O “nim” das sondagens

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A luta autárquica na Madeira irá centrar-se muito no Funchal.

As expressões “uma no cravo, outra na ferradura” ou “estar bem com Deus e com o Diabo” ou ainda “passar entre os pingos da chuva” são conhecidas por todos como sendo utilizadas por aqueles que, em diversos momentos e por variadas circunstâncias, querem posicionar-se do lado do “nim”, que é precisamente aquele que fica entre o não e o sim e pode transmitir uma imagem confortável aos que são chamados a ter opinião e não querem dá-la, assim de forma aberta, do género é branco ou preto e, então, apontam para o cinzento que às vezes é tão conveniente. O “nim” dá uma margem de manobra que nem o não nem o sim dão. Compreendem certamente porque razão há tanta gente a viver com o “nim”? Claro, a experiência de vida e o cruzar com algumas pessoas dá essa compreensão.

Mas vamos ao que realmente interessa, uma vez que esta introdução pretende apenas enquadrar e chamar a atenção para algumas situações que são normais na vivência de hoje (por interesses que se interligam e conivências que se alimentam entre si.), embora não o sendo à luz de valores e princípios ou à luz da verdade das situações.

Há dias, fomos confrontados com uma sondagem que visou avaliar as possibilidades de candidatos e eventuais candidatos, no Funchal, para as próximas eleições autárquicas. Legítima decisão do orgão de informação (Diário) que encomendou o estudo, está no seu pleno direito e constitui motivo de interesse jornalístico. Portanto, aqui e neste aspeto, tudo correto, nada de estranho.

Acontece que tanto na estratégia seguida em dois dias, como nas reações subsequentes, assistimos a muitos “golpes de rins”, a muitas declarações contestando os resultados, sublinhando que em 2013 as sondagens enganaram-se redondamente, que ainda vai correr muita tinta, que ainda é prematuro, enfim um conjunto de afirmações, que também naturalmente, variavam de acordo com as cores políticas de quem as proferiu. Muita estratégia, como sempre.

À parte as questões políticas, de caráter partidário, temos que ser realistas em determinadas situações. Primeiro, o resultado, independentemente dos valores em questão, favorecem Paulo Cafôfo e deixam a potencial candidata do PSD, Rubina Leal, numa posição difícil, a partir de uma desvantagem de consulta, mas que resulta de situações idênticas idênticas de quem chega e tem que enfrentar uma realidade já em exercício, já com trabalho feito.

Parece-me mais do que natural. Para o cenário vigente e para o momento.

Sejamos realistas: qualquer inquérito de rua, qualquer avaliação primária, pela rama, que fosse feita neste contexto, daria exatamente o mesmo resultado, com os ajustamentos correspondentes à variação, no tempo e no universo, que fossem feitos em determinado momento. Há uma popularidade inquestionável de Paulo Cafôfo, cada vez mais visível, com um trabalho e uma estratégia que tem colocado a “máquina” a funcionar e as pessoas gostam disso, e há uma oposição muito fraca na Câmara do Funchal, com raras exceções. É só isto. E os partidos têm que trabalhar com este cenário. É igual ao tempo em que Albuquerque também era figura popular no Funchal e os seus adversários tinham que partir muito antes e nem chegavam a tempo.

Em segundo, estamos a falar de uma consulta entre um candidato já anunciado e uma possibilidade, que para já não passa disso, a apresentar pelo PSD-Madeira, um dia destes ou um mês destes. E, sendo assim, há desde logo uma vantagem para o que já está e uma entrada em défice de quem vier travar a luta autárquica, para mais de um partido com aspirações de poder, que quer ganhar o Funchal mas ainda não tem candidato. Pode ser cedo do ponto de vista cronológico, mas para o trabalho que é preciso fazer, talvez não seja. O CDS, nisso, ganhou vantagem porque já está dentro da corrida.

Qualquer candidato do PSD terá muitas dificuldades, disso não tenhamos dúvidas. Que irá correr riscos políticos, também parece óbvio. Que poderá correr riscos e, para compensar isso, haverá algum “plano B” na manga se falhar a eleição, como forma de sobrevivência política de futuro para o candidato voluntário, também parece-nos provável e, sendo assim, fica mais fácil arriscar. A ver vamos o que acontece. Porque para o bem e para o mal, cada partido tem o seu “tempo” e sofre as consequências disso.

Outra parte da sondagem, no dia seguinte, foi a da “ferradura”. A menos habitual por ser assente numa possibilidade e por parecer uma “mãozinha” dada para compensar o efeito Cafôfo. Até mesmo que não fosse essa a intenção, lá que pareceu, pareceu. Seja como for, a verdade é que o resultado seria igual a qualquer outra consulta que fosse feita na rua ou noutro estudo. E pergunta-se:

Cafôfo tem condições de ser reeleito e a sondagem coloca-o bem à frente? Sim, é verdade, é o sentimento que se tem, hoje, no dia a dia.

Rubina Leal é a candidata melhor colocada, no PSD, para ir a votos contra Cafôfo? Sim, é verdade, é o que se sente e o que as pessoas pensam, hoje.

Parecendo iguais e até tendo sido colocadas como parecendo iguais, são situações diferentes. Bem diferentes. Tão diferentes que nem “uma no cravo, outra na ferradura” conseguem esconder.

Independentemente das sondagens, a verdade é que há muito trabalho pela frente, em todas as câmaras, mas particularmente no Funchal, por ser referência, por ser emblemática. Para qualquer força partidária, para qualquer candidato. Mas por aquilo que se passou há quatro anos, é mais para uns do que para outros. E por muito que se diga “nim”, será sempre sim ou não. Nem que seja no dia do voto.

Isto é como no futebol: é preciso jogar os noventa minutos. Quem aposta nos descontos, normalmente só ganha com um golpe de sorte…

E as estratégias de comunicação, por muita articulação que tenham (e têm), e por muitos “nins” que provoquem (e provocam), não fazem o trabalho de quem deve fazer. E um dia, vê-se isso…


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