O Feiticeiro da Calheta: a minha visão do filme

Produção independente do realizador de cinema Luís Miguel Jardim, resultado de um ano e sete meses de produção, O Feiticeiro da Calheta é uma longa-metragem (filme de época e confessada preferência do realizador) que se distancia da sua filmografia anterior, quanto mais não seja pelo amadurecimento e limar de arestas relativamente a produções anteriores mais experimentais e de menor investimento.

Se bem que Inspirado na vida de João Gomes de Sousa, autor da letra do Bailinho da Madeira, e que ficou para a História como o Feiticeiro da Calheta, estamos perante uma obra de ficção que constitui um interessantíssimo testemunho das vivências das gentes da Calheta, mas fundamentalmente centrada numa relação de afetos, sobretudo entre pais e filhos, muito cara ao realizador, bem como na intenção (inteiramente conseguida, a nosso ver) de, numa perspetiva intencionalmente pedagógica, passar aos mais jovens a cor epocal de um passado remoto, com as suas especificidades, diferenças, mundividências, virtudes, grandezas e misérias.

A questão das injustiças e dramas que o regime de colonia gananciosa trouxe a um povo lutador e resiliente, mas muitas vezes escravizado pelos senhorios, oprimido e esmagado pela fome, pobreza, prepotência, insensibilidade e desumanidade, não raras vezes sem qualquer legitimidade ou justo pretexto, merece nesta longa-metragem um particular e claro enfoque.

Não se depreenda, porém, que o filme cai na monotonia de um apelo à lágrima fácil, lamechice ou sentimentalismo piegas.

Há obviamente lugar para a dor retratada mais compungentemente no rosto acabrunhado das crianças que não tiveram tempo para serem meninos, mas igualmente a intenção de suscitar o sorriso ou mesmo o riso incontido, quebrando a monotonia (inteligentemente evitada) que a eventual insistência na primeira situação poderia acarretar.

Destaca-se, muito pela positiva, o facto de esta magnífica produção poder ser considerada inteiramente madeirense, feita com a “prata da casa”, nomeadamente com atores e figurantes madeirenses, na sua larga maioria amadores (à exceção de Francisco Faria e João Augusto Abreu), mas que souberam emprestar ao filme a firmeza do empenho, talento e profissionalismo, a ponto de pouco ou nada ficar a dever a artistas mais experientes e traquejados na Sétima Arte.

Registe-se, muito meritoriamente, a circunstância de a banda sonora (da autoria de João Augusto Abreu), bem como a produção, realização e sponsorização (de matriz local) constituirem um válido contributo para que esta obra cinematográfica de inegável valor possa ser considerada 100% regional, o que é, sem dúvida alguma, motivo de admiração e orgulho para todos.

Não terá sido, de todo, por acaso que as sucessivas casas cheias, e lotações mais que esgotadas (que nalguns casos ocorreram) dá bem conta da forte procura, curiosidade, interesse e aceitação do público em geral, a ponto de o filme ter estado na tela em duas salas de cinema, conseguindo, além dessa nota digna de registo, reunir gentes de várias gerações, que, independentemente da idade ou preferências cinematográficas,  souberam consensualmente reconhecer e aplaudir a indiscutível qualidade da obra. Há igualmente que reconhecer a capacidade de coordenação do realizador em cenas que exigiam a presença em simultâneo de muitos atores e figurantes, designadamente na recriação da primeira festa das vindimas em 1938, junto ao Palácio de São Lourenço, ou ainda nas complexas filmagens realizadas na Lombada dos Cedros.

Não obstante, de acordo com o testemunho do realizador, as cenas que o obrigaram a um atenção e trabalho mais aturados foram as de maior intensidade emotiva ou que envolviam falas de crianças, naturalmente mais delicadas.

Acompanhamos em absoluto o realizador na convicção de que a excelente fotografia poderá constituir igualmente uma mais-valia, enquanto cartaz turístico.

Tomando de empréstimos as palavras de Luís Miguel Jardim, o filme poderá efetivamente funcionar como “um postal de saudade na diáspora”, havendo a possibilidade de levá-lo até às comunidades de madeirenses além-fronteiras, aposta que desde já saudamos.

De acordo com o realizador (e bem), logo que estejam reunidas as necessárias condições a obra “Made in Madeira” poderá mesmo chegar ao restante espaço nacional e internacional, contribuindo para a sua rentabilização, sabendo-se das contingências e custos inerentes ao limitado mercado regional.

Em suma, estamos perante uma obra cinematográfica que tem a virtude de fazer desfilar aos nossos olhos o deslumbramento de paisagens magníficas, a enquadrar afetos e dramas humanos.

Inevitavelmente, numa ilha, o filme assinala a omnipresença esmagadora do mar, do mar que todos os ilhéus ouvem na alma como o chamamento de um búzio.

Imperturbável, a vertigem da distância de um mar tão perto quanto a vontade de partir sempre que um barco rasga as águas.

Como não poderia faltar, a colorir e tipificar meios mais limitados e propensos, não faltam as “bilhardices” ou diálogos de “leite talhado”, o “preço que careia” associado às inevitáveis “freimas” com o cuidado do pão para a boca ou com a doença implacável.

Inesquecível a fala do poeta popular, quando, com o feitiço encantador das palavras, diz: “Vou à cidade vender versos”. Pungente o sonho do feiticeiro de oferecer à filha um cordão de ouro.

Delicioso o “andor, andor” da vendeira assertiva e arisca, mas fazendo sempre de ponte com os que estão lá fora com o seu miraculoso “tilfone”.

O drama de “andar embeiçado” ou a “reina” porque o amor tem de ter peias, não podendo ter coração onde possa estar.

O silêncio da impotência porque não se vai a tempo, nunca se vai a tempo perante “carne de cachorro”.

Finalmente, deste Feiticeiro da Calheta fica-nos na alma a imagem dos olhos de quem tenta juntar as letras, não por ser feiticeiro, mas por alimentar os sonhos de fadas que nunca morrerão no nosso imaginário.