Caso Centeno ou “Diz o roto ao nu: porque não te vestes tu”?

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Em tempos de pós-verdade, nada como recordar as palavras de um político, ainda hoje venerado como exemplo por extremistas, trumpistas portugueses e quejandos.

“(…) Represento uma política de verdade e de sinceridade, contraposta a uma política de mentira e de segredo. Advoguei sempre que se fizesse a política da verdade, dizendo-se  claramente ao povo a situação do País, para o habituar à ideia dos sacrifícios que haviam um dia de ser feitos, e tanto mais pesados quanto mais tardios.

Advoguei sempre a política do simples bom senso contra a dos grandiosos planos, tão grandiosos e tão vastos que toda a energia se gastava em admirá-los, faltando-nos as forças para a sua execução.

Advoguei sempre uma política de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa — política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos”. Quem proferiu tão verdadeiras e singelas palavras? Isso mesmo, acertou…  António de Oliveira Salazar (para muitos políticos atuais, o Mestre), em 1928.

Foi Salazar dar contas a Deus, mas a sua alegada “política de verdade e de sinceridade”  fez escola.

A título de exemplo, quando questionada por José Gomes Ferreira sobre se a meta do défice para 2016 seria cumprida, Maria Luís Albuquerque, conforme  se sabe, especialista em ocultação de problemas bancários que afetem défices e saídas limpas, foi categórica. Segundo a ex-ministra (dos cofres cheios), não era “de todo possível” que o défice de 2016 cumprisse as exigências de Bruxelas. Aliás, e para que não restassem dúvidas, Maria Luís afirmou mesmo “aritmeticamente não é possível“. Está visto que aritmética é com Maria Luís!!!

José Gomes Ferreira, porém, voltou à carga: “Não acredita que o défice pode ficar abaixo de 2,7%?“.

Albuquerque, com a mesma segurança, “verdade”, “transparência” e “ética” que há um ano nos garantira a devolução de 35% da sobretaxa, respondeu: “Não, de todo.“. “E abaixo dos 3%?“, insistiu Gomes Ferreira. “Também não“, rematou Maria Luís. Quem sabe, sabe. Também como  Cavaco, raramente tem dúvidas e nunca se engana.

abel-imagemMais recentemente, a  trapalhada de Mário Centeno, bem como  as anedóticas explicações sobre a Caixa, não mereciam outra reação (sejamos honestos) que não fosse um esclarecimento nas Comissões Parlamentares de Inquérito, que até hoje  mais não têm sido que o palco preferencial para mentiras, dissimulações, desculpas esfarrapadas, histórias da Carochinha ou da mais elaborada ficção científica, invariavelmente com nenhum resultado ou com resultado nenhum.

O caso é que a galeria de ilustres mentirosos que já por lá passaram para deixar a sua mentirinha, inverdade, falta à verdade ou pós-verdade, o seu descaro, o seu cinismo ou a sua indisfarçável atrapalhação é mais que extensa e enjoativa, não estando  dela  isentos  representantes ou gente conotada com PS, PSD ou CDS.

Coube agora a vez de “fazer borrada” a um ministro do governo  PS e, logo, os outros dois “santificados” partidos vieram a terreiro tentar crucificar o ministro e o seu  governo do alto do seu “imaculadíssimo” passado.

E, por falar em borradas e imaculadíssimos, já Paulo Portas, O Irrevogável, em 1991, no programa “Bilhete de Identidade” da RTP2, quando decidiu que nunca seria político, por ser geneticamente contra-poder, dizia: “Não tenho ambições políticas nenhumas. Se há coisas definitivas na minha vida e na minha cabeça, uma delas é essa.” Adiantava, ainda, que “Os quadros dos partidos são medíocres. As pessoas (que compõem os partidos) são muito medíocres, não têm mais nada que fazer na vida”, assegurando que, se um dia, algum seu amigo estivesse no poder, deixaria de ser seu amigo. A verdade  acima de tudo, como se viu submarinamente.

Padre António Vieira, citando o rei gentio Agamenão, afirmou: “Qui non vetate peccare, cum possit, jubet”; que significa: Quem, podendo, não impede o pecado ordena-o.

Esta é que é a verdade sobre a mentira na política.

“Exigimos que sejam legalmente perseguidos aqueles que propagam e disseminam mentiras políticas através da imprensa”. Esta declaração indignada (verdade, verdadinha) foi extraída de um manifesto do partido nazi de 1920. Muitos ditos democratas a subscreveriam.

A verdade é que o político pode ser apanhado  em falta, mas dificilmente se provará que mentiu. Na pior das hipóteses, fica provado que recebeu umas postas de peixe ou um balde  de  azeitonas. James Callaghan, primeiro-ministro britânico nos anos 70, dizia que “a mentira dá à volta ao mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas”.

Existirá, porém, algum caso em que é aceitável mentir em democracia?

João Almeida, que foi primeiro nome do CDS na lista da coligação “Portugal à Frente” pelo distrito de Aveiro, que tem sido um dos mais visivelmente descabelados com as mentiras de Centeno e dos que mais gritaria tem feito em nome da verdade e da justiça, respondeu com grande limpidez a esta questão.

Depois do grande “papel” que tem protagonizado contra as mentiras de Centeno, ter-se-á subitamente esquecido que  no  “Prós e Contras”, de 23 de outubro de 2013, produziu a seguinte pérola para memória futura: “Os eleitores obrigam-nos a mentir” para ganhar eleições. Memofante  (passe  a publicidade) pode  ajudar nestes casos patológicos já adiantados.

Quem terá, pois, mais autoridade  para exigir a verdade de Centeno do que o indignado, o ofendido, o integérrimo  político João Almeida, que só mente sempre que lhe cheira a poder.

A  mentira é uma hiperligação que  faz parte da vida de alguns políticos e, com as raras exceções de sempre, tal conceito já se incorporou na imagem que o eleitor  faz dos seus representantes, sendo ele mesmo que se encarrega de mandatá-los para tal malfeitoria.

Richard Nixon teve que renunciar porque mentiu sobre Watergate, tentou obstruir o trabalho de investigação e negou a sua responsabilidade na invasão do edifício Watergate, em Washington.

Atualmente, Trump (que já mente desde a primeira palmadinha da parteira no traseiro), estou certo, não sofreria com isso nem uma beliscadura.  Contudo, talvez não haja período mais profuso em manipulações e dissimulações que as campanhas eleitorais. Na demanda de votos, muitos candidatos adotam-nas como estratégia, não raras vezes a única. A 1 de abril (curiosa data) de 2011, em plena campanha eleitoral, Passos Coelho disse, mentirosamente, a uma criança (que candura!) que cortar subsídios era um disparate. Recorde-se que quem primeiro demonstrou que a mentira é útil na arte de conquistar e manter o poder foi o pensador italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) – principalmente na obra O Príncipe. Nessa medida, o totalitarismo germânico também formou  muitos políticos convictamente mentirosos. Na esteira da famosa máxima do ministro da Propaganda da Alemanha nazi, Joseph Goebbels, “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, exatamente numa  lógica de apostar que a população passará a duvidar da falsidade da mentira pela insistência e, numa segunda etapa, acabará por considerá-la verdadeira.

Menos conhecida, mas não menos  pérfida, foi uma declaração de Adolf Hitler, segundo a qual “As massas acreditam muito mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena”.

Infelizmente, nos tempos que correm, já não é assim tão difícil identificar traços do ADN  de Goebbels ou de Hitler no discurso político contemporâneo. Não se trata, portanto, de algo inconsequente.

Em bom rigor, como alguém dizia, e com carradas de razão, a mentira na política é a perigosa semente de uma erva daninha que pode enfraquecer a democracia. Afinal, mentir é ocultar, não dar transparência – algo incompatível com os princípios democráticos.

Dito isto, denunciar a mentira, pedir esclarecimento, apurar responsabilidades, exigir consequências não é mais do que legítima e paralelamente exercer um direito e um dever. No entanto, é de toda a conveniência e sensatez  que  não se tenha um “quadro clínico” de súbitas ou crónicas amnésias no que toca a “rabos de palha” ou “telhados de vidro” escaqueirados.

 


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