O mundo ocidental, em particular a Europa, acordou surpreendido com a eleição de Donald Trump. Mas, será essa eleição assim tão surpreendente? Eu diria que não, porque não pode ser vista como um caso isolado e se não o for, percebemos que algo está a mudar, nas democracias ocidentais. Em França, Marine Le Pen pode ganhar as eleições. Na Hungria, Viktor Órban é primeiro-ministro. Os populistas do Partido da Lei e Justiça venceram na Polónia, com 39% dos votos. No Reino Unido, o UKIP ganhou as eleições europeias de 2014 e o seu líder de então, Nigel Farage, foi o grande vencedor do referendo que ditou a previsível saída do país de sua Majestade da União Europeia. Na Grécia, o Aurora Dourada ganha força aos partidos tradicionais e o Syriza governa. A Alternativa para a Alemanha (AfD) teve resultados surpreendentes, este ano, nas eleições regionais. Trump não pode ser analisado como um epifenómeno. É a face mais visível de um fenómeno global, que ameaça as sociedades e as democracias liberais.
A globalização deixou para trás milhões de cidadãos que, por uma razão ou por outra, não se adaptaram aos novos tempos e às novas exigências. Ameaça, ainda, abandonar outros milhões à sua (má) sorte. As redes sociais e a sua difusão quebraram os mecanismos tradicionais (mais, ou menos legítimos) de controle da informação. Transformaram em público aquilo que era tradicionalmente privado. Abriram novos canais, novos touch points entre os cidadãos e as instituições, e entre os cidadãos, sem (ou com reduzida) mediação.
Paradoxalmente, os sistemas políticos, e no seu centro os partidos, não acompanharam as evoluções acima descritas, ou pelo menos, não as acompanharam à velocidade exigida. Como resultado, são hoje questionados, diretamente, através do aparecimento de outros projetos políticos, populistas, que atraíram a si o voto dos descontentes, dos tais milhões de cidadãos esquecidos pela globalização e menorizados (e muitas vezes, subestimados) pelas instituições políticas quando estas procuraram resolver a crise.
Neste momento, as democracias liberais estão em risco e poderemos assistir à tomada do sistema político por populismos e os extremismos (de direita ou de esquerda) . Para minimizar o perigo há, em primeiro lugar, de perceber que as instituições que as representam (nomeadamente os partidos), têm de mudar. Devem abrir-se aos cidadãos, devem integrar novas propostas e devem comunicar de outra forma. Regressar atrás, a soluções do século XX, a personalidades que fazem parte do velho establishment, não é o caminho e Clinton é a prova.
É fundamental perceber que os tempos mudaram. Que problemas novos exigem respostas novas. Que por vezes, a dictomia direita/esquerda deve ser ultrapassada em nome da defesa da democracia, sem que essa ultrapassagem signifique deixar para trás matrizes doutrinárias que são, sempre e em última instância, diferenciadoras.
É urgente que quem governa o faça para todos. Que quem é oposição o seja de forma construtiva. Que a política volte a sobrepor-se ao sistema financeiro.
É ainda da maior relevância procurar voltar a integrar aqueles a quem a globalização deixou para trás e perceber que as crises não se resolvem através da simples aplicação de fórmulas de cálculo em folhas de Excel, porque os cidadãos não são números.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





