Um ano difícil

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Este ano de 2017 é de eleições autárquicas. E, sempre que isso acontece, passa a ser um ano de alguma aparente “bonança” por parte de quem exerce o poder, neste caso concreto da Madeira, o regional e o local.

O panorama global é já diferente desde as últimas eleições para as câmaras municipais, que acabaram com a hegemonia do PSD face às restantes forças políticas, quebrando um cenário que sempre deu maioria social democrata e, só a espaços, permitia que outras forças partidárias pudessem assumir a liderança, em Machico e Porto Santo. Mas no geral, o comportamento em ano de eleições é sempre muito igual independentemente de quem esteja nas lideranças. Vamos ouvir falar de números como nunca, de recordes, de impressionantes opiniões, de apoios, de obras, pequenas ou grandes, que têm a vantagem de abranger a Região e, por isso, há sempre um lado positivo neste comportamento eleitoralista dos políticos. Existem obras, que aguardam há anos, e que em ano de eleições vão avançar. Vá lá, que sirva pelo menos para isso.

Depois das últimas autárquicas, o cataclismo do PSD foi de uma dimensão impensável, ao ponto de ter conservado apenas as Câmaras de Ponta do Sol, Calheta, Ribeira Brava e Câmara de Lobos, perdendo Funchal, Porto Santo, Santa Cruz, Machico, Santana, São Vicente e Porto Moniz. Um descalabro nunca antes visto e uma dificuldade acrescida para, num curto espaço de tempo, poder pensar em recuperação, pelo menos na dimensão anterior.

Face a este quadro vigente, naturalmente que a máquina social democrata tem um grande desafio pela frente, procurando colocar no poder local a vitória assumida nas últimas regionais, as primeiras do período pós-Jardim, que ainda assim, não obstante o desgaste da governação PSD, deu a este partido a possibilidade de continuar a governar com maioria absoluta, ainda que por um deputado. Não será fácil transpor essa realidade para as câmaras, como de resto não será fácil repetir resultado nas próximas regionais. Mas, como no futebol, é preciso entrar sempre para ganhar.

Acontece que o PSD terá, forçosamente, que viver com a desvantagem autárquica correspondente aos últimos resultados, mas também viver com a desvantagem de uma “guerra fria” interna, que vem sendo alimentada em redes sociais, com troca de acusações e levantamento de questões que, embora acreditando não estarem organizadas nem com o objetivo de sublevação, acabam por ter o efeito nocivo face a uma unidade que, mais do que nunca, o PSD-Madeira necessita para mobilizar as suas “tropas” em combates políticos que, em alguns concelhos, poderão ser inglórios. As questiúnculas internas, entre o lado popular e um lado mais aristocrático, mais elitista, poderão constituir obstáculo a essa unidade que todos defendem, para consumo público, mas cuja fragilidade dessa defesa, todos sabem poder vir a comprometer os resultados. Até porque isso é uma coisa que o eleitorado, pelo menos parte dele, sente.

Não será fácil num contexto de eleições autárquicas. Seria mais fácil se se tratassem de regionais, onde a oposição, ainda por se entender convenientemente, e com muitos líderes para tão poucos cargos, facilitavam a vida social-democrata. Nas autárquicas, não. Pela simples razão que o eleitorado sabe distinguir e a verdade é que, hoje, há mais alternativas para as câmaras municipais do que propriamente para o poder regional. Há câmaras onde o PSD terá uma tarefa hercúlea para impor o candidato, além de, em alguns casos, ter que apostar forte e “queimar” alguém de valor para outras mobilizações. Vamos ver com quantas obras e com quantos euros se fazem as autárquicas. E isto serve para quem manda nas câmaras e quem manda no governo.

Outro dos assuntos relevantes, para este ano de 2017, é a comunicação social. As autárquicas são importantes porque definem a vida das pessoas, localmente, mas não só, para os próximos quatro anos. A comunicação social e as alterações que se apontam, podem comprometer o sector e a liberdade de expressão por muitos anos, dependendo do nível de erro que os decisores possam vir a tomar, relativamente a vendas, a compras e a supostos monopólios que mais cedo ou mais tarde terão reflexos negativos numa sociedade que, embora com necessidade de mudança a esse nível, também não pode passar de oito ao oitenta, com os perigos que isso representa.

É claro que os políticos querem é resolver os problemas em termos de gestão pública e estão pouco interessados nos trabalhadores, até porque a profissão em causa há muito que bateu no fundo e neste momento vive aos soluços, mais ou menos como os gestores da coisa pública: tanto podem gerir combóios como aviões, eletricidade ou gás, jornais ou carrinhos de cesto. Os jornalistas, um dia destes, pelo andar da carruagem, estão iguais.

É preciso bom senso e posição firme de quem ainda pode salvar isto. Porque “vender a alma ao diabo” é de uma banalidade assustadora. A falta de caráter e a falta de vergonha também. E quem decide não pode esquecer que, um dia, poderá ter que se lembrar daquela expressão popular: “virar-se o feitiço contra o feiticeiro”.

Mas a esperança é a última coisa a perder…