Onde o tempo não corre

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Estou  longe da ilha há  algum  tempo. Escoam-se  as  horas  a  um  ritmo  que não  se  domina,  e  diz-se : o tempo passa  tão  rápido!  …É  a nossa  inaptidão  para  travar  a  vertigem  dos  fenómenos  que  se  vão  operando  no  campo  magnético  que  envolve o  planeta.  O  Universo  move-se  e  evolui  segundo  leis  físicas  independentes  da  vontade  humana e  do  seu  arbítrio. Quando os humanos intervêm  o planeta manifesta novas reacções.

A  partir de 1990*, a Terra,  de  acordo  com  sucessivas  alterações  das  frequências  vibratórias  que  vêm  abalando o seu  campo  magnético,  regista  mudanças  notórias  nas  formas  de  vida, no  comportamentos  dos  seus  habitantes,  no  equilíbrio  ecológico,  nos  processos  climáticos, nos  movimentos  de  rotação  e  translação. Com  o  aumento  dessas  frequências  o  planeta  sofreu  alguns  desvios,  de  tal  modo  que  os  polos  se  encontram  a  novas  distâncias  do  sol,  o  que  interfere  na  duração  do  tempo. A  Terra  é  um  superorganismo  vivo  e  pode  dizer-se  que  o  seu  coração  se  ressentiu  e  disparou. Estamos  na  transição  para  um  novo  estado  de  ser  em  que  ela  procura  formas  de  reaver  o  seu  equilíbrio  natural,  tal  como  nós,  que  a  acompanhamos  por  sermos  da  mesma  natureza.  Embora  algumas destas  asserções  careçam  duma  verificação  convincente, é  certo  que  todos  testemunhamos  a  rapidez  com que  decorrem  os  abalos  sociais  e  históricos e  a  vivência  do  tempo.  O movimento evolutivo das civilizações  pela  interferência  de novas capacidades  da inteligência humana  são uma consequência dessa  espantosa dinâmica universal  que tudo muda, de  cada vez  em mais  curtas  frequências. Para o bem e para o mal, esta é a  invencível realidade.

Se  o  tempo  passa  tão  rápido, não  passa  a  memória  que  os  olhos  gravam  duma  geografia  rica  em  acidentes  tectónicos  que  contam  a  história  das  serras, das depressões , dos  vales,  das  planícies  e  dos  desertos, e  marcam  o  corpo  do  planeta  determinando-lhe,  nos  vários  lugares,  um  perfil  e  uma  identidade. As  serras  são  espaços  surpreendentes  onde  o silêncio  parece permitir  que  se  oiça a música  do  Cosmos  e se perceba  a  existência  das esferas,  essa  progressão  magnífica  do  Universo  que  nos  conduz  ao  Infinito.

Assim, longe da ilha, ao  embrenhar-me de vez em  quando  por diferentes  latitudes, quando  a  distância  se alonga por  dois  ou três  meses de ausência, há o sentimento de que o tempo pára, diante dum  rio de águas  serenas. E pergunto-me: Onde começam  as  águas  dos  rios? E respondo-me: Estas águas não têm princípio nem fim, porque,  vindas  do  interior  da  terra,  procuram-na  de  novo,  num ciclo perfeito de infindáveis mutações.  A sensação  é  a  mesma  perante os abismos  abertos  nas  montanhas, os gigantescos  despenhadeiros  que me  travam  os  olhos  e me  prendem ao centro do mundo.

Subi ao alto de Alvados onde a serra se enriquece de grutas, nascentes e depressões para  chegar à Fórnea.  A Fórnea é a enorme depressão  criada pela erosão  das  águas que provocou o abatimento das rochas numa área de um quilómetro, desde o período Jurassico. Por aqui  se percebem discretos  veios que vão furando o solo e se juntam depois para formar cascatas  e pequenos afluentes donde resultam mais  longe  os  rios Lena  e Alcaide. A vertente é uma  altíssima encosta  calcária ,visão esmagadora  duma beleza  primordial .Mas  o que me interessa  neste  lugar  é  mais  do  que  a  sua  geografia. Este registo  visual  remete-me  para  outros idênticos  lugares, na ilha  que  de novo me chama.  Uma  alma  oculta se manifesta  na arquitectura poderosa do Curral  ou  do  Pico  Ruivo, na espantosa depressão  do  Chão  da  Ribeira,  de  todas  as  ribeiras  que  traçam  na  ilha  as  veias  de  um  corpo.

É entre  montanhas  que me  sinto no centro  do  Mundo, o coração da Terra,  neste  planeta  que,  por  mais  que  os  mares  se  agitem, ou as tempestades ameacem,   revela,  através dos grandes e profundos   silêncios, a intensa  energia  que, lentamente, realiza e  unifica o tempo.  São  estes os momentos  em que, esteja  eu onde estiver, não sendo de lugar nenhum, me sinto simultaneamente em toda a parte , onde não  contam,  nem a distância, nem  a  corrida  do  tempo.

Coloco-me de repente  sob o céu  do  Pico  Ruivo, o segundo  céu,  aonde chego  ao subir a montanha, depois de romper  as nuvens  baixas  e densas  que pairam acima da Laurissilva em certos dias amenos de Outono. Ali é ainda possível ver o sol brilhar no fim das tardes, enquanto o resto da ilha  se cobre  da  sombra do  primeiro  céu. Entre os dois  céus há um tempo só, que coabita  com  a Eternidade. Um  tempo  que não se move, que,  verdadeiramente e  apenas,  é.

 


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