O jejum que purifica a alma e o corpo

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1. O jejum é uma das condições essenciais da Quaresma, os quarenta dias que preparam a festividade maior dos cristãos, a Páscoa. A Quarta feira de Cinzas sempre foi um dia de Jejum – lembro-me que na casa dos meus pais neste dia comíamos malassadas com café pela manhã, ao almoço comíamos couves com bacalhau e semelhas. A quantidade era reduzida porque este neste dia o jejum não podia ser esquecido. Nas sextas feiras da Quaresma ninguém comia carnes e se as comessem por esquecimento estava obrigado a rezar três terços e a ir à missa.

2. O jejum tinha uma função religiosa muito importante e funcionava como dinâmica de preparação para a grande festa da Páscoa. Não se sentia que fosse prejudicial à saúde deixar de comer um pouco menos e renunciar à carne nas ementas até servia muito bem porque o peixe aparecia como obrigação (falo de peixe comum, chicharros e cavalas, porque o peixe fino não entrava na mesa dos pobres). Pelo contrário, muitos hoje defendem que esta tradição da Igreja se revestia de uma sabedoria impressionante, visto que servia para desintoxicar o organismo dos excessos em relação à alimentação.

3. Nos tempos que vivemos, fartos de tantos alimentos quase será uma «violência masoquista ou sádica» fazer jejum. Porém, os apelos ao jejum revestem-se de uma carga simbólica muito grande. Por exemplo, pode ser como que um apelo a favor da paz e um incentivo à partilha, o que nos parece muito sugestivo e vem revalorizar a dimensão desta tradição com muitos séculos na Igreja.

4. O jejum não pode ser apenas uma renúncia barata, isto é, não pode ser apenas uma forma de renúncia de carne para comer peixe. Por isso, penso que pouco servirá um jejum que renuncia à carne para comer lagosta ou outro prato de peixe muito mais caro do que um de carne. Neste sentido, o jejum não se limita apenas ao cumprimento de fórmulas exteriores, mas é antes uma atitude interior de vida que promove o bem em favor de todos. Se o jejum se resume às atitudes puramente materiais ou materialistas não ganha sentido nenhum.

5. O jejum é essa condição de vida que nos deve fazer viver com moderação e com equilíbrio perante a fartura dos bens materiais que a sociedade nos apresenta com a política económica dos super mercados, dos centros comerciais e pela sedução cada vez mais agressiva da publicidade.
O jejum cristão é este caminho de renúncia perante as coisas sobre as quais não nos deixamos escravizar, mas que procuramos ter com os bens uma atitude muito consciente, porque os consideramos ao nosso serviço. A escravidão pessoal perante os bens materiais, é uma das piores formas de pobreza. Assim sendo, o jejum torna-se um caminho, um modo de vida e uma atitude perante a realidade do mundo que nos rodeia. O jejum é uma forma de educação para a liberdade. O jejum é um modo de vida em marcha para alegria da festa. O jejum é uma atitude de vida que torna mais nobre e eficaz a minha reflexão sobre a dimensão transcendente da existência. O jejum é um caminho de amor próprio e pelos outros porque deve depois fazer pensar que nada sou sem o valor da paz no convívio fraterno com os outros.

6. Quando o jejum se converte numa consciência sincera sobre a construção da da paz deve fazer-nos olhar o mundo em que vivemos, porque ainda nele persiste a fome que devasta vários milhões de pessoas anualmente, onde se esbanja de uma forma desmedida sem controlo nenhum e onde se produz uma abundância de lixo sem precedentes em nenhum momento da história humana.

7. O jejum é a alegria que convida à festa, porque é uma serena luta em favor da paz em todo mundo. Muito melhor seria para a humanidade toda se os políticos de todo o mundo procurassem fazer um verdadeiro jejum das armas. Um mundo sem armas seria o resultado da verdadeira atitude do jejum.

8. Por isso, quero crer tomando a mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma que a paz é o verdadeiro nome de Deus e que não há outro modo de resolver os problemas senão através da paz, vivendo a abertura de espírito ao outro que é um dom; abandonando a cegueira do pecado, «O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação», para que possamos redescobrir o dom da palavra, porque, «Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão». Boa Quaresma.


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