Europa fraca faz fraca a forte gente

 

“O fraco rei faz fraca a forte gente”. Luís de Camões disse-o bem e deixou um legado relevante para adaptar a todos os tempos, em todos os momentos, em todas as conjunturas e até com as devidas adaptações, como forma de explicar um pouco a importância que as lideranças têm para a evolução das sociedades. Quanto mais forte for a liderança, mais forte é a sociedade e mais forte é o conhecimento e a qualidade dos povos. O contrário também é verdade.

Todos os acontecimentos que, infelizmente, estão a acontecer por toda a Europa, quer politicamente, quer de liderança, quer ainda ao nível da insegurança – porque umas coisas têm a ver com as outras – representam a antítese dos princípios que estiveram subjacentes à própria construção do projeto europeu, a tal Europa cujos propósitos iniciais tinha um mundo de virtudes, sem defeitos que se conhecessem nem pessimismos que se vislumbrassem, com apoios dos mais fortes aos mais fracos, da solidariedade, dos fundos que iriam resolver todos os problemas dos atrasos estruturais e superficiais, do paraíso na terra, do emprego para todos e de uma economia saudável que iria prosperar até nem caber de contente em si própria. No fim, os fundos, de tanto a fundo perdido, que se perderam nos fundos de algumas empresas e nos fundos de alguns bolsos. Muita gente desenvolveu, mas não os setores que deviam.

Claro que na génese, no projeto global de uma Europa unida, fazendo valer essa junção de esforços no sentido do crescimento integrado, quer individualmente, em cada país, quer no contexto generalizado do espaço europeu, só podíamos encontrar um cenário idílico, defendido com “unhas e dentes” pelas lideranças de então e entendido pelo povo como uma oportunidade de globalizar a nossa economia, expandir o País para o desenvolvimento e dar qualidade de vida aos cidadãos.

O projeto, em si, era positivo. Na globalidade, era. Só que ninguém contava com o que estava para vir, a começar pela crescente perda de qualidade das lideranças europeias, que arrastaram a Europa para uma coisa que, hoje, não se sabe bem o que é, nem se sabe para onde caminha, tal é a crise vivida mesmo por aqueles que se diziam fortes e que, ainda agora, mostram “peito cheio” aos outros mas com os bolsos quase vazios, só que não querem que se saiba. Não são só os fracos que estão em crise, os fortes também estão e não é pouco.

Quando olhamos para esta Europa e para estas lideranças, que degradaram os países na relação direta da sua falta de qualidade, vemos que dificilmente o projeto europeu conseguirá reunir uma caminhada de sucesso. A par da crise económica, que parece generalizada, temos a crise política, que formou, num ápice, esta enorme crise de insegurança que todos sentimos, relativamente ao terrorismo, que atua como quer, onde quer e no tempo que quer, agravando-se nos últimos tempos com episódios aparentemente isolados, mas comprovadamente articulados com uma estratégia de levar o pânico a centros de decisão, como forma de pressão internacional. Impor o medo nas sociedades e aproveitar a falta de entendimento e de lideranças seguras, como se viu por exemplo na situação relacionada com os refugiados, onde nem a decisão de colocá-los em diferentes países correu bem, precisamente por falta de organização, numa demonstração clara que nada está controlado e que, pode muito bem acontecer, entre os refugiados passem terroristas. Doa a quem doer, isto é verdade. E sem generalizarmos nem pormos em causa a solidariedade, é preciso não assobiar para o lado só porque é politicamente correto. Ajudar quem precisa, é uma coisa, preparar mecanismos para dar segurança, é outra. Calar é dizer sim ao caos.

Quando nos lembramos de líderes como Willy Brandt, Helmuth Khol, Francois Mitterrand, Margareth Tatcher, Jacques Delors, entre muitos outros, com alguns defeitos naturalmente, somos encaminhados para uma relação de responsabilidade. Em contraciclo com a realidade de hoje, em que somos confrontados com posições públicas degradantes no âmbito de qualquer processo democrático e civilizado, de que as declarações do ministro alemão das Finanças, num tom de dono da Europa e de cada país, ou do líder do Eurogrupo, com aquele primor de que os países que foram ajudados “querem é gastar dinheiro em bebida e mulheres e depois pedem ajuda”. Não é difícil chegar a uma conclusão relativamente ao caminho que a Europa pode traçar. Falta qualidade de liderança, só pode faltar qualidade de um povo quando vota. Porque vota sem acreditar, porque vota mais com o coração do que com a cabeça e, sem cabeça, nestes casos, dá para o torto. Como já deu em muito lado. E vai dar mais.

É preciso ter cuidado com esta Europa, economicamente frágil, politicamente amorfa, vulnerável a extremismos, uns porque o próprio fraco povo elege, outros porque o fracos “reis” (entenda-se líderes) permitem, através de políticas que levam a insegurança. E é o que se vê.

Uma Europa fraca faz fraco o seu povo. E o grande risco que se corre, além do desmembramento, de que o Reino Unido é o exemplo mais recente, é a proliferação de uma anarquia, com o extremismo a chegar ao poder para lidar com o extremismo que anda nas ruas, através do terrorismo. Podemos, um dia, viver em terrorismo permanente, de quem manda e de quem atenta contra a segurança dos cidadãos como forma incompreensível de luta.

“O fraco rei faz fraca a forte gente”. Encaixa tão bem nesta Europa que até assusta…