Quando um Homem quiser

(Foto Rui Marote)
Foto do colaborador RSM.

Os créditos da foto são do nosso colaborador RSM. Tal como em muitos outros Natais, também em 2014 as iluminações reinventavam a cidade em criatividade e dimensão, de forma a capturar a magia da quadra.

Milhões de pontos de luz que desafiam o frio da noite e da solidão. Um convite à alegria, mas também uma interpelação ao exercício da humildade e da partilha. Da Humanidade, pois o Bem não tem calendário nem hora marcada. E o Natal deverá acontecer sempre, mesmo que muitos homens pareçam assim não desejar.

Tomemos então como nossas as palavras do poeta. Que nos inquietam e nos guiam para além da cegueira das luzes. A imagem convida a olhar mais alto, mais longe. Afinal, o Natal é….

QUANDO UM HOMEM QUISER (clicar)

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in ‘As Palavras das Cantigas’