O que é um aluno para os rankings? Um número ou uma Pessoa?

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Ilustração de José Alves.

Mais uma vez os rankings escolares são divulgados em todo o país e com eles se instala a confusão nos alunos, nos pais, no cidadão comum e na própria comunidade escolar, tantos são os números e as variáveis que estas estatísticas disparam para a sociedade. Pior: metendo no mesmo “saco” variáveis distintas, extrapolando resultados sem ter em conta as especificidades de cada realidade escolar.

Ao FN, os rankings merecem colocar aos autores desta mostra seletiva das espécies as seguintes questões, gizadas não nos gabinetes dos teóricos da educação ou numa grelha de excel, mas no terreno, no dia a dia da missão de ensinar, de educar, de fazer crescer… Pessoas.

. em que posição ficam aqueles alunos aceites pelas escolas, sem vontade nenhuma para o estudo, mas que são as escolas, sobretudo e primeiramente as públicas, a ampará-los?

. em que posição ficam aquelas escolas que lutam com dificuldades orçamentais diárias para que nada falte à sua comunidade, em particular aos alunos?

. em que lugar ficam aqueles alunos que, tendo obtido 10 ou 9 valores em exame, são, todavia, alunos inteligentes e Pessoas de letra maiúscula?

. em que lugar nos rankings ficam os estudantes que, tendo média de frequência do secundário de 18 valores, tiram no exame 9 valores? Ou aqueles que, tendo 10 valores de frequência conquistam 15 valores no exame? É caso para fazer a chamada “caça às bruxas” para apurar quem falhou e castigar?

. em que lugar ficam os professores e as direções das instituições escolares cujos alunos mostram em apenas 2h30 ou 3h00 de exame que renderam 9 ou 20 valores?

. em que lugar ficam os professores que diariamente se reinventam na sua missão para envolver e despertar o aluno desinteressado do mundo, da vida e da aprendizagem?

. em que lugar fica a educação, a aprendizagem, quando o ensino, por ordem do Ministério da Educação, quase que se domestica e padroniza ao modelo dos exames nacionais para depois ninguém ficar mal nos rankings?

. em que lugar nos rankings ficam os alunos com necessidades educativas especiais que, em nome da apregoada inclusão, também fazem exames nacionais e entram nas estatísticas das escolas?

. em que lugar fica a dedicação dos funcionários das escolas que zelam diariamente pelo seu regular funcionamento, para que nada falte aos alunos, sobretudo os mais carenciados?

. em que lugar ficam os pais que confiam os filhos às escolas, uns com muito e outros com nenhum empenhamento com o seu educando e a escola?

. em que lugar ficam  os professores que trabalham sem horário a reinventar estratégias para acordar os alunos do torpor viciante das novas tecnologias que lhes roubam o interesse pelo estudo e a cultura do esforço que forma o adulto de amanhã?

. em que lugar nos rankings ficam aqueles que abandonam a escola, apesar do exaustivo e desgastante trabalho da comunidade escolar para o motivar?

.por fim ou talez o início de tudo, o que é um aluno para os rankings? Um número ou uma Pessoa?

A estas e a muitas outras questões que importa colocar, respondemos apenas com a urgência de haver bom senso. Uma escola não é uma mercearia. Ninguém é indiferente às estatísticas, há dados que carecem de reflexão, mas as escolas, nomeadamente as públicas, abraçam todos os alunos e a todos procura encaminhar sem medir esforços. E esta missão não cabe em nenhuma estatística ou, se insistirem nos números, rebenta todas as escalas ou mapas de excel. Ensinar foi, é e será sempre um ato de Amor a uma Pessoa diferente de todas as outras.