O “aviso” em francês

Emmanuel Macron, o candidato às eleições presidenciais francesas, cuja segunda volta vai acontecer no próximo domingo, tendo como opositora a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, demonstrou que a democracia fora dos grandes partidos está a emergir e pode muito bem, com a mesma legitimidade democrática, corresponder aos princípios que o eleitorado procura, sobretudo num país onde a fragmentação é grande e onde a esperança começa a ser muito reduzida.

É num contexto em que os franceses estão fartos, da política e dos políticos, onde os focos de instabilidade e revolta são demasiado sérios para serem avaliados de ânimo leve, nesta Europa que se uniu para dividir, num terreno de insegurança e num falso horizonte de esperança, que Macron quer marcar a diferença fora dos grandes círculos partidários, onde se decide sempre no mesmo sentido e a favor de um corporativismo que, não raras vezes, contraria os interesses do País em favor dos interesses de um núcleo disciplinador que, tanto em França como noutros países, já está obsoleto e nas mãos de meia dúzia de pessoas, que subiram na hierarquia dos partidos, mas que não obedecem a critérios de qualidade e competência, como seria desejável.

Esta reação dos eleitorados aos grandes partidos, descredibilizados em função de comportamentos que, na generalidade, passam ao lado de ideologias e assentam sobretudo na demagogia que sustenta as cúpulas e arrasta as bases, arrebanhadas porque sim e sem saberem muito bem o significado do não, faz com que o protesto incida, basicamente, em dar voto com o cunho de radical, com os riscos daí inerentes, acima de tudo porque pode colocar em posição de poder estratégias que apenas suportam uma reação a quente, mas que dificilmente servem os interesses de projetos, quer de cada País, por si só, quer em contexto de Europa.

O que aconteceu com as presidenciais francesas, naquilo que se prende com a Frente Nacional de Marine Le Pen, vem no sentido do que temos assistido um pouco por todo o mundo, em matéria de protesto e de radicalização da vida democrática. As crises, o desemprego, a perda de identidade nacional, são factores que ajudam a compreender estes fenómenos que levam as atitudes ao extremo, sendo que o eleitorado, de forma acéfala, cria a armadilha onde vai acabar por cair, sem pensar muito bem nas consequências do voto de protesto e sem ter em conta que um universo de votantes nesse mesmo sentido, pode acabar por dar poder efetivo a ideologias nacionalistas que, por exemplos que a História dá, não são propriamente a salvação que os povos precisam.

Os franceses protestaram em dois sentidos. Um, através de Macron, contra a hegemonia dos grandes partidos, procurando dar voz a uma mudança que vá num sentido diferente das estratégias partidárias, em que a alternância não tem sido, de forma alguma, alternativa. Outro, através de Marine Le Pen, mais radical, mais protesto em si, mais determinado no sentido do “Basta”, mostrando que a França tem graves problemas para resolver e pensando que só uma visão nacionalista pode devolver ao país a identidade na medida em que permitirá retomar um princípio, pouco aceitável, mas estritamente nacionalista, de dar a França aos franceses.

Estes dois protestos estão plasmados em Macron e Marine Le Pen. E, independentemente do grau de risco, a verdade é que a situação deve ser observada com responsabilidade e respeito pelo voto popular, mesmo que às vezes pouco ponderado. Macron tem uma atitude frontal face aos problemas e demonstra atributos que o podem levar, e certamente o levarão, à vitória nas presidenciais de domingo. Passou a ser a imagem menos radicalizada das eleições. Porque o protesto, felizmente, foi feito em duas vias e uma delas para salvar a face dos franceses. Neste caso, Macron vai evitar que a França caia mas mãos de Le Pen.

Mas não se pense que Macron considera a eleição já ganha. Nem pode, para mais com as últimas sondagens que dão conta de uma recuperação de Le Pen. Macron sabe o que está a acontecer com os franceses, tem uma leitura consentânea com as exigências e tem a plena consciência que a sua vitória parte da responsabilidade que possa vir ter em função do eleitorado da Frente Nacional, que não é pouco e que corresponde a uma França com quem Macron vai conviver se for eleito, como é mais provável.

Quando colocado perante a possibilidade de um debate (aconteceu esta quarta-feira) com Marine Le Pen, Macron não hesitou. Ao contrário do passado, em que candidatos fugiram a debates desvalorizando essa oposição da Frente Nacional, Macron aceitou o debate com o argumento que Marine Le Pen tem um apoio significativo dos franceses, é um perigo para o futuro de França e, por isso mesmo, é importante debater ideias para esclarecer o eleitorado, como de resto deve acontecer em democracia. Uma decisão, sem dúvida, inteligente, racional e estrategicamente definidora do conceito promissor de Macron, tendo como objetivo valorizar a sua vitória através do respeito pelos adversários, garantindo para o futuro uma política de integração e debate aberto. Com esta posição, já começou a ganhar. Não é ignorando radicalismos que eles desaparecem, é combatendo com ideias.

É importante que as presidenciais francesas sirvam de exemplo. Primeiro, os grandes partidos estão esgotados. No modelo, na formação de quadros e na credibilidade. Paradoxalmente, feitos para a democracia, neste conceito de longos anos de desgaste, são prejudiciais a essa mesma democracia, alimentam clientelas, fomentam favorecimentos e transportam para os governos o circuito fechado da mobilidade de quadros conforme a cor. Segundo, o protesto pode ser perigoso quando o povo decide protestar todo ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou pelo menos numa grande parte.

O protesto só é saudável se for credível. E o povo não pode criticar a falta de credibilidade dos políticos se o seu voto for no sentido de eleger a descredibilização.

É assim em França. É assim em todo o lado. Desta vez, Macron acabou por ser o “salvador” contra o extremismo. Mas ninguém pode garantir que será sempre assim. Por isso, além de um povo responsável, deve ser lançado um aviso aos políticos: tenham juizo porque o “estado de graça” pode não durar sempre.