Este Dia Oito de Março

Desde há algum tempo que decidi não me calar sempre que alguém, quase sempre bastante jovem, se me dirige a perguntar: ‘E a menina, o que é que quer?’

Por regra explico que tenho idade para ser sua avó e que agradeço que faça o favor de não me tirar os anos que, de facto, correspondem às evidentes rugas. Costumam seguir-se coisas verdadeiramente disparatadas: além do sempre ‘Mas porquê, não gosta do menina?’, há variante de que ‘Então, não se é sempre menina?’ ou ainda do insolente ‘É que assim tiramos-lhe alguns anos!’.

Como o leitor calcula, nem sempre as coisas correm bem daqui para a frente quanto mais não seja porque esses jovens não me conhecem de parte nenhuma, não andaram comigo na escola, nem vão a minha casa.

Mas, verdade se diga, o mal não é verdadeiramente deles; apenas expressam dois pensamentos muito preocupantes que, entre outros, têm vindo a alastrar.

  1. O primeiro tem a ver com esta doentia obsessão pela juventude. Tudo o que é ícone, é jovem. Tudo o que é sucesso, jovem é. Os anúncios elogiam os jovens. A moda é feita para jovens. Somos ‘quem conta’? Claro, somos jovens! Como se a vida não continuasse e a juventude não fosse um estado que inevitavelmente evolui para a idade madura, aquela idade em que se toma consciência de muitas coisas e se distingue melhor o certo do errado.

Nada disto é inocente. Nestes tempos tão complexos, social e politicamente, o que mais convém aos grandes poderes é que as pessoas se imaginem sempre jovens e, portanto, com as poucas responsabilidades individuais que em regra estão associadas à adolescência, entreguem a resolução dos problemas ‘a quem sabe’: aos tais poderes protectores. Em troca, ‘bastará aos jovens’ não pensar e esquecer qualquer crítica!

  1. O segundo, tem a ver com a Mulher; assunto cuja discussão dá para muitos dias, ou anos – que o que não se resolveu em séculos, ainda vai levar a muitas lutas!

(A propósito, também já perguntei a esses jovens que tentam tratar-me por menina, como é que tratam um homem da minha idade. São prontos a responder que o tratam por Senhor. Pois é!!!)

Um destes dias, ao passar os olhos num conteúdo patrocinado de um jornal online deparei-me com esta pérola, a propósito do 8 de Março: «O Casino da Madeira faz questão de celebrá-lo como manda a tradição: mimando as criaturas mais fantásticas à face da Terra! Especialmente nesse dia há jantar, música para ouvir e dançar, rapazes a tirar a roupa e muitos mimos para a Mulherada!»

No dia seguinte, mais anúncios com promessas de strippers em «espectáculos sensuais para as “meninas”» (Cá estão as meninas, outra vez!)

Fiquei de boca aberta! Não percebo nem aceito que para a ‘mulherada’, para ‘mimar as criaturas mais fantásticas à face da Terra’ (mas que raio é isto?), seja escolhido um programa de ‘rapazes a tirar a roupa’. Ou que aquilo a que as “meninas” têm direito no dia 8 de Março sejam sensuais strippers! Mas confesso que ainda percebo menos o estado a que chegámos, quando isto é oferecido e há quem aceite a oferta!

Certas datas, os dias nacionais ou mundiais, são o que são. Assinalamos o 5 de Outubro ou o 25 de Abril porque são datas significantes da nossa História, com a mesma ‘naturalidade’ com que esquecemos que o Dia Internacional da Paz é o 21 de Setembro e o 5 de Junho o Dia Mundial do Ambiente.

Já o 8 de Março está ‘no meio’: é assinalado, mas convenientemente deturpado. Não defendo romagens de saudade sobre o protesto das operárias da indústria têxtil de Nova Iorque em 1857. Também sei que este Dia perdeu muito do seu sentido original e adquiriu um carácter festivo e comercial.

Mas, num tempo em que a violência de género não diminui, que as oportunidades e o reconhecimento continuam a ser muito diferentes consoante o sexo, que o aumento das situações de guerra acompanha o aumento de crimes de violação, que o presidente norte-americano ou um qualquer imbecil do parlamento europeu se sentem com espaço e força para despejar impunemente alarvidades acerca das mulheres; neste tempo, convém não esquecer que Dia é este!

As conquistas sociais, políticas e económicas nunca foram, em si mesmas, eternas. Talvez ainda menos as das mulheres!