Pela essência da Ilha

(Foto colaborador RSM)
(Foto colaborador RSM)

A Lapinha desdobra-se aos pés do Menino. Olhando as cenas bucólicas, podem os menos avisados pensar tratar-se de mera decoração. Desenganem-se. Em cada seara ou socalco, cuidadosamente montado, fala-se de gente corajosa, ilhéus destemidos que desafiaram montanhas e resistiram ao arremesso do mar.

Século após século, pedra sobre pedra, vaga contra vaga, o madeirense moldou-se na imponência do basalto e na inclemência do oceano. Fez-se forte, único, graças a um bocado de terra que tanto teve de mãe como de madrasta.

É Natal e o madeirense abraça-se à tradição da Festa como que a querer guardar no peito a inocência de outros natais, genuínos, embalados nos cheiros da tangerina dos junquilhos, na frescura do musgo e do ensaião.

É o último reduto da memória. O progresso, entretanto, já rasgou os poios e fez desaparecer o casario singelo às mãos do frio betão.

Então na Lapinha, ou Rochinha, recriam-se as cenas do quotidiano popular, recuperam-se as gentes e sublima-se a terra fértil mas obstinada. As figurinhas animam-se em fanfarras, procissões, lidas e orações. Pastores e gentios, Reis Magos e rebanhos, todos a caminho para adorar o Menino. Escarpa abaixo, por lombos e lombadas, vales e quedas de água, veredas e latadas, o povo ruma à gruta da Natividade.

Um louvor à Vida, a do espírito e a do corpo, para que a essência da Ilha se perpetue nas gerações vindouras.


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