
Gostava de convidar os leitores para umas imaginárias cenas da vida conjugal.
Cena 1. Eu não sei se o meu marido não está a exagerar com esta história das pontes e das ribeiras. Quando, há 6 meses, ele alertou para as obras nas ribeiras e para o abate da Ponte Nova, eu achei que era, como direi, um preciosismo. Mas calei-me quando vi no Facebook mais de 1300 partilhas. Tantas???
Cena 2. Depois, insistiu por causa do betão a tapar as muralhas do Oudinot. Foi explicado, pela Secretaria que tutela as obras, que não podia alterar o projecto pois custava uma fortuna e a Europa não deixava. E eu disse-lhe: Estás a ver? É muito caro e não pode ser! Ele não se calou e eu tive que engolir em seco quando de repente vejo o projecto alterado e nunca mais se falou de custos nem dos castigos da Europa… Esta agora!?
Cena 3. Um dia fui ter com ele e disse-lhe: Olha que o engenheiro do projecto diz que as muralhas estão em risco, com buracos por detrás, que estão ocas e que são peças de dominó. E que estas obras têm que ser feitas.
Claro, respondeu-me, e como eu já disse alto e bom som que isso é tudo mentira, só estou à espera que alguém rebata o que digo. E a verdade é que ninguém abriu a boca. Comecei a pensar que se calhar ele tem razão.
Cena 4. E continuava a revoltar-se contra os impactos de tudo isto nesta singular cidade atravessada por 3 ribeiras; no monumento histórico que são as muralhas; no desaparecimento dos mantos de buganvílias que se estendiam em tapete aéreo de margem a margem.
A seguir, mostrou-nos a antevisão das ribeiras depois de acabadas as obras: uns túneis de betão armado com uns travessões cá em cima, onde até se pode andar de bicicleta! E eu, que já estava avezada a pensar mal do que ele vinha a dizer há tanto tempo, dei comigo a pensar ‘Querem ver que ele tem razão?’
Cena 5. A certa altura, e depois de ouvir o Secretário eu disse-lhe Afinal o Secretário só não faz mais obras na ribeira, para cima dos Viveiros, porque não tem dinheiro.
Pois, respondeu-me, e quando tu tens uma casa onde entra água o que é que deves fazer? Arranjar o telhado ou pôr um alguidar no chão? Hesitei, mas fiquei a matutar ‘Será que, às tantas, ele tem razão’?
Cena 6. A certa altura, o governo confirmou que tudo isto é para maior segurança! E, vai daí, eu disse Desculpa, mas a segurança para mim é tudo.
Com toda a paciência, respondeu Olha lá, explica-me porque é que ninguém me desmente quando digo que as ribeiras estão mais apertadas; que nenhuma das pontes está em risco de cair; que estas muralhas durante 200 anos aguentaram cerca de 30 aluviões e defenderam a cidade com eficácia; que o que se está a fazer não resolve o problema da enorme quantidade de massa sólida que chega à cidade nos aluviões; que a ponte do Cidrão está mais baixa do que era; que a actual foz das ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes vai entupir. E que tudo isto não tem nada a ver com segurança, mas tem a ver com outros interesses que não os da cidade. Não consegui explicar porque, de facto, ele tem razão.
E digo eu: quando aquece, o betão escalda; estas cortinas de betão, ribeira abaixo, não vão tornar a baixa da cidade mais quente? Ah!, não deve ser assim. Afinal, há um estudo de impacto ambiental que diz que estas obras não têm efeitos negativos no ambiente. Será??
E agora, ao olhar para tudo isto eu também pergunto – quando houver uma aluvião, como é que vai ser? Como vão tirar as pedras de dentro da ribeira? Rebentando com os muros? Mas rebentando com os muros partem-se as travessas! E depois? Ou tudo já ficou partido com as toneladas de pedra que chegam cá a baixo? Isto é mesmo de loucos!
‘Cenas’ à parte, e sem mais rodeios que a clara tomada de posição é uma questão de cidadania, ele tem mesmo razão e o que estão a fazer a esta cidade é um verdadeiro crime: patrimonial, ambiental, paisagístico. No património, perdemos. Na identidade e na paisagem, foi um ar que lhes deu. E de segurança, também não ficamos mais bem servidos.
E, acreditem, como eu gostava de poder dizer que ele não tem razão!
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