A minha alma “tá’ parva”

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Quando alguma coisa a deixava literalmente de queixo caído, espantada com um acontecimento ou um comentário, a minha mãe costumava dizer “a minha alma “tá parva”. Um dia, era eu ainda miúda, perguntei-lhe porque é que ela dizia aquilo. Respondeu-me logo ‘Ó filha, é que não sou só eu que fico parva. É também a minha alma’. Não sei se na altura percebi bem o que ela queria dizer. Mas sei que ao longo da minha vida pude ir entendendo melhor essa resposta porque também eu tenho ficado, de vez em quando, com a alma parva.

Ora há pouco mais de um mês foi assim que se me ficou a alma, quando ouço jovens da JSD dizerem qualquer coisa como isto “Pese embora a ocupação do Teatro Municipal Baltazar Dias seja mais assídua, não se pode banalizar a ocupação do edíficio, nem esquecer-se da matriz que o caracteriza, aceitando todo e qualquer evento, só para não se ter de sufragar ideias ou projectos”!!!

O quê?? Se quanto à ocupação, estamos conversados – parece ser indesmentível que é maior – já sobre a banalização, fico-me intrigada: é que eu vejo na Agenda do Teatro (coisa que não me lembro de existir nas últimas dezenas de anos) uma programação que mensalmente se distribui por teatro, conferências, concertos, festival de música, bailados e outros realizações. Banal? Bom, se entendermos por banal qualquer coisa sem originalidade, todos gostaríamos muito de conhecer as originais e inovadoras propostas que os responsáveis do Teatro se recusaram a sufragar! Para bem da diversidade e da qualidade cultural, venham elas!

E 2017 promete continuar a pôr-me a alma parva!

Há uns quinze dias ficámos a saber que os vereadores do PSD na Câmara do Funchal estranharam quer a demora da autarquia na classificação das pontes da cidade, quer a ‘escolha’ de apenas três pontes para classificar. Então não é mesmo para a minha alma ficar parva? Se a Câmara nunca mais se despachava, porque é que os senhores vereadores do PSD não avançaram com a proposta de classificação? Eu bem sei que tinham um problema interno para resolver porque – se a memória não me falha e os documentos não mentem – os anteriores responsáveis autárquicos, Miguel Albuquerque presidente, responderam pela mão de Bruno Pereira que as velhas pontes podiam ir todas à vida e pelo menos a Ponte Nova até deveria passar a ter duas faixas de rodagem. Mas vereador que se preze aguentava-se no balanço e avançava para a requalificação. Se o tivessem feito poderiam falar d’alto; agora assim…

Mas confesso: a minha alma aparvalhou em dose dupla com o dr. Sérgio Marques, ainda a propósito da mesma requalificação.

Regista o senhor Secretário (a fazer fé na imprensa que às vezes não fala lá muito verdade…) a “enorme satisfação pelo facto da Câmara Municipal do Funchal, finalmente, se ter juntado ao Governo na concretização prática de medidas que salvaguardem o nosso património comum”. Finalmente? Se é finalmente é porque a autarquia se atrasou. Então e porque é que o Governo não se chegou à frente e classificou o património até como de interesse regional (patamar superior da classificação), tanto mais que há várias intervenções semelhantes em vários concelhos da Madeira? – basta ver o «Plano de Obras e Providências» do Brigadeiro Oudinot para se perceber do que falo. Se o Governo tivesse feito isso, seguramente teria evitado muita coisa que o Governo (sim, o mesmo) fez nesta triste ribeira de Santa Luzia.

E continuo a ler que o novo projecto de preservação da Ponte Nova “reflecte a preocupação que o Governo manifestou desde a primeira hora, relativamente ao projecto de 2011, que previa a demolição desta e de outras infra-estruturas com interesse patrimonial, e concretiza a solução técnica que permitirá não apenas preservar, como também valorizar aquela centenária Ponte”.

Desde a primeira hora? Sabem caros leitores do que é que lembrei logo? Das “Cenas da vida conjugal”, um texto que aqui vos trouxe em Dezembro passado.

Então digam-me lá se a minha alma não tem que ficar parva!?

(Este texto estava praticamente pronto mas suspendi-o por causa da morte de Mário Soares. Aqui fica agora.)

 

 


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