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Portugal e a crise global, de Adriano Moreira, tem o subtítulo Só a águia voa sozinha (2016), tem a chancela da Almedina (260 pp.).
Trata-se de uma compilação de textos relativos a outras tantas intervenções do autor, em diversos fora, nos últimos três anos e retoma linhas recorrentes, na sua obra, que têm consubstanciado um quadro de referências para o pensamento contemporâneo acerca do que designa como “perigos do globalismo”, questões de segurança vitais para a Europa, em particular e para o mundo ocidental, em geral.
Ouvir/ler Adriano Moreira, além de nos colocar no lugar de eternos aprendizes, incita-nos à difícil decisão de agir. Logo na introdução, o autor propõe uma síntese chamando a atenção do leitor para um estado de apatia que, segundo o mesmo, terá caracterizado o mundo ocidental no post-guerra fria e no que designa como mundo “post-atlântico”.
O livro organiza-se, então, em capítulos autónomos que, pela própria natureza da obra, correspondem a uma diversidade subtemática no âmbito dos assuntos que, a seguir, enumeramos. Dominam as áreas da (in)segurança mundial, da governança global, dos problemáticos avanços e recuos da geoestratégia dos dois blocos que parecem nunca ter deixado de regular o mundo e dele apoderar-se das formas mais diversas: quer no campo de acção de um soft power (linha proposta e desenvolvida por Obama), ou de um hard power (mais na linha de George Bush). Esta é uma terminologia de Joseph Nye que se aplica à utilização das forças militares e económicas em sentido coercivo sobre países/territórios terceiros e que tem dominado o discurso da Diplomacia mundial. Uma outra linha de pensamento, recorrente nas obras e nas intervenções públicas de Adriano Moreira, é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, texto que resulta de uma visão ocidental do mundo e que, ao não obter acolhimento por parte de países cujo paradigma ético se distancia dos princípios nela consagrados, mais do que regular o designado mundo ocidental terá, significativamente, contribuído para adensar as divergências existentes. Torna-se claro, ao longo dos textos e no permanente diálogo com o leitor que o escuta/lê, que Adriano Moreira lamenta essa referida apatia europeia/ocidental, assim como o que considera erros de avaliação e de intervenção face aos crescentes e cada vez mais complexos perigos do globalismo. A evolução do conceito de guerra, dos seus alvos e modus operandi, a tecnologização dos estados de beligerância, a perda de valor da vida tornando a figura humana num instrumento balístico, transformaram estas em questões mais complexas colorindo o mundo dos tons da instabilidade e do medo.
Um dos capítulos, curiosamente ausente de referência no índice, diz respeito a uma intervenção realizada, na Madeira, em novembro de 2015. Intitula-se “A grande estratégia nacional e a Madeira” e retoma, como já referi, os tópicos dominantes no pensamento do autor. Aquando desta intervenção, ainda não tinha sido declarado o “Brexit” e Trump era apenas um traço de folclore no quadro eleitoral dos EUA. Neste texto, em particular, para além de proceder a uma revisão histórica da matéria, o autor coloca a Madeira no centro da expressão do seu pensamento humanista acerca da complexidade que caracteriza as relações internacionais, na actualidade.
Dos grandes pensadores de Portugal, neste século, despedimo-nos, durante este ano, de Herberto Hélder e de João Lobo Antunes. Destes, de Eduardo Lourenço, entre muitos outros, e do autor a quem dedicamos esta reflexão, fica-nos a certeza de que a Humanidade terá sido condescendente com esta Nação ao legar-nos tamanha qualidade e incomparável sabedoria. Adriano Moreira revela, em Portugal e a crise global, como a disponibilidade para pensar, reflectir e deixar-se acompanhar nessa tarefa, resultam de um profundo Humanismo, de “um modo especial de ser”, nas palavras de Guilherme d’Oliveira Martins, até porque só a águia voa sozinha.
Ouvir/ler Adriano Moreira é percorrer uma vasta cartografia de conhecimentos, de saberes e de conexões nos antípodas das redutoras e quotidianas frases feitas, repetidas, descontextualizadas e, sobretudo, desenraizadas que pululam as redes sociais, for-matando usuários e seus congéneres numa rede real de mesmificação não pensante que, acriticamente, propaga palavras aos ventos digitais. Adriano Moreira conduz-nos por uma riquíssima caligrafia, pelo Tempo das pausas, deste paradoxo e desta incongruência. Diria, mesmo que a caligrafia de Moreira o conduz a uma estética da Paz para o mundo cujo palimpsesto deixa entrever as letras e as linhas com que se escreve a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não se trata, aqui, da teluricidade de Torga. Mas Adriano não deixa de cotejar o poeta no abraço à Nação, como uma manifestação universal da vontade de Paz na casa comum.
Destacaria, ainda, o capítulo “A lusofonia e o património imaterial da Humanidade”, texto facultado ao Instituto de Defesa Nacional, em 2013: “A língua não é nossa, também é nossa” (p. 169, sublinhado meu). Deste modo se resume, segundo o autor, “a maneira portuguesa de estar no mundo”. A do autor também.
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