
João Gouveia
Delegações parlamentares de Moçambique e da China vão manter, hoje, conversações bilaterais sobre o estágio atual da cooperação entre os dois países. As conversações enquadram-se na visita oficial que uma equipa de parlamentares moçambicanos está, desde ontem, a realizar à República Popular da China.
Perante o momento de alguma indefinição que Moçambique vive hoje, o Funchal Noticias quis expor algumas questões à chefe da bancada parlamentar do maior partido de oposição em Moçambique (Renamo) e representante do mesmo nesta visita à China, Ivone Soares.
Funchal Noticias – Vê neste convite onde a liderança do grupo parlamentar da Renamo juntamente com os grupos parlamentares da Frelimo e do MDM são convidados para uma visita à República Popular da China, a construção de um diálogo que porventura tem faltado, para o êxito das reuniões que brevemente os grupos indicados, tanto pela Frelimo como da Renamo, iniciarão com o objetivo de alcançar em definitivo a paz e a democracia em Moçambique, onde é do conhecimento público que o período de trégua acaba a 4 de março?

Ivone Soares: No âmbito do estreitamento dos laços de amizade entre os dois países e povos, o parlamento moçambicano recebeu um convite da contraparte chinesa e por motivos de agenda a senhora Presidente só conseguiu efetuar esta visita oficial este ano levando na sua delegação, entre outras individualidades, os Chefes das três bancadas parlamentares.
Não há sombra de dúvidas que em política o diálogo é indispensável para que os consensos sejam construídos. Julgo ser imperioso que todos nos empenhemos para alcançar uma paz duradoura.
O papel da Renamo e seu presidente
FN– Politicamente é a primeira vez que as lideranças dos 3 grupos parlamentares são convidados para uma visita a um país em simultâneo, hoje potencia mundial, como é a China. Julga que tal convite seja uma valorização e reconhecimento pelo trabalho feito pelos deputados no Parlamento moçambicano, assim como legitimamente ter a opinião de quem representa a Nação?
IS – Nenhuma formação política poderá apagar o papel histórico que a Renamo e o presidente Afonso Dhlakama vêm desempenhando desde os esforços para a introdução da democracia e atualmente para a sua consolidação. Isto para dizer que a nossa legitimidade está no apoio que o povo nos confere em cada pleito eleitoral onde notoriamente a RENAMO se consolida como o partido da maioria empobrecida. Acredito que o principal objetivo da nossa contraparte chinesa insere-se no fortalecimento das relações de amizade, cooperação e estudo de novas oportunidades que poderão catapultar as relações bilaterais.
Importa referir que, nesta legislatura, esta é a primeira visita oficial que a Presidente da Assembleia da República efetua fazendo-se acompanhar pelos três chefes de Bancada. Decidimos aceitar o convite que nos formulou porque somos uma força com 89 deputados e com uma palavra a dizer, em particular, no que ao parlamento diz respeito. Lideramos a oposição em Moçambique, já governamos 5 municípios e agora temos fortes perspetivas de ser o próximo governo de Moçambique.
A Renamo está preparada
FN – A Renamo está preparada para no caso de ser chamada a ter responsabilidades governativas, conforme é seu desejo nas 6 províncias que reivindica após as eleições de 2014?
IS: Com certeza! Temos experiência de governação de 5 municípios, nas últimas eleições ganhamos 6 das 11 províncias e gostaríamos de ver valorizada a vontade popular. Daí termos submetido a proposta legislativa que permitiria governar as 6 províncias onde desde 1994( ano das primeiras eleições) o voto do eleitorado vai para o presidente Afonso Dhlakama e para a Renamo. Como disse, todos os cinco pleitos eleitorais passados deixaram a desejar por falta de transparência, justeza e clareza.
Esperamos ultrapassar esses problemas, ver esses fantasmas enterrados e avançar para a descentralização do país.
Renamo nasceu em 1975
FN – A Renamo nasceu em Moçambique em 1975 como oposição a um regime de um único partido, que foi a Frelimo, durante estes 42 anos muitos intervenientes mediaram o caminho para a paz, democracia e consenso necessário para o desenvolvimento, Portugal e a União Europeia por várias vezes estiveram envolvidos, sem nunca terem assumido um “papel” fundamental para o desenvolvimento de todo o país, julga que a saída do ranking dos piores países no mundo ainda é possível para Moçambique?
IS: Com a governação responsável da RENAMO creia-me, Moçambique vai mudar. Sairemos da lista dos piores e iremos melhorar o índice de desenvolvimento humano, teremos um verdadeiro Estado de Direito Democrático, onde os Direitos Humanos são respeitados e onde haverá saúde, educação, emprego, habitação condigna, segurança e será devolvida a dignidade aos cidadãos moçambicanos.
Governadores devem ser eleitos
FN – Qual é o modelo de descentralização para o país que a Renamo reivindica, tomando em linha de conta exemplos anteriormente focados como o da Alemanha, Espanha, Africa do Sul, entre outros?
IS: A nossa proposta legislativa apresentou com muita lucidez as nossas pretensões como verdadeiros representantes do povo. Julgamos nós ser urgente que os governadores passem a ser eleitos e que as províncias tenham autonomia o que não significa dizer que queremos cortar o cordão umbilical e ficarmos desligados do poder central. Queremos que as equipas envolvidas no diálogo encontrem rapidamente um meio termo de modo a que já nas eleições de 2018 todos os distritos de Moçambique possam ser autarquias com uma assembleia e presidente eleitos por voto directo e secreto dos munícipes; que em 2019 tenhamos governadores eleitos e não indicados pelo presidente da república obedecendo a critérios dúbios.
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