“A ambição maior da Saúde é prevenir a doença”, considera o presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria

Hospital Santa Maria B
O presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria considera que a relação de mais Cirurgia de Ambulatótio, menos internamento, logo mais camas hospitalares livres, tem um valor diminuto.

A realidade em contexto hospitalar, num âmbito mais alargado ao todo nacional, transmite-nos alguma visão sobre a forma como determinados hospitais desenvolveram um processo de adaptação às necessidades impostas pelos utentes, mas também pela investigação e pelo conhecimento, que no seu conjunto acabam por “empurrar” as administrações e os profissionais do setor para decisões e ajustamentos que exigem, simultaneamente, eficácia na prevenção, rapidez na intervenção e racionalidade nos meios, tendo sempre, acima de tudo, o utente no foco principal. Um olhar além Madeira, que se torna ainda mais relevante num enquadramento em que está em curso o processo conducente à construção do novo Hospital.

O presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria – Centro Hospitalar Lisboa Norte, Carlos das Neves Martins, considera que “a ambição maior da Saúde é prevenir a doença”, e diz que o HSM “é o melhor exemplo demonstrativo de como foi interiorizando o Novo Conhecimento, para o que se modernizou e atualizou com novos procedimentos, novas técnicas, novos tratamentos, executando intervenções cirúrgicas arrojadas, atingindo o mais atual estado-de-arte da Medicina, e sendo, hoje, uma referência de excelência nacional e internacional”.

Estado de saúde ótimo na vertente edifício

Com 55 anos de idade, licenciado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho, Carlos José das Neves Martins foi presidente da Região de Saúde do Algarve, secretário de Estado da Saúde e secretário de Estado Adjunto do Ministro do Turismo, nos XV e XVI Governos Constitucionais e desde maio de 2012 é assessor do Ministro da Saúde para as áreas das Relações Internacionais e Cooperação e em Projetos Estratégicos Interministeriais.

O responsável pela administração de uma unidade emblemática em termos de Saúde em Portugal, diz sem hesitar que o Hospital de Santa Maria tem um “estado de saúde ótimo”, na vertente edifício e enquanto estrutura física sólida”. Além de “uma vigilância e conservação diárias, que lhe garantem a completude da sua integridade”.

Protocolo de cooperação com a Região

Numa outra vertente, da adaptabilidade, “tem tido muita facilidade em se reconstruir interiormente para receber as novas tecnologias, os novos métodos de trabalho, facilitar a circulação dos doentes, criar as melhores condições nos seus circuitos para todos os que, por razões diferentes, procuram diariamente o HSM. E é sabido que o Hospital não se confina a receber a população da sua área geográfica de influência, recebe doentes de todos os pontos do Continente e Regiões Autónomas (ex. a Região Autónoma da Madeira com quem tem, através do Centro Académico de Medicina de Lisboa, Protocolo de Cooperação com a Secretaria Regional de Saúde e, com o CHLN, um Acordo Parcelar Específico na área da Oncologia), assim como do estrangeiro, com maior enfoque para os países africanos de língua oficial portuguesa”.

Em termos históricos, como faz questão de lembrar Carlos das Neves Martins, o Hospital de Santa Maria é “o modelo clássico da traça de um hospital imponente e enorme, que imperava na cultura arquitetónica nos países mais desenvolvidos da Europa, em meados do século XX. Cabe recordar que nesses anos, a Medicina e a Cirurgia tinham uma evolução lenta e a comunicação com os centros mundiais mais avançados de investigação e inovação fazia-se com muita dificuldade”. Continua a recordar que “foi a partir do último quartel do século XX que se deu um boom espetacular e surpreendente de evolução das ciências médicas, em praticamente todas as áreas de especialidade e que tem trazido ao ser humano as respostas satisfatórias para muitos dos seus problemas de saúde. Mais centros de investigação, melhor investigação transnacional, maior comunicação entre investigadores – a componente positiva da globalização mundial”.

Trabalho, evolução e aprendizagem

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“O HSM é o melhor exemplo demonstrativo de como foi interiorizando o Novo Conhecimento, para o que se modernizou e atualizou com novos procedimentos”.

No tocante aos desafios que hoje se colocam no universo hospitalar, o presidente do Conselho de Administração do HSM afirma que os mesmos “não estão isolados do enorme esforço de trabalho realizado, da evolução contínua e da aprendizagem associada, conjugada com a vontade de dirigentes e profissionais em conseguir dar as melhores respostas, igualmente esperadas e desejadas pelos utentes”.

Diz que “a ambição maior da Saúde é prevenir a doença”, referindo que “todos os dias ouvimos conselhos aturados sobre os mais diversos cuidados a ter com o corpo humano, evitando-se erros que inexoravelmente fazem adoecer com maior ou menor gravidade. Mas não se cinge só a conselhos, também há vacinas para evitar doenças, terapêuticas preventivas, dietas redutoras de aterosclerose, movimentos e ginásticas, entre outros tantos. Para um estabelecimento de saúde hospitalar, a ambição é diagnosticar certo e rápido e tratar com eficiência e presteza. Ou confirmar diagnóstico prévio feito no seu exterior, como por exemplo nos Cuidados de Saúde Primários”.

Refere que, no caso presente do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, que associa os Hospitais Universitários de Santa Maria e Pulido Valente, “tratando-se de hospitais centrais e de fim de linha do Serviço Nacional de Saúde, é-lhes imposta uma acrescida complexidade de diagnóstico e tratamento mais elaborados, resultado de serem recetores de doentes que vêm transferidos de outros hospitais, em que se complicaram e agravaram as duas doenças, grandes acidentados, diagnósticos diferenciados difíceis, cirurgias de grande perícia e sob exigente experiência, e muito mais”.

Agilidade pronta nos medicamentos

Por isso, a unidade hospitalar que dirige, além de profissionais altamente preparados e atualizados, tem de estar organizada e apetrechada ao mais alto nível para responder às exigências, focando um conjunto importante de situações para a garantia de um bom serviço prestado aos utentes: “Há áreas técnicas ao mais alto nível para poder responder às situações extraordinárias que se lhe são colocadas. Há áreas técnicas de maior exigência e volumetria, que implicam adaptações mais complexas, como por exemplo a Imagiologia, com equipamentos cada vez de maior resolução e definição, circuitos de análises clínicas e produtos orgânicos com enorme automatização, além da dimensão gigante da farmácia hospitalar e a sua agilidade em prover prontamente medicamentos ou outros produtos de utilização clínica, entre outros igualmente de gestão muito diferenciada”.

Para Carlos das Neves Martins, “a reorganização dos serviços clínicos, logísticos e de apoio, é um permanente desafio para a administração, seus administradores atribuídos e profissionais de saúde, na busca de modelos ideais”.

Cirurgia de Ambulatório é útil mas não é panaceia

Há entendimento que nos novos tempos, o regime de Cirurgia de Ambulatório assume particular importância, sendo que o mesmo poderá resolver o problema do internamento, o que se traduz, em função da respetiva eficácia, numa possibilidade de redução do número de camas. Outras correntes apontam que isso não será possível, uma vez que o aumento da esperança de vida pode originar internamento por diversas complicações, que não necessariamente uma intervenção cirúrgica.

O nosso entrevistado é de opinião que “tudo coexiste num estabelecimento hospitalar”, com maioria de razão no Hospital de Santa Maria “pela sua complexidade de intervenção”. Diz que “para situações clínicas diferentes, logo respostas diferentes”, esclarecendo que “a cirurgia de ambulatório, não sendo tão recente assim, veio facilitar e resolver o problema das patologias designadas mais simples e que não necessitam de internamento após o ato cirúrgico. Mas, não se pode transferir um doente para este tipo de cirurgia, que requer uma intervenção cirúrgica mais elaborada e melindrosa com vigilância apertada no pós-operatório e de recuperação mais lenta. Nem um acidentado que necessita de cirurgia urgente e em diferentes especialidades cirúrgicas, conforme os orgãos atingidos”.

Face a esta situação, é de opinião que “a Cirurgia de Ambulatório é extremamente útil e oportuna e deve recrudescer em todos os hospitais, indiferentemente do seu grau de intervenção, mas não é panaceia para a totalidade das situações clínicas necessitadas de cirurgia, como lhe foi explicado. A relação que fala de mais Cirurgia de Ambulatótio, menos internamento, logo mais camas hospitalares livres, não tem a expressão que lhe aponta. Tem um valor diminuto”.

Hospital inaugurado em 1953

O Hospital de Santa Maria integra, desde 2007, o Centro Hospitalar Lisboa Norte, pertencente ao Serviço Nacional de Saúde. A história remonta a 1934, aquando da aprovação do decreto-lei relativo à criação da comissão administrativa dos novos edifícios universitários. A obra foi concluída em 1953 e inaugurada em 27 de abril desse ano.