Escândalo nos preços das marinas: marinheiro diz-se cigano com o barco à deriva

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Fotos Rui Marote

Quem acalenta o sonho de ter uma pequena embarcação na Madeira, por paixão ao mar, deve preparar-se para abrir os bolsos e enfrentar uma série de problemas que, à partida, estão longe de serem conhecidos na totalidade. De forma metafórica mas sentida, um destes aficionados pelo mar assegura ao FN que, para poder ter um veleiro, por mais modesto que seja, na Madeira, é preciso preparar-se para”uma vida de cigano”, desde logo para poder encontrar lugar de acostagem. Mais: preparar-se para ver o dinheiro sair da carteira por cada diária numa marina da Madeira Nova, quando esta tiver lugar, o que raramente acontece…

É nestas condições que se escuta com ferquência o apelo, de vários quadrantes, para que os madeirenses invistam ou regresssem ao mar. Uma ironia para aqueles que fizeram a rodagem e deitam agora as mãos à cabeça.

O senhor “X”, cuja identidade o FN não divulga por razões óbvias, é funcionário público na Madeira e sempre teve o sonho de adquirir um barco modesto, por afinidades familiares ao mar e pelo encanto que essa evasão pode naturalmente proporcionar. Eis que surgiu a oportunidade de adquirir um veleiro de cerca de 8 metros, cuja compra considera ter implicado um custo bastante acessível. Longe de o saber, esta fora a parte mais fácil do “calvário” que esperava o marinheiro.

Cumpridas as formalidades das vistorias e de outros quesitos legais, o marinheiro “X” queria “um lugarzinho na Marina do Funchal para abrigar o barquito, pois o inverno também estava à porta. Primeiro obstáculo: a lista de espera é muito extensa. Alternativa? Porto de abrigo de Santa Cruz. Porém, este torna difícil, pela sua configuração, a amarração. Nada feito. Outro destino…

Segunda alternativa: Porto de Machico? Mais eis queo cenário é o de um aglomerado de embarcações, quer de residentes quer de estrangeiros. Sem lugar…

canical-quinta-cruzes-quinta-lordA Marina da Quinta do Lorde foi a terceira demanda de lugar. À semana, cerca de 100 euros, já com um desconto especial de 25%. Isto para um veleiro de cerca de 8 metros. A embarcação não estava a navegar e precisava de ser dotada de alguns equipamentos, como rádio, antena e outras miudezas. Conclusão: na hora de pagar, por duas semanas, 200 euros. Um mês implicaria 400 euros, já com o tal desconto generoso. Apesar do espanto, até se compreende, condescende o nosso interlocutor, porque se trata de uma marina privada e a lei do mercado é aberta. Quanto dureza nos custos, faz agora contas este madeirense, que se quer marinheiro, mas de águas doces.

Custo insuportável no Caniçal, regresso à Marina do Funchal, onde a embarcação ficou “num cantinho”, reservado a embarcações que estão de passagem, seja residente ou estrangeiro. Por 14 dias, a fatura rondou cerca de 300 euros.

Há que partir em busca de novas soluções com “o barco às costas”. Mar aberto para navegar e sem lugar para “estacionar”. Eis que este marinheiro decide amarrar na chamada “Marina nova, a Marina do povo”. Mas confronta-se com os problemas de uma Marina com fissuras e outros constrangimentos, até mesmo de tonelagem, já que o seu veleiro tem umas escassas 3 toneladas e pouco. Como um azar não vem só, eis que o veleiro bate num pagão que lhe danificou a proa, na sequência de um parafuso furtivo que se soltara da engrenagem. Apesar da simpatia de um dos engenheiros ligados à Autoridade Portuária, o veleiro não poderia continuar neste espaço nem tinha sequer autonomia para navegar.

marina 3A maratona da casa às costas, qual cigano, prossegue ilha adentro. Desta vez, para a Calheta. É atendido pela manhã por uma funcionária que lhe terá fixado o preço de 149 euros ao mês, já com especial favor, com três lugares à disposição. Regressa ao Funchal para tratar de encontrar alguém apto a proceder à reparação dos estragos. No regresso, à tarde, o preço já era outro: com a nova tabela ultrapassa largamente os 300 euros. Incrédulo, diz ter contactado o engenheiro prestável da APRAM para esclarecer o imbróglio, com a indicação da funcionária de que o marinheiro terá feito confusão quanto ao preçário. Talvez sim, talkvez não… Aflito, ainda comentou que, até 150 euros ficaria na Calheta, mas depois teria de sair , dado o preço incomportável. E apelou à boa vontade do senhor engenhiro da APRAM para lá permanecer até segunda feira. Mas os imprevistos do trabalho e da vida só lhe permitiram regressar à Calheta na quarta feira, e não na segunda como combinado, para buscar o barco. A fatura pelos três dias foi de 60 euros.

Não se pode ter sonhos

Deixou a Calheta atordoado com a pergunta: qual o destino de varagem nesta terra rodeada de mar? Câmara de Lobos, solução impossível, dado ser uma zona piscatória… No vazio e na falta de respostas, regressou à Marina da Quinta do Lorde que, apesar de cara para um modesto funcionário público, oferece condições de segurança.

Neste momento, chega à conclusão: “Não se pode ter sonhos!  Melhor dizendo, o sonho de ter um barco é quase impossível, pelas exigências que se lhe seguem. Desde logo, não há espaços suficientes para varagem das embarcações e os que existem são caríssimos. Na Marina do Funchal, é tempo perdido procurar lugar. Só pagando a diária na condição de barco de passagem. Ainda assim, a Calheta, apesar de oferecer condições mínimas, é das mais caras”.

Quando os proprietários das embarcações se confrontam com as dificuldades, os responsáveis pela gestão das marinas e área portuária “esquivam-se de ajudar” e “não há benefícios para os residentes que pagam como estrangeiros que aportassem na Ilha”. Resultado: “Uma pessoa anda com um barco à deriva como se fosse um cigano, sem lugar para ficar e não há ninguém que deite a mão. É um angústia, tanto mais para quem tem um trabalho e só pode dedicar atenção ao barco nas horas vagas”.

Por isso, quando escuta os nossos governantes se lamentarem de que os madeirenses estão de costas para o mar, responde assim: “Pudera! Onde amarrar o barco? Quanto custa? Ter o barco é quase a parte mais fácil, mas os problemas sucedem-se depois, em cascata, na maior da solidão”. Quem ajuda estes aficionados do mar?