resto, não lhe merece considerações por aí além, mas aquelas que suscitam não são positivas. “As pessoas que não estão ligadas aos partidos nem recebem dinheiro deles, não os podem ver. Que é o meu caso. Os partidos são meios de governar a vida… a vida deles, não a vida do País ou da Região. Mas é assim na União Europeia. Veja o dinheiro que demos à “troika. Isto revolta-me”. É por isso que, quando se fala das novas gerações, José Prada concorda que “não têm futuro enquanto a Europa continuar como está, com o poder de alguns sobre os outros”.

A caminho dos 81 anos de idade, confessa que nunca conseguiu entrar no mundo informático. Não se dá com computadores. Talvez tenha feito mal, deixa escapar mesmo no final da entrevista. Quanto a telemóvel, é outra coisa. É útil, mas mesmo assim, é só para receber e fazer chamadas.. Mesmo “sem mão” para o mundo digital, não fica menos informado por isso, tem tudo o que precisa mesmo ali à mão. E uma opinião firme perante a falta de firmeza de uma sociedade fragilizada em muitos aspetos.

Com a vida que tem, tem uma vida pela frente.